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315 estórias

Tuesday, May 14, 2013

O Gungunhanha

Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Há quem pense que todas as virtudes principiam no pouco e não no muito. Por isso, quando a corneta ecoou pelo pavilhão, a formatura aconteceu mais depressa do que o habitual, o chefe de turma, o 191, não teve necessidade de ameaçar os colegas com um “abrir fileiras marche”, para facilitar a distribuição de abrunhos, com a ajuda dos adjuntos, o 81 e o 125, que se ocupavam da segunda e terceira filas respetivamente, e que no fim se tinham de apresentar ao superior hierárquico para também receberem a sua dose, um sinal inequívoco de que o princípio da equidade já se aplicava nestes tempos da outra senhora, pois caso o Peidão não conseguisse manter na ordem os trinta e três colegas, arriscava-se a um enxerto à noitinha na última formação da companhia, onde seria acusado de incompetência. Se aqueles que agora ficaram a meio de qualquer coisa quando decidiram o futuro do Colégio Militar tivessem passado por aqui, a história talvez fosse outra. Continuemos! O temperamento do professor de matemática por quem todos esperavam, tinha uma componente de desassossego, composta por uma multidão de potencialidades. O seu nome próprio era Afonso, o porte avantajado fê-lo “Bifonso”, mas a cor da pele depressa o transformou em Gungunhanha. O engenheiro apareceu a correr, como era habitual, e de óculos escuros, apanhando desprevenido o 191, que se viu impossibilitado de dar as ordens à turma:
- Estão a achar piada? – Perguntou o Gunga, aproximando-se da terceira fileira e enfiando um flatete, a sua especialidade, ao Cuecas de Buda, que recuou com o impacto, seguido de um caldo ao Horrível, que lhe fez saltar a boina. Regressou ao local de origem e encarou de novo o Peidão, que deu início às formalidades. Duas “direita volver” sozinho, seguido de uma ordem para o geral:
- “Firme”, “Siope” (sentido).
Mais duas “direita volver”, continência ao professor e pedido:
- Dá-me licença que mande entrar?
Autorização dada com um sinal de cabeça, nova “dança” do chefe de turma, mais dois “direita volver”, seguido de uma ordem coletiva de “esquerda volver”, um batimento do pé direito no chão, “passo de corrida” até à fileira mais próxima da porta e, em sentido, nova ordem, “em frente marche”, afastando-se para a do meio. A mesma coisa mais duas vezes. Mas desta vez os colegas excederam-se e entraram a marchar, fazendo um barulho ensurdecedor com as botas no soalho. Perfilharam-se em sentido junto às carteiras, e esperaram pela autorização para se sentarem. O Gunga subiu para cima do estrado com cara de mau, e por momentos todos viram o Adamastor, assunto que só seria estudado alguns anos depois com o Ferrari, o Ferreirinha do Carocha e da gabardine cinzentos, e do permanente cigarro Kart entre os dedos, que enchia as aulas de fumo.
- Querem brincadeira, pois vão tê-la. - Prometeu o único professor de matemática que entregava os testes 10 minutos depois de os recolher. - Estou a ver que querem desenhar infinitos de joelhos!
Houve distribuição de estaladas, seguindo-se uma revista às carteiras com nacionalização seletiva de bolama, que foi consumida à medida que ia sendo apreendida. Quando ia a passar na fileira junto às janelas apercebeu-se que alguém estava com o escape destemperado:
- Peidaram-se, - gritou, veloz e acutilante. – Quem é que se peidou?
Silêncio absoluto. Olhou para o Bina,  viu a cor de pimentão da sua cara, e presenteou-o com duas fabulosas lambadas que ecoaram pelo pavilhão, tendo o barulho chegado aos ouvidos do oficial de dia, o capitão Oscaralhito, que estava mais preocupado a pentear a penugem, a partir da orelha, tentando desesperadamente tapar a careca. Virou costas e dirigiu-se para a secretária, mas a meio do caminho deu um salto e encarou de novo a turma, especialmente o Horrível, que fizera uma careta, confirmando-se assim o boato de que este docente também via pelo “olho-do-cu”. A mesma dose, mantendo a tradição colegial, castigar sempre bem, pouco e no princípio, para nunca se castigar mal, muito e no fim.

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