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Monday, June 04, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 5 - Pinturas



Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 



A vocação de todas estas estórias é tornar o Colégio Militar imortal, através das experiências dos seus protagonistas. O orgulho não advém da consumação do erro, mas da coragem que é necessária para admitir esse erro. Era um lugar de extremos, por isso dois estereótipos evidenciaram-se: o medalhado e o cabulão! E quando os limites eram transgredidos, por causa da loucura comprimida de alguns alunos, havia consequências. Estava o velho Peidão (191) a passear tranquilamente no Colombo, quando começou a ouvir um ritmo há muito esquecido, emprenhado nas suas memórias mais antigas: “Esquerdo direito, op dois, op dois, esquerdo”! Parou assustado e pôs a mão no coração. Teria chegado a sua vez, uma travadinha inesperada que lhe chocalhara o coco e ativara as memórias da Luz? Foi de imediato ultrapassado por uma carrada de meninos equipados a rigor, com as letras “CM” cravadas no peito, que se dirigiam para o átrio central, ornamentado com vários tapetes e as célebres “Mesas Alemãs”. O colégio que antes tinha excesso de candidatos, e muitos só entravam com cunha, como foi o caso do Stratopel, porque não havia Cercis na altura, andava agora a suplicar alunos em todas as montras da capital. Num dos cantos vários placards faziam uma breve apresentação da instituição, dos seus costumes e tradições. Num deles apareciam dois “ratas” (alunos mais novos) em sono profundo, com riscas tricolores na cara:
- Foram pintados pelos mais velhos com tintas aquecidas, para não acordarem. Amanhã à alvorada vão ter uma surpresa, - explicava um alferes, estilo vendedor.
Tintas aquecidas? Continuavam a dormir? E havia mais novidades! As mães, que antes não passavam da Porta de Armas, participavam agora na festa, não sem antes analisarem os produtos que iriam decorar as suas crias. O Peidão estava incrédulo! Seria o mesmo colégio, o Militar, ali para os lados da Luz? Sentiu um abanão forte e um grito, e viu-se transportado para os anos setenta do século passado, numa noite fria de um inverno muito escuro.
- Põe-te em pé e tira o pijama, - gritou o graduado para o Leitão.
O 384 sentiu a trincha percorrer-lhe o corpo, e contraiu-se com a tinta preta fria que se colava ao corpo, ardendo nos tomates, sinal de que alguma "Colgate" tinha ido parar à lata do produto.
- Vira-te, - gritou-lhe outro que acabara de chegar com um balde cheio de um líquido vermelho.
Nova trincha, nova pintura. Hora para mudar de camarata. O Elefante (300) aproveitou a pausa e tirou rapidamente a toalha molhada que tinha escondido debaixo da cama, e conseguiu tirar parte da tinta que ainda não secara. Os lençóis pareciam as telas de uma pintura gigante, havia cores por todo o lado, e caso o Miró tivesse sido Menino da Luz, bastava assinar, transformando assim um velho lençol com manchas amarelas saídas de um pincél imberbe, e cores acrescentadas numa festa tradicional, numa obra de arte da Fundação Gulbenkian.
- As tintas são inofensivas, saem com a água quando os aluno lavam a cara, - garantia o oficial do Colombo, trazendo o velho Peidão de regresso ao século XXI.
Já não havia ratas como antigamente, agora os meninos só podiam ter no máximo três riscas, feitas com um pincel guache nº 175. As tintas plásticas com que o vigilante Patronilha, proprietário de uma soberba Java 125, pintava as paredes, e que demoravam várias semanas a sair, já não eram permitidas, mais uma tradição acabava.
- Ainda não foste pintado? Levanta-te e tira o pijama, - gritou o graduado de três estrelas tirando os lençóis ao Escalope (307).
Pintado ele já tinha sido, mas limpara-se com a toalha molhada. E a presença do pintor era sinal de que a segunda vaga tinha chegado. De novo a trincha a percorrer-lhe o corpo, e os tomates a arderem, e como tudo o que era costume no colégio, a “brincadeira” um dia foi longe de mais, e alguém pintou a tripa a um dos netos do diretor!
- Esta tradição aqui é muito engraçada, e é para comemorar o final das aulas. Chama-se "Spellig King"! Os graduados vão para o campo de futebol de onze, e seguindo um ritual pagão fazem uma grande fogueira com os cadernos, - continuou o alferes, agora virado para uma família de três leitões, - e andam à volta dela cantando e segurando tochas…..
Aqui o velho Peidão (191), sentiu-se a levantar voo dentro da cama. Era uma inofensiva "Chaminé de Fada"!




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