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Thursday, January 23, 2014

Comandante Guélas - Série Colégio Militar 57 - A Coboiada




Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O dia começara com o professor de Educação Física Isménio Tadeu a contar a estória do costume aos seus alunos:
- Não pensem que eu vos mando correr só porque vos quero chatear. Faz bem à saúde. É por isso que eu deixo sempre o eléctrico arrancar para depois ir a correr apanhá-lo.
Mas esta aventura tem como cenário a noite.
Estava o oficial de dia a preparar-se para a tradicional soneca após o toque de recolher, quando tocou o telefone.
- Quem será o chato? – Desabafou o Ananás tirando as botas de cima da mesa.
- Meu tenente, daqui fala da portaria, - disse o Chico tão de rajada que o Maná teve a sensação de apanhar com perdigotos.
- Calma homem, mas afinal o que é que se passa? Não me diga que o 33 está aí outra vez na portaria em cima duma Panhard, como no 25 de abril?
- No gabinete do sub está…..
- O que é que se passa no gabinete do sub a esta hora da noite? Estão lá alunos, foram fazer uma visita?
O tenente Ananás ouviu uma voz, destoada e áspera, saíram clarões raros das profundezas do telefone.
- Chico, não digas que me vais obrigar a ir aí? Explica-te de uma vez por todas, – pediu o ex-aluno 78, agora no papel de cão.
- Vê-se tudo, a luz está acesa, - explicou o funcionário olhando para as janelas espelhadas, que de noite eram transparentes.
- Vê-se o quê?
- Uma senhora no gabinete…
- E??
- Está de cuecas…
- Cuecas? Uma senhora de cuecas no gabinete do sub a esta hora?
- …e de botas altas!
- Cuecas e botas altas?
- Só ela?
- Estão a correr…ele vai atrás dela. Vê-se tudo!
- Ele? Ele quem?
- O sub…está a brincar aos índios com uma senhora. Vê-se tudo!
- E o que é que queres que eu faça?
- Telefone e diga-lhe que se vê tudo cá fora com a luz acesa, - gritou o Chico da portaria.
O tenente Ananás ouviu uma tosse surda, seguida de um silêncio denso. Esperou. Era um silêncio cheio de gritos. Imaginou o que se estava a passar na outra ponta do colégio, nesta noite muito escura. Olhou para a parede do gabinete e fez um pequeno filme, daqueles que o padre Viana escolhia para as noites no teatro D. Luís Filipe, oferecido ao Real Colégio Militar pelo rei Dom Carlos no primeiro centenário da sua fundação. Via o superior hierárquico com chicote
 - Chico, não lhe vou telefonar. Ele que continue a coboiada!
- Mas, meu tenente. E eu? O que é que faço? Vê-se tudo…estão a correr pelo gabinete à roda da secretária.
- Eles hão-de cansar-se!
A senhora de cuecas e botas altas, perseguida por um militar desaçaimado, não era a Macaca, a administrativa que um dia proporcionara umas férias antecipadas ao 125, 157, 191, 601 e 653, pois ousara pôr gasolina no seu Fiat Coupé nas bombas junto aos claustros, tendo ouvido vários miminhos de uns adolescentes nas janelas do primeiro andar.
O Chico desesperava, mas ao mesmo tempo deliciava-se com o que via, dir-se-ia que o Olímpia e o Odéon, onde costumava encontrar muitos Meninos da Luz fugidos ao colégio, pela porta da Falca (Enfermaria) que dava para o exterior e encontrava-se sempre fechada no trinco, estavam a projectar o filme para adultos na parede branca do Zimbório. O dia já tinha começado com a queda do padre Valdomiro, também conhecido como Baldomijo, na sua Lambreta, que dissera que vira a “Luz” antes de cair, e agora quando se preparava para tirar uma soneca na portaria, um artista resolvera trazer uma amiga de fora para cavalgar no gabinete. Não teve outro remédio do que passar a noite na rua a afastar as pessoas que passavam junto ao portão.     



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