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Thursday, August 23, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 15 - A Firmeza


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


"Castigava sempre tão bem, tão pouco e tão no princípio que quase nunca lhe aconteceu ter de castigar mal, muito e no fim" José Manuel dos Santos 

O comandante-aluno estava a ler, como habitualmente, a Ordem de Serviço, o último ato oficial antes da companhia destroçar para ir dormir, segundo o manual, mas que na prática não passava de um pró-forma, pois geralmente era a seguir a isto que se dava início à festa-brava. Todos foram informados do nome do oficial nomeado para o dia seguinte, que seria o capitão Caetano, dos colegas que iriam ao Hospital Militar, o 607 (Six) e o 305 (Vinasse), que conseguiram atingir respetivamente os 41 graus e os 40,5 graus, depois de terem esfregado toda a pasta de dentes Colgate do 652 (Xoxo) nos sovacos, escapando assim ao teste de Português do Ferrari, e daqueles que teriam consultas marcadas na Enfermaria, e mais outras secas exclusivas do meio militar. Finda a leitura, passou-se ao que interessava. O aluno 191 (Peidão) foi chamado pelo comandante da companhia, que estava a meio do pavilhão, equidistante dos quatro pelotões, e os procedimentos de aproximação foram cumpridos, tendo-se perfilhado em sentido junto ao seu chefe e colega mais velho. Iria ser castigado por ter tirado o barrete ao 125 (Horrível) enquanto este defecava, tendo-o de seguida atirado para dentro da latrina do lado, onde aterrou em cima do conteúdo intestinal do 470 (Bolinha), que não tinha puxado o autoclismo. O réu ainda tentou justificar a ação como uma resposta de retaliação por ter sido vítima da vítima, mas foi condenado na mesma a quatro festinhas, que foram de imediato servidas a frio, e que o puseram a cuspir fininho e com a visão afunilada. Mas havia mais em lista de espera. Seguiu-se o 300 (Elefante), que foi sentenciado a um biqueiro no traseiro por ter apresentado vários vincos no lençol da cama, sinal de que estava mal esticado, assim como o fato de treino amarfanhado dentro do cacifo. Explicou ter sido obra de terceiros, mas teve mesmo de dobrar-se para que a pena pudesse ser cumprida. Levantou os pés do chão após o chuto, e regressou ao pelotão com um andar esquisito. Após este cerimonial de cariz individual, seguiu-se a pena coletiva por terem demonstrado pouca aptidão militar durante a parada da hora do almoço, uma vez que era uma terça-feira, dia de apresentar cumprimentos ao oficial nomeado. Na altura do “olhar direitaaa”, quando os pelotões passavam junto ao capitão Espírito, que costumava resolver os problemas disciplinares com uma régua personalizada, em vez de se ouvir o som seco dos calcanhares a bater em uníssono, ouviu-se um metralhar de botas, que deixou o comandante de pelotão à beira de um ataque de nervos. E não foi só com o primeiro pelotão, aconteceu em todos os quatro. Chegava agora a vez da retaliação: a tradicional Firmeza!
- Cócoras, - ordenou o comandante da companhia aluno.
Ninguém podia mexer-se, os braços estavam esticados em frente, e era proibido sentarem-se nos calcanhares. A tripa do 384 (Leitão) não aguentou a pressão e a bufa que se ouviu fez eco, e provocou uma risota geral, sendo todos de imediato contemplados com vários penaltis. Quanto ao bufador foi imediatamente chamado pelo chefe máximo da companhia e teve pena sumária de seis festinhas bem aviadas. E com este graduado, com o número 12, havia sempre um ritual: abanava primeiro a pulseira onde tinha gravado o nome e o grupo sanguíneo, e só depois disparava. Após várias séries de um minuto, passou-se à marcha à volta do pavilhão, com um “olhar direitaaa” numa das pontas, até a coordenação do batimento dos calcanhares estar perfeita. A festa prolongou-se até ao toque de “recolher”, e acabou com um “passo de corrida” e uma ordem para uma “apresentação à alvorada” coletiva. Mas também havia firmezas personalizadas e em locais pouco convencionais, como aquela a que foram sujeitos o Peidão (191) e o Horrível (125), na casa de banho enquanto o graduado aliviava a tripa! São aconchegos da memória que guarda os elos capazes de nos fazer sentir o espaço, como em nenhum outro lugar. Se fosse agora as mães receberiam de imediato um sms “há grad k ker firme enkt kaga”, e o carrasco ainda não estava com as calças em baixo e já tinha a visita do diretor e da TVI em direto, não sem antes serem bombardeados com a publicidade sobre a vantagem da toma diária de um “Activia com Mel” sobre a tripa. Tempos esquisitos estes!

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