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Tuesday, January 07, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 55 - A Noite de Núpcias


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

 
O Colégio Militar sempre foi, ao longo da sua história, alvo de invejas e tentativas de interferência. No Estado Novo alguns responsáveis políticos e militares tentaram pôr os Meninos da Luz a cantar o hino da Mocidade Portuguesa e a marcharem ao estilo dos Patos Marrecos. Em vez disso cantaram, numa cerimónia oficial, e à revelia das ordens recebidas, a Portuguesa, e quando lhes ordenaram “em frente marche” uns deram um passo para o lado esquerdo, e outros para o lado direito, criando o caos. Houve punições, e em resposta a elas levantamentos de rancho. O Poder Político apercebeu-se que não iria ganhar a guerra e recuou nas suas intenções. Esta estória tem como cenário os tempos da balda, o Ano Letivo de 1974/1975, e como protagonista o 75, uma espécie de latifundiário, com o bolso da camisa sempre recheado de tabaco. Os colegas, o povo faminto de vícios, aliviavam-no assim constantemente do peso dos cigarros sempre que havia aula de ginástica. Mas um dia atrás do maço veio uma carta de amor. De início os vestígios do Antigo Regime sobrepuseram-se aos novos ventos da revolução, mas rapidamente o impasse moral foi ultrapassado por uma decisão de uma reunião geral de alunos, o equivalente às providências cautelares dos tempos que correm, e o seu conteúdo foi tornado público. A carta tinha sido enviada por uma tal de Margarida, mas o anjo branco que ainda estava no ombro direito da maioria fez com que regressasse ao bolso do proprietário. No estudo da noite algo chamou a atenção do 7º A, o 75, contra tudo o que era habitual, estava a escrever furiosamente. Furtivamente o 78 e o 85 aproximaram-se do Romeu e depararam-se com um papel amaricado, cheio de corações. Estaria o camarada com uma bichanite, “doença” intolerada num espaço em que o hino dizia que o “ardor” só poderia ser “guerreiro”. Retiraram-lhe a folha, deram início a uma nova reunião plenária, que decidiu qual o tratamento adequado para a cura:
- A carta de resposta vai ser escrita pelos camaradas Maná e Preto!
Mas antes disso quiseram saber qual o envolvimento do 75 com a tal Margarida, tendo sido informados pelo paciente de que tudo não tinha ainda passado da fase da mão.
- Vamos preparar-te a cama, terás direito a música, velas, comida e Champanhe, mas desta vez a almofada irá ser substituída pela miúda, - informou o 78.
No dia do Chá Dançante o barracão do Carioca foi decorado para a ocasião, e o espumante desviado da sala dos oficiais. Fizeram paredes com as cadeiras, para dar a intimidade de um quarto, e para esconder os observadores. Deram instruções de procedimento ao 75, que teria de sair do espaço de diversão pela janela mais afastada do oficial de dia, acompanhado pela Margarida, seguir um trajeto de segurança, que os obrigava a passar pelo Ginásio, para dar tempo a que o público se acomodasse nos bastidores, munidos de máquinas fotográficas e de filmar. Tudo decorria dentro do previsto, a entrada dos pombinhos no espaço dedicado ao vício não levantou suspeitas, mas a relação, que se pretendia tempestuosa, não passou do nível da língua, pois a Margarida, futura jornalista da televisão, revelou-se uma gralha compulsiva, o que levou ao desespero a assistência, e à intervenção de um deles:
- Ernesto, já provaste a miúda?
- Não, ela não se cala!
- Tens um minuto para o fazer, senão fazemos nós.
A diva fugiu de imediato, e o 75 regressou à almofada.

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