miguelbmiranda@sapo.pt

Monday, August 27, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 16 - O Fim da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar 

O calendário indicava o ano de 2016, o mês era Dezembro, comemorava-se o tradicional dia 1. No Zimbório o novo batalhão da Luz, uma fusão de três escolas, o Colégio Militar, os Pupilos do Exército e o Instituto de Odivelas, perfilhava-se perante o orgulhoso ministro da Defesa Nacional que conseguira, finalmente, cumprir com uma data prometida. O que os revolucionários de Abril não tinham conseguido fazer, mudar a farda dos Meninos da Luz, conseguira agora a classe política responsável pela bancarrota que empurrara o país para fora da União Europeia. Mas a Espanha continuava à distância, apesar destes claustros serem agora o único local do país onde ainda se comemorava o 1º de Dezembro de 1640. As pressões para as novas fardas tinham sido tantas, que este “ministro visionário”, que se sabia agora ficara dispensado da tropa devido a um atestado médico que o declarara com eneurese, pediu ajuda, não à Maria Gambina, como fez o director em 2009, mas ao atelier da sua prima Zulmira, que optou por uma solução mista: o Colégio Militar deu o blusão e as calças, que ficaram à boca de sino, os Pupilos o penacho, que virou uma crista vermelha igual ao dos guardas fronteiriços do Paquistão e o Instituto de Odivelas o chapéu, sendo a bota um modelo de tacão, com um pompom verde na ponta, um produto exclusivo da dra. Tânia, amiga da Zulmira, comum a todo o batalhão:
- Tivemos atentas aos pormenores, no “olhar direitaaaa” o som dos calcanhares assemelhar-se-á a um trovão, - explicaram ao “Correio da Manhã” as especialistas da Coina!  
Mas antes disto tudo cumpriram-se as outras tradições! Na cruz já esvoaçava o capote alentejano verde e encarnado do graduado mais novo (mantinha-se o critério da escolha pois ainda não tinham surgido reclamações), também uma modernice da Zulmira, neste caso uma graduada, a Tânia Vanessa, e a nova barretina tapava a cabecinha do pára-raios. Tinham sido lá colocados por uma grua e duplos, por pressão da Associação de Pais e Amigos do Externato Teixeira Rebelo (A.P.A.E.T.R.). Nunca mais uma dupla de alunos iria escalar às escondidas, durante a noite, a cúpula da igreja dos Meninos da Luz, raça agora extinta. Quanto às pinturas, só batom foi permitido, e nos lábios. As trinchas, tinta das obras e pasta de dentes dos anos setenta eram agora coisas do “passado tenebroso”. A mocada era apresentada num plasma através de um filme realizado pelo Manoel de Oliveira e  nos serões das companhias os graduados tinham como missão coçar as costas aos colegas mais novos, para diminuir o trauma do internato, em vez das tradicionais firmezas que davam saúde e faziam crescer. O batalhão da luz mais parecia um conjunto de leitões alimentado pelo Macluz, nome do refeitório, que já não fornecia os tradicionais “bifes de cavalo”, classificado como “anti-pedagógico” pela poderosa A.P.A.E.T.R., cujo presidente possuía os poderes de um marechal. As “bengalas” e “bicicletas” do Semita não passavam de lendas, o torcedor de orelhas conhecido por Ferrari fazia parte do Index, o mascar de tabaco, seguido de cuspidela para a gaveta, do Menau, era considerado uma blasfémia, o Carioca não passava de uma invenção dos antigos, a tentativa de abafo da filha do responsável do aviário continuava segredo de estado, apesar de agora o batalhão estar cheio de Rosas uivantes, o lendário túnel entre o Colégio Militar e o Instituto de Odivelas, causador de tanta atividade individual noturna, reduzira-se a um simples passar por debaixo de uma cama, traduzindo-se isto numa fraca força muscular dos membros superiores e à extinção da popular revista “Gina”; os carolos do hilariante capitão Caetano e as reguadas do capitão Espírito faziam parte das lendas urbanas, a água gelada imposta pelo ten-coronel Durão para enrijecer os jovens não passava de um mito importado da Mitra, a carga, seguida de desmontar, nas aulas de equitação do major Cabedo estava classificada como ficção; os floretes e as espadas da esgrima eram agora de PVC e apitavam para assinalarem os toques, em vez dos tradicionais gritos de dor; e muitas outras maravilhas que se iam lentamente apagando dos neurónios dos ex-alunos do antigamente.
- Batalhão, - disse suavemente ao microfone, para não arranhar as cordas vocais, o Comandante Aluno. – Firme, Sentido!
E o despertador do 191 (Peidão), do 3º E do 120 (Cabedo), do 121 (Pejó), do 125 (Horrível), do 136 (Macaca), do 151 (Escorpião), do 157 (Bicuda), do 224 (Fogaça), do 280 (Minhoca), do 299 (Camélia), do 300 (Elefante), do 305 (Vinesse), do 307 (Escalope), do 320 (Vaca), do 328 (Cão), do 384 (Leitão), do 470 (Lory), do 485 (Magoo), do 488 (Sorridente), do 601 (Gordini), do 607 (Six), do 652 (Xoxo), do 653 (Bétis), do 664 (Barrada), do 666 (Zecarias), do 667 (Loira) e do 668 (Peida Gorda), do ano lectivo de 1973 / 1974, tocou com estrondo, tirando-o abruptamente do pesadelo. Por breves momentos ainda  ouviu o professor Grijó, mais conhecido por Semita:
- Oube lá ó mocinho, tu percebes tanto disto como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens!
 Deu de caras com a notícia do “Sol” de 23 de agosto de 2012!

1 comment:

mongiardim saraiva said...

Adorei os "graduados", coçando as costas dos alunos mais novos...Triste rotina, instalada no compasso do tempo, esquecido e impiedoso. Num mar de imagens transgressoras, de uma dura realidade desconectada com os propósitos da "velha casa"...Parabéns pelo texto!!! Abraços. (ex-110/68)