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Friday, December 07, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 26 - A Rosa da Luz


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



A fama da Rosa foi o resultado de uma estranha e intensa relação com várias gerações de Meninos da Luz, ela era uma rapariga sem raízes e sempre em fuga, num paraíso onde não pertencia a nenhum, mas estava nos sonhos de todos. A Rosa e os Meninos da Luz tinham sido destinados a olharem-se e a divergirem de todas as tentações, que os levavam muitas vezes a cruzarem-se como dois ponteiros de um mostrador de um relógio ao meio-dia. Foi uma relação complicada, num tempo e numa parte do mundo complicadas. Por isso o local onde viviam era contraditório de luz, paixão, confusão e caos, estava ligado a uma marginalidade que, apesar de tudo, tinha os seus princípios. Havia também a Lisete, senhora de uma testa imprópria para devaneios, também conhecida por Listete, ou a mulher do Patronilha, que não tinham direito a participar nos sonhos destes adolescentes que estavam fardados de cotim de domingo à noite até sábado à tarde. Antes destas musas os pensamentos iam para as meninas do reformatório vizinho, que os obrigavam a inscreverem-se em acções de caridade, e tudo isto à conta da Conferência de São Vicente de Paulo, de quem o colégio era membro, para assim lhes poderem sentir o cheiro quando tinham autorização para sair. O levantamento das necessidades era feito pelos capelães civil e militar, que mandavam entregar o dinheiro e os géneros às pessoas referenciadas de Carnide. E um dos benfeitores tinha o número 95 e um dia, desesperado para ir fazer uma boa acção, antecipou-se e abdicou da aula do Carioca, um padre com uma personalidade pouco espaçosa, cujas aulas de música decorriam sempre sob tremenda pressão, onde se desintegrava com facilidade. Mas como no Colégio Militar as penas eram instantâneas, sem direito a recurso, o Comandante do Corpo de Alunos oficial, tenente-coronel Durão, condenou o aluno de alcunha Coiote a uma chapada, uma carecada e uma privação de ida ao cinema. O Peidão (191), o Horrível (125) e o Cabedo (120), como não cantavam, tiveram ainda tempo, depois de distribuída a mercadoria, de irem fazer uma visita de cortesia ao minimercado, para se abastecerem de Bolama, metade comprada e a outra metade escondida na boina, que estava presa ao blusão. Mas voltemos à nossa musa, de nome Rosa, que era vista com regularidade num gabinete junto aos claustros, para gáudio da rapaziada, que aproveitava para arregalar o olho, e esgalhar o frango à noite. O pai chamava-se Nunes e era o hortelão do colégio, deslocava-se sempre num trator, que costumava levar várias camadas de alunos pendurados, que o obrigavam a parar várias vezes para os enxotar com palavrões e à pedrada. O “Amor” também era muitas vezes o tema da última formatura, que se seguia ao jantar, juntamente com outras actividades lúdicas, como por exemplo as célebres “Firmezas”. Na altura da distribuição do correio, carta mais amaricada era de imediato aberta, e lida em voz alta para toda a Companhia, que o diga o nosso camarada Coiote (95) quando a namorada, uma Menina de Odivelas descoberta num Chá Dançante, lhe enviou a declaração de amor num envelope às florzinhas e perfumada. A relação foi assim posta em risco porque o pai da donzela, administrador da Shell, fazia um controle apertado à filha, principalmente se lhe cheirasse que atrás das suas saias andava um Menino da Luz, com as hormonas aos saltos e uma semana inteirinha fechada no colégio. Felizmente o “Todos por Um, Um por Todos” também dizia respeito aos funcionários, que neste caso tinha o apelido de Domingos, e fazia umas horinhas extras na empresa do papá da menina. A pedido do Coiote passou a trazer as cartas entregues pela menina, e a levar as escritas pelo 95, sem haver necessidade de passar pelo Geral da Companhia. Mas um dia os limites foram forçados e alguns foram longe de mais e resolveram fazer uma surpresa à Rosa, lá para os lados da piscina, ou a caminho do ginásio, conforme as fontes,  durante o tempo de exames, mascarados de múmias, depois de terem desviado ligaduras da enfermaria, e de intensos treinos durante meses. Uma das versões conta que o namorado, fã dos filmes do Bruce Lee, tentou proteger a sua Rosa da Luz, mas não se saiu lá muito bem; a outra refere o irmão, que ficou instantaneamente chéché com a paulada que levou, tendo os gritos da diva chamado a atenção dum vigilante, que veio de imediato a correr em seu auxílio, provocando a debandada das múmias e o despertar do mano, que o atacou com um biqueiro nos queixos, pondo-os à banda. Foi decretado o “Alerta Vermelho” e o galanteador alferes Felício conduziu os interrogatórios, tendo entregue ao Sub Oliveira, para impressionar a Rosa, por quem arrastava a asa, uma lista com os nomes dos arguidos, incluindo um que estava de baixa na enfermaria com um traumatismo no côco. O colégio estava à beira de um ataque de nervos, o Galo via atrevidos em todas as esquinas, ameaçando de imediato com cargas de cavalaria, e a Rosa gritava de cada vez que um Menino da Luz se aproximava um pouco mais. Com a imediata “prisão domiciliária” dos mais velhos, os índios fizeram jus aos seus pergaminhos e deram um passo em frente. Só um não o fez porque tinha ido à missa, talvez confessar-se, e quando tomou a decisão já era tarde de mais, tinha-se atingido a data definida pela chefia, que ditou de imediato a pena: uma expulsão e várias desgraduações! Quanto à Rosa, depressa foi ultrapassada pela Maria João da biblioteca, que fez com que a rapaziada passasse a dedicar-se mais ao estudo. Com o tempo o encanto desvaneceu-se, o Colégio Militar, antes exclusivo para machos, foi inundado de saias e com isso desapareceu o fruto proibido.








3 comments:

mongiardim saraiva said...

Lamento o "desaparecimento do fruto proibido"...Afinal, uma rosa bem cuidada,plantada e regada, poderia ter permanecido por muitos anos como uma rosa,apesar dos espinhos, dolorosos e fatais...Parabéns pelo texto !!! ex-110(68).

António Miguel Miranda said...

Obrigado Carlos. Devia ser atribuído à Rosa um número honorário e um ano de entrada!

Rui Jorge said...

Espetacular e genial texto, parabéns. Só mesmo quem viveu o CM de 74-76 percebe o que foram aqueles tempos. Lembro-me da Rosa e dos sonhos com ela. Digamos que foi o meu 1º amor.Não se esquece facilmente o 1º amor! Que será feito dela? Rui Rebelo(422/74)