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Wednesday, July 28, 2004

Camarada Choco 6 - E Tudo por causa de uma careca

                          Camarada Choco
                                            Aventura 6 
Um par de portas azuis abriu-se repentinamente e lá de dentro saiu um vulto, sem rumo e sem mundo, explodindo em todas as direcções, num passo de corrida semelhante ao de um pinguim, parando repentinamente alguns metros à frente, como se tivesse sido colada ao chão, soltando em direcção aos céus um estridente ruído de protesto, um autêntico vulcão oral. Um rapazito que passava despreocupado no exterior foi apanhado de surpresa e ficou imóvel, com os olhos presos naquele Papão diurno, pedindo um socorro silencioso à mãe, prometendo-lhe não tocar mais às campainhas dos vizinhos a partir desse dia.
Um encontro imediato do terceiro grau !?? Uns olhos pequenos, que se escondiam por detrás de umas grossas lentes, focaram-se no novo professor, e uma magnífica franja em forma de poupa deu-lhe as boas-vindas. A mão direita junto à garganta mostrava quatro dedos, com o médio ausente, perdido algures no código genético do pai. A mesma dose para a outra mão ! O olhar da Papoila mudou de alvo e a adolescente encaminhou-se para um escorrega medieval, mostrando-nos ( não se esqueçam que no terreno baldio ao lado da escola está um rapazito congelado ! ) uma careca que lhe decorava a parte de trás.
                    Uma careca ! Mal sabia o docente o trabalhão que esta careca lhe iria dar. Iriam ser acusados de torturar sem piedade a filha, de lhe arrancarem os cabelos um a um, fazendo assim desvanecer o sonho de uma mãe sofrida, que era ver a filha com uma frondosa cabeleira tipo Raquel Welch.
No meio desta aparência hollywoodesca as mãos tortas, os dedos ausentes, a conjuntivite crónica, o cheiro  insuportável a dentes podres e a um constante nariz entupido por culturas de bactérias do Terceiro Mundo e muitas mais outras coisas inimagináveis, seriam pequenos grãos de areia escondidos por uma fascinante beleza nativa. Infelizmente, o Inferno existe, e a nossa querida Papoila nasceu e cresceu bem dentro dele e aí se tornou uma mulher. Mas como um mal nunca vem só, em vez de uma filha a mãe deu à luz um par de gémeas, ou seja, duas papoilinhas, que se desenvolveram por caminhos diferentes.
A nossa menina bem cedo bateu o recorde nacional no número de operações: duas ao nariz aos 3 e 4 meses, a uma hérnia aos 14 meses, várias às mãos, aos olhos, aos dentes, laqueação de trompas, e sabe-se lá ao certo quantas mais, tendo uma destas estadias hospitalares causado, segundo os especialistas da alma, um trauma de isolamento, devido a ter estado 34 dias internada sem visitas. A juntar a este curriculum vitae havia a assinalar sarampo, faringite, meningite, encefalite, rubéola, varicela, papeira, epilepsia, miopia em alto grau..., não havendo ainda à superfície da  Terra  um ser humano dotado de um córtex cerebral que fosse resistente a tantas doses de bactérias, vírus e anestesias. O da nossa Papoila não foi excepção à regra e depressa os seus carretos corticais griparam, ou melhor, colaram, soldaram-se, e para sempre ! Assim, foi lançado ao mundo um ser cujo envolvimento pouco fez para a compensar dos fracos atributos que os céus lhe tinham dado. Não foi ensinada a comer alimentos sólidos e assim a dentadura, que era das poucas parcelas do corpo que apresentava uma estrutura normal, entrou em desuso e apodreceu. Os comportamentos agressivos, muitas vezes devido às dores e o cheiro a texugo que exalava da boca em nada ajudaram a sua integração social. Nestas alturas de êxtase tanto podia arremessar uma cadeira, como marrar, e é este o termo correcto, marrar contra a parede mais próxima, sendo as inúmeras marcas nas paredes de madeira as provas das baixas pressões que se instalavam com frequência na alma da nossa Papoilazinha, também da Brandoa. Mas, e há sempre