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Friday, February 08, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 32 - “Miolos no Teto”


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Falar dos Meninos da Luz é recordar fragmentos, ficções, fantasmas, encontros afetivos de acasos partilhados. Forçam-se os limites das verdades adquiridas, porque estas estórias deixaram sempre resíduos no local.
- “Miolos no teto, miolos no teto, miolos no teto, oeh, oeh, oeh, oeh, ooh” – gritava-se algures numa sala, cujo som, de contornos primitivos, invadia o Zimbório sem pedir licença.
E alguns segundos após o silêncio que se lhe seguia, o novo barulho dava a sensação de algo a bater violentamente contra uma parede. Recuemos um pouco.
Há uma linha que divide os Meninos da Luz dos Meninos que Luzem, e essa linha chama-se Conforlimpa. A partir do momento em que para dar brilho a este espaço tornou-se obrigatório o uso de luvas de borracha e de credenciais, o trabalho, que antes dependia das mãos mágicas do Moca, do Patronilha, e da sua soberba mulher, do Miranda & Companhia, passou a depender de penetras que não faziam a mínima ideia das regras colegiais, deixando tudo muito mais vulnerável. E quando o 263 (Chula) apareceu com a chave do gabinete do Diretor, mal sabia a implicação deste gesto no futuro do Colégio Militar:
- Vamos fazer-lhe uma visita de cortesia, - propôs o Rato (432), nesse quente mês de Junho de 1994.
Quando a porta se abriu todos tiveram uma sensação de absorção, respiravam agora no mesmo espaço do chefe máximo do colégio da Luz, faziam parte da atmosfera escura da divisão. Acenderam o candeeiro e deram de caras com os galões de domingo. Um a um registaram para a posteridade o momento em que foram generais durante uns breves segundos. Após a sessão de fotografias seguiram-se as assinaturas da praxe que, para resistirem o maior tempo possível, foram feitas na parte de baixo da secretária. Uma mobília que até esta data não passara de um acessório comum em todas as salas, tornou-se assim num tesouro semelhante aos calhaus grafitados de Foz Côa, com os rabiscos de um provável gang, começando pelo À Nora e acabando no Rato, sem esquecer o Mosca, o Pencas e o 324, que neste caso assinou Mathos, tal qual pronunciava, devido ao nó na língua e à tensão do momento. Para que a visita deixasse para sempre “resíduos” no local, como foi referido acima, o 432 abriu as hostilidades com a retrete: meio quilo de material biológico!
- Parece uma moca, - gritou o 4.
- E deixou rasto, - admirou-se o 202.
E como o lema era “Um por Todos, Todos por Um”, seguiu-se o 354, ficando no fim todo o conteúdo intestinal do pelotão ocasional, pois bastavam cinco para formar um, feito do material desviado do bar dos oficiais umas horas antes, local de passagem obrigatória nestas procissões de verão. Voltemos então à atividade na sala dos Claustros
- “Miolos no teto, miolos no teto, miolos no teto, oeh, oeh, oeh, oeh, ooh”, seguido de um curto silêncio e de um “BUM” com letras maiúsculas.
O Pencas (354) trouxe duas mantas, que foram agarradas pelo 263 (Chula), 324 (Mathos), 432 (Rato) e 4 (À Nora), enquanto o 202 (Mosca) se voluntariou para ser arremessado contra o teto, uns cinco metros acima e, se o esticar do pano desta vez fosse eficaz, deixar parte dos miolos agarrados ao estuque. Esta brincadeira inocente, exclusiva deste espaço pedagógico, começara com uma só manta e com o 151 (Bola), mas o atleta voou baixinho e teve problemas na fase de aterragem, quando uma das pegas se rasgou, obrigando-o a usar o pandeiro como airbag. Com o segundo piloto, o 475 (Chaminha) a catapulta foi reforçada, assim como limitada a tara do pássaro. Desta vez não deixou os miolos por pouco, faltou-lhe um “Suissinho”. Quem conseguiu deixar a marca da bota no teto, tal como o Armstrong na Lua foi, como a própria alcunha mostra, o Mosca . E esta assinatura tem mais valor do que todas as placas que existem nas paredes do Zimbório. Pertence ao pessoal que entrou em 1986, o da transição!






 

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