Comandante Guélas
Série Colégio Militar
Parte 1
Como o 191 e o 485 recusaram o cargo de Chefe de Turma, a
fava calhou ao repetente 280, o Minhoca, o mais balda de todos, que se revelou
um tiranete, como muitos daqueles a quem era dada a oportunidade de comandar os
outros. Neste dia quente de Outubro a turma marchava em direcção ao “Estudo” da
manhã, que iria ser vigiado pelo Professor-Assistente Didi, responsável pela
disciplina da manhã quando, perto da Enfermaria, depararam com um obstáculo, um
servente e duas moças, que iam descontraidamente a falar:
- Ó Marinho, tira a peida da frente, - gritou o Chefe de
Turma, avisando da aproximação de uma formatura.
O trio afastou-se, os elementos femininos riram a bom
rir, mas o visado não gostou da brincadeira e ameaçou que iria fazer queixa ao
Oficial de Dia. O 3º E era constituído por vinte e sete alunos: 120 (Cabedo),
121 (Pejó). 125 (Horrível), 136 (Macaca), 151 (Escorpião), 157 (Bicuda), 191
(Peidão), 224 (Fogaça), 280 (Minhoca), 299 (Camélia), 300 (Elefante), 305 (Vinesse),
307 (Escalope), 320 (Vaca), 328 (Cão), 384 (Leitão), 470 (Lory), 485 (Magoo),
488 (Sorridente), 601 (Gordini), 607 (Six), 652 (Xoxo), 653 (Bétis), 664 (Barrada),
666 (Zecarias), 667 (Loira) e 668 (Peida Gorda).
A chegada à sala foi feita de uma forma mais ou menos
ordeira, o 280 distribuiu biqueiros a quem tinha desacertado o passo.
- Atenção, “Alto”!
Como ainda não tinha tocado, a ordem seguinte foi
“destroçar”. Estava aberto o recreio. E começou de uma maneira alucinante: o
Horrível (125) apanhou um gafanhoto e colocou-o nas costas do Escalope (307),
que saiu a correr em pânico e a gritar, enquanto o Bicuda (157) e o Macaca
(136) entraram na sala e puseram um giz no meio do apagador. Mas a mania era
agora fazer voar em círculo pequenos aviões de madeira presos a um fio, o que
obrigava os outros a andarem com muita atenção e a terem de proteger as
cabeças. O toque da corneta para a formatura ecoou pelo colégio, e o 3º E
formou rapidamente, pois o Minhoca transformava-se sempre nestas alturas,
tornando-se muito violento. Os professores foram chegando, e as ordens dos
diversos chefes de turma sobrepuseram-se umas às outras. O Didi estava
atrasado, e a turma pressionava o chefe para ir comunicar o facto ao Oficial de
Dia, o capitão Peidinhas (senhor dum rabo de preta), para assim a fuga passar a
ter um caráter legal. Azar, quando a turbe ia a sair do pavilhão deu de caras
com o professor, que ordenou ao Minhoca que pusesse os cavalos dentro da sala.
O tempo era de “Estudo”, mas ninguém estudou, mesmo depois do
professor-assistente ter obrigado o 3º E a colocar livros em cima das
carteiras, e estar em permanente movimento de vigilância. A um dado momento
começaram-se a ouvir zumbidos alternados, o Didi tentava descobrir as
“abelhas”, mas elas calavam-se quando ele olhava e zumbiam quando se afastava.
Acabou por desistir e dirigiu-se para a secretária depois de o Micróbio (485)
ter estranhamente aparecido com uma dúvida a Inglês. Foi nesse preciso momento
que o Horrível (125), o Macaca (136), o Escorpião (151) e o Bicuda (157), deram
início a uma prova de atletismo, que consistia em ir deitar, alternadamente, um
papel no caixote de lixo, e regressar à carteira, altura em que o Bicuda (157)
parava o seu cronómetro. Quando os papéis acabaram, por ordem expressa do Didi,
o alvo passou a ser o Peida-Gorda (668), que tinha de levar um calduço. Mas a
brincadeira foi curta, o professor saltou do estrado a correr, à beira de um
ataque de nervos, e dirigiu-se aos atletas, que se sentaram de imediato, não
sem antes dar ordem ao 485 (Magoo), para apagar o quadro, que não se apagava,
bem pelo contrário, ficava cada vez mais riscado á medida que o apagador
afagava a ardósia. Enquanto tudo isto se desenrolava o Peidão (191) conseguira
gamar o pacote de bolachas (bolama) que o Xoxo (652), que estava à janela com o
Bétis (653), tinha tão cuidadosamente camuflado na mala, e comia-o alegremente
com o tampo da carteira aberto, tendo a ajuda do Compal do Magoo (485),
zelosamente escondido entre os livros, para onde regressou, mas aliviado do seu
conteúdo nutritivo. De repente a sala foi invadida pelos berros do Escalope
(307), a quem tinha sido tirada uma meia, que era agora exibida pelo Horrível
(125), que gritava “abaixo a poluição”. O Didi não tinha descanso, o Bicuda (157),
o 305 (Vinesse) e o 224 (Fogaça) jogavam bilhar na sua mesa com o ponteiro e o
giz, quando soou o toque do fim do tempo lectivo, tendo o professor-assistente
abandonado o local o mais rápido possível. Deu-se então início ao jogo da moda,
a guerra do apagador, que consistia em tentar acertar com o dito na cabeça do
adversário, colocados nos extremos da sala, um protegido com o tampo da
carteira do Bicuda (157), e o outro com a cadeira do professor. O primeiro embate
deu-se entre o Horrível (125) e o 151 (Escorpião), tendo este iniciado o jogo,
acertando de imediato no botão da campainha de chamada do funcionário, que
ficou pendurado. A resposta do adversário foi tão potente, que abriu um novo
buraco na parede, desintegrando o estuque, colocado nas obras de remodelação do
ano anterior. Aliás, as paredes já tinham um aspeto de queijo gruyère! A brincadeira acabou quando o objeto saiu pela
janela e passou uma razia ao carro do director, ao mesmo tempo que soava a corneta,
indicando que era a hora da formatura para o segundo tempo letivo da manhã. A
próxima aula iria ser de Português, mais especificamente teste, e todos
esperavam agora pelo professor Ferrari, de nome oficial Ferreirinha.

1 comment:
Bela descrição...Consegui imaginar toda a sequência e visualizar alguns dos seus personagens. O nome desse filme poderia ser "Uma Manhã de Quase Estudo"...Abraços!!! (Ex-110/1968).
Post a Comment