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315 estórias

Saturday, August 13, 2022

Os Cromos do Futebol P.A.

 

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 54

Se conseguisses ver a tua vida desportiva de fio a pavio, o que é que farias? O Futebol PA sempre foi uma fábrica de campeões, por isso quando o ardina António Jorge deu o jornal ao Pingamisú e este leu que o filho fazia a “receção perfeita que lhe permite preparar o passo seguinte”, deixou cair uma lágrima e um pingo de mijo de emoção. E para agradecer a todos aqueles que mostraram ao seu descendente como não se devia jogar à bola, abriu a caderneta de Cromos do Futebol PA e deu de caras com o nº 1, o Abafador, na pessoa do Capitão Porão, o mais velho jogador, um Eusébio paçoarcoense, seguido do nº 2, o Presidente, afastado do primeiro a pedido deste mas junto ao nº 3, o Choné, o Robocop da bola e pai de uma resma de futebolistas: o 91, Trazfácil, o 92, Maninho Ensina, o 93, Taroulo e o 94, Calcinhas, que trouxeram uma nova maneira de encarar o jogo após a passagem do milénio. Com o indicador fez uma festa nestes últimos amigos e agradeceu:


- Obrigado por não terem ensinado nada, tal como eu, à minha reforma dourada, perdiz, petiz, petiz, quero eu dizer, - e olhou para o biberon à procura do grau alcoólico do meio-gordo branco.

E por causa do biberon deu de caras com o nº 4, o Bibelot, uma espécie de Trovão que insistia sempre em jogar na grande área adversária para marcar golos de cabeça. Quando viu o nº 5, o Mac Macléu Ferreira, sentiu um vento a puxa-lo, teve uma visão imperfeita que lhe revelava o segredo de algo que acontecera suspenso na geografia intemporal dos sonhos. O caixa de óculos loirinho era um diabo em campo (um pré-Ricardinho, o nº 69, aquele que ameaçava sempre para a direita e desenvolvia para a esquerda), deixava o esférico passar e só depois ia atrás dele, nunca o alcançando. O nº 6 era o Caveirinha, um predador de golos de cabeça que aconteciam quando tropeçava na linha do guarda-redes e caia desamparado para a frente. A seguir a ele vinha o Vitorioso, o lendário Fininho, senhor todo poderoso das leis do jogo que lhe deram mais vitórias do que jogos na elitista modalidade Futebol PA, única em Portugal. A servi-lo estava o nº 8, o Tio Kiki, sempre elogiado pelo mestre com equipamento de árbitro:

- Bate tu, que bates bem!

Seguiam-se os 3 da mesma ninhada, o 9, 10 e 11, Marinheiro Pai, Chico Marinheiro e Faisão, também conhecido como Judite de Sousa. O desabafo do Pingamisú disse  tudo sobre a arte de manipular as bolas desta Ínclita Geração:

- Porra, ainda bem que o puto era pequeno nesta altura – e passou rapidamente de folha.

Apareceu-lhe o 12, o Laranjão, que um dia quis fazer picadinho do Caramelo (o 54), cunhado do Doutor Sopapo (o 52) que tentou fazer o mesmo ao Esferovite (o 601), e o 13, o Fenómeno, o Brinca na Areia, o único capaz de ganhar ao Fininho, até que se casou e foi pai de duas tangerinas. O 14 era o Dic, um jogador com o nome do próprio cão, que só parava na rede de cada vez que investia sobre o esférico:

- Até te babavas, - disse o Pingamisú, limpando os cantos da boca.

O Estalinho e o Zé da Tapada, o 15 e o 16, eram os únicos cromos que estavam dentro de um ringue em vez dum relvado, jogaram mais com as mãos do que com os pés. O 17, o Chinoca, teve a carreira mais curta do Futebol PA, lesionou-se no único aquecimento que fez e jogar com bolas passou a ser só nos sonhos do Abafador, que acabou abafado pelo 55, o Pona, o único jogador que era escolhido mesmo que não aparecesse. O nº 56 chamava-se Kiko, e era sempre a terceira equipa em campo, porque jogava sozinho, do princípio ao fim. O amigo Antenas, o 57, depressa se fartou do Futebol PA, que considerava uma cambada de malucos e optou pelos das quintas-feiras, a elite dos coxos, onde constava o 76, o Carcaça, o mais hilariante dos atletas que alguma vez jogou no Olimpo paçoarcoense e, por não ser um deus do esférico, abandonou envergonhado a modalidade exclusiva da vila de Paço de Arcos.

- Vocês são tantos que eu não tenho tempo para continuar, a garganta está seca, preciso de hidratar, - exclamou, fechando o livro, arrumando-o junto a uns “Lusíadas”, e encaminhando-se para o frigorífico.

Mas eis que lhe caiu aos pés um pedaço de papel com uma nota do 191, o Peidão, que dizia: "Deves 10 euros de quota"!       


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