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Friday, July 23, 2004

Camarada Choco 1 - 20.000 Léguas Submarinas

                            Camarada Choco
Aventura 1

A Expo 98 era para todos, até para aqueles com lapsos moleculares. E estes até tinham direito a uma hospedeira que os levaria a qualquer ponto do recinto, bastando para isso que apontassem  no mapa. Ao menos uma vez na vida iriam ter um tratamento “VIP”. À rapariga que os acompanhava bastava fazer um contacto via telemóvel, para passarem a ter uma recepção com banda à porta do pavilhão contemplado com os ilustres visitantes, igualzinha há que tinha tido o príncipe com orelhas de burro. Entravam, assim, perante os olhares incrédulos dos “normais”, que não tinham outro remédio senão esperar só mais umas humildes horinhas. E com estas regras bem agradáveis, lá foram passeando lentamente, muito lentamente, pela última exposição do século. Até que o pavilhão sorteado foi o da Alemanha ! A fila, como era de calcular, já dava a volta ao quarteirão mas, meus caros e compreensivos leitores, estes rapazes e estas raparigas com fenótipos diferentes dos mais comuns dos mortais são “Vips”, ou seja, eram muito mais importantes do que aqueles reles humanos de segunda categoria e até os alemães os veneraram como membros de uma casta superior. Mas as ilusões eram pequeninas, muito pequeninas ! Tudo isso não passava de um sonho......de curta metragem. O calor apertava, o do Sol e o humano. À espera estavam duas senhoras forçadamente simpáticas, que os conduziram para dentro do pavilhão e os colocaram junto dum elevador, uma espécie de simulador que os iria levar para as profundezas do oceano. O veículo aguardava-os com as portas escancaradas e alguns segundos depois receberam ordem para avançar. Todos entraram....todos ?? ...  todos não !! .... todos excepto a irredutível Violeta, que olhava assustada para o cenário circundante. Uns gritos ritmados saiam-lhe da alma, acompanhados por gestos descoordenados. Não saía, nem entrava! A fila parou, as alemãs começaram-se a desorientar, quem estava atrás e antes deles chegarem posicionava-se à frente, protestava no seu silêncio, bastava ler-lhes nos olhos. Tentavam-se desesperadamente todos os métodos pedagógicos disponíveis, diziam à Violeta que não era obrigada a ir, podia sair e esperar lá fora junto aos outros que não quiseram entrar. Foi em vão ! Propôs-se uma última tentativa: recorrer à educadora preferida, pois com ela a Violeta seria chamada há pouca razão que ainda conservava, e assim talvez se apercebesse que lhe bastava recuar dez metros para estar outra vez livre, respirando aquele ar puro do Trancão.  Falhanço total !!! Nem para a frente, nem para trás. As nórdicas falavam nervosamente pelos intercomunicadores. No meio da confusão a Violeta aproximou-se perigosamente do simulador. Dois metros, um ...... agora ! .... e foi envolvida no grupo, tendo-se usado o melhor método nestas ocasiões, o empurra-puxa-e-logo-se-vê. Ufa ! A primeira etapa já pertencia ao passado.
As portas fecharam-se e lá desceram num turbilhão para as profundezas dos oceanos, rodeados de barulhos e efeitos visuais, acompanhados ao vivo pelos gritos arrepiantes da artista do momento, Dona Violeta da Silva, formada no Centro de Animação da Brandoa. O fundo do mar depressa chegou, tal era a pressa com que iam e as portas abriram-se com estrondo, dando acesso para aquilo que parecia ser um submarino.