um “mas” e haverá sempre outro “mas” na sua atordoada existência, pois ela surpreende-nos quotidianamente. Quando não está voltada para as marradas, coloca o indicador torto na garganta e resolve pulverizar o ambiente com o conteúdo ácido das suas entranhas. E foi assim que resolveu presentear os colegas semanas a fio, dentro da carrinha. Com um movimento rápido conseguia expelir o líquido fedorento e perfumava os amigos, os móveis e os imóveis. A funcionária responsável depressa arranjou o método mais eficaz, atando-lhe as mãos, mas a estratégia foi considerada antipedagógica pelas mentes mais esclarecidas e o vómito continuou a jorrar, para desespero daqueles que estavam encarregues de ir pôr e buscar os mongas a casa. Diziam estes técnicos iluminados que iriam resolver o problema rapidamente, através de intervenções adequadas tendo, no entanto, o cuidado de  manter as distâncias de segurança da guerrilheira. Como era de prever, nada se alterou, a Dona Papoila estava inflexível, insistia em presentear matinalmente os seus colegas de curso com o seu show aquático, os pais dos outros já reclamavam, pois muitas vezes isto acontecia no regresso a casa, sendo os seus rebentos entregues com um intenso perfume a ervas amargas, um produto digno das melhores lojas da especialidade, que pululavam pelas vastas ruelas da tradicional Brandoa. Alguns meses depois esta estranha crise de adolescente inconsequente foi ultrapassada e o ambiente entrou nos eixos, com os berros, os urros, os piolhos, as borradas, as babas, etc., etc., que fazem o dia a dia da nossa bem amada barraquinha. Até a mãe da Papoila entrou na rotina, tornando a acusar os professores de serem cúmplices no desaparecimento do pêlo, que ela dizia ver aparecer naquela careca calejada pelas pancadas nas paredes. Tinha desistido de acusar a filha depois de lhe terem explicado que ela não conseguia fazer pinça com os dedos, visto eles apontarem para lados contrários.
- São os colegas ! - disse um dia numa das inúmeras reuniões.  
As acusações iam subindo de tom, já nem sabia quem era mais demente, se a filha, se a mãe ! A senhora acusava agora de terem uma cadeira com pregos, onde sentavam todos os dias a sua Papoilazinha. A relação extremamente punitiva que a mãe mantinha com a filha transferira-se para os técnicos, humildes aprendizes de carrascos da Idade Média. E tudo com origem numa careca, calejada pelas horas e horas que esteve fechada sozinha encostada às paredes, abanando a cabeça de um lado para o outro e fazendo um barulho monótono com a boca. Vagueou por vários sítios, desde a ama onde passava 12 horas seguidas, até às várias instituições que a acolheram, tendo sido sempre o patinho feio.
A uma crise seguia-se outra e os céus não lhe davam o descanso que pedia. De um momento para o outro adquiriu um comportamento obsessivo, que consistia em ir frequentemente à casa de banho e esfregar os olhos com água. Tudo não passava de outra mania, julgavam, até que o oftalmologista diagnosticou uma cegueira irreversível. Lá em cima não lhe queriam dar sossego ! Depois de muitas batalhas, a mãe lá a conseguiu levar a um especialista em Barcelona e a nossa Papoila veio com uma outra oportunidade. Até quando ? Isso ninguém saberia, pois neste mundo os genes escrevem sempre torto por linhas tortas. Quanto ao pai, há muitos anos que tinha sido expulso de casa por não querer trabalhar e, por incrível que pareça, casou-se novamente e teve um rebento de calibre idêntico ao desta sua meia irmã. Não nos podemos também esquecer que as tias materna e paterna sofriam de debilidade mental, mas é melhor ficarmos por aqui.......

 
P.S. – Lamento tornar a incomodar os vossos espíritos sensíveis, mas preciso de acrescentar mais um dado importante na vida desta mártir: a sua mão dominante era a esquerda, mas até a este nível foi contrariada, passando a usar a direita.    

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