Dentro reinava um silêncio encantador, acompanhado de pequenas luzes multicolores que iluminavam suavemente uma panóplia de instrumentos interactivos, manipulados por visitantes em estado letárgico. Por breves, muito breves instantes, a nossa heroína deixou-se contagiar pela beleza que a envolvia, fitando curiosa a teia cintilante que a pouco e pouco se ia embrenhando na sua alma, ao mesmo tempo que levantava os braços para os céus em sinal de devoção. A um dado momento a boca abriu-se e soltou um aviso de incêndio generalizado na rede neuronal do seu cérebro, despejando em todas as direcções relâmpagos rápidos, que ameaçavam extravassar-se num comportamento digno do melhor filme de Hollywood. Quanto aos acompanhantes, estavam somente à espera do inevitável, ou seja, que a bomba Violeta explodisse e lançasse o mau tempo ao mundo do silêncio. O Tempo era relativo, muito relativo, e estes pequenos segundos pareciam uma eternidade. Mas o prometido era devido !  
O espectáculo recomeçou, tal como constava no programa, com uns gritos estridentes que despertaram os espectadores mais distraídos e cuja tradução era mais ou menos assim:
- Senhores e senhoras, meninos e meninas, portugueses e portuguesas, aqui está a Violeta, a rainha dos mares e dos mongas, que se prepara para presenteá-los com o maior espectáculo do mundo.
À medida que a artista avançava com as asas abertas, tentando fugir das estrelas cintilantes, os espectadores mantinham-se imóveis, para assim passarem despercebidos ao monstro marinho que invadira aquele porto que diziam ser seguro. Atrás da diva seguia um mar de admiradores, responsáveis pelo apoio logístico, que  tentavam, em vão, chamá-la à razão, mas a artista estava tão absorvida no seu papel, que nem se apercebia que à sua volta existia um outro mundo um pouco mais organizado, e bem fundo. À medida que a nossa admirada Papoila progredia pelo submarino, a multidão afastava-se em respeito, ou seria em pânico ? O segundo acto terminou com a artista sentada na posição do grande chefe índio, o Cachalote Ruidoso.
Tinha chegado, então, a altura para mais uma intervenção pedagógica. Um a um alguns figurantes técnicos tentaram reorganizar-lhe os neurónios, tal como num puzzle, usando para isso as mais modernas palavras educativas, mas a Papoila insistia em representar o papel até ao fim. E o fim estava ali tão perto, a alguns metros de uma porta de emergência. As cicerones, que estavam quase à beira de um ataque de nervos, foram avisadas das  próximas intenções e prepararam-se para a acção dos comandos. Finalmente iriam aplicar-lhe o golpe final e mais eficaz, o prende-eleva-transporta-despeja. O sinal verde chegou.
- Professor, é a sua vez!
Avançou, agarrou à força a Papoila e em segundos estava de novo ao ar livre, com um sorriso nos lábios e uma palavra de agradecimento pela ajuda prestada:
- Desculpa !
Foram de novo convidados a regressar ao fundo do mar, agora sem a artista, trazendo à pendura um casal que conseguiu fintar a segurança e entrou bem integrado na comitiva. Receberam admirados uma prenda inesperada: uma aluna que tinha ficado esquecida lá dentro.
Estavam no fim da visita, só lhes faltava regressar ao recinto da “Expo” num excitante disco voador. As portas do simulador abriram-se e lá entraram, felizes e contentes, com mais trinta visitantes. Ficaram na fila da frente, o espectáculo ia começar. As portas fecharam-se e o aparelho começou a vibrar, até que de repente uma tempestade de luzes entrou-lhes pelos olhos, ao mesmo tempo que tudo mexia, tudo rugia....Olharam para o Choco, que é macho e tem 20 anos, e viram que os seus olhos estavam pendurados nas órbitas, a língua já tocava no chão, a cara deformara-se ainda mais e.... Deus misericordioso , estavam de novo ameaçados por um exuberante espectáculo, o Choco sofria de epilepsia e não havia cérebro ( mesmo o dele que era micro! ) que aguentasse tamanho jogo de luzes. Encurralaram-no, entraram em alerta vermelho e a viagem continuou, o oceano ficou para trás, estavam agora no ar, o recinto da “Expo” já se vi     a ao longe....aterraram...o verdadeiro fim aproximava-se, o fim do pesadelo do Choco, que depressa recuperou as cores e avançou orgulhosamente pelo passeio marítimo, saboreando, mais uma vez, o cheiro a maresia libertado pelo fascinante Trancão.       

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