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Thursday, June 14, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 7 - O 1º de Dezembro



Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 



O dia Restauração aproximava-se, o capote do graduado mais novo já esvoaçava por cima dos claustros abraçado a uma Cruz, e acima dele uma Barretina tapava a cabecinha do pára-raios. Não muito longe o professor Grijó, ou melhor, o Semita, distraíra-se, mais uma vez, a jogar xadrez na sala de professores e, quando se apercebeu já só encontrou meia turma à porta do pavilhão de química. Por isso, quando iniciou a experiência com o Sódio e o Potássio calculou mal as doses, e o estrondo assustou o ajudante, mais conhecido como Ruca, não estivéssemos nós no reino dos números e das alcunhas. Como já era tradição, a responsabilidade caiu no subalterno:
- Ó Morais, és um bronco, disse-te para cortar mais fininho o produto!
A turma riu em uníssono, mas foi por pouco tempo.
- Tenho aqui as vossas notas, que são uma miséria, - disse o Semita olhando para o Zécarias (666). – Moço, levas para casa uma bengala (sete valores). E tu, número 384 (Leitão) uma bicicleta (oito valores), e tu 463 (Banhadas) outra Bengala -, e assim sucessivamente.
Noutro pavilhão um tenente-coronel armado em peru, o Galo, dava início ao teste, e avisava os Meninos da Luz de que não queria ninguém a cabular, pois como ex-aluno sabia todos os truques. Permaneceu em movimento o tempo todo, com as botas de cano alto a marcar um ritmo no soalho, como se estivesse numa marcha marcial, enquanto o Vaca (320), o Peidão (191), o Peida-Gorda (668), o Macaca (136), o Vinasse (305), o Six (607) e muitos outros, copiavam à fartazana, com o material de apoio debaixo dos tampos transparentes. A aula de Trabalhos Manuais mais parecia um campo de tiro ao alvo, tal era a quantidade de barro que forrava a parede branca da sala. O trabalho consistia em fazer uma rosa, mas ninguém conseguia chegar ao fim, era humanamente impossível, que o diga o 69 (“o número mais vergonhoso do Colégio Militar”, segundo o Horrível), o único a marchar com os “braços à altura do ombro” e a “bater os calcanhares”, mesmo a levar biqueiros no cú, e dos raros que não cabulava, pois sempre que colocava a última pétala, o Gordini (601) distraia-o e o Peidão (191), um aluno com uma vasta ficha na Direção, ou outro que estivesse mais a jeito, enfiava um abrunho na flor, reduzindo-a novamente a uma amálgama de barro. Do outro lado da sala o professor Clarence (Cross-Eyed Lion da série Daktari), conseguia ver com um dos olhos, pois o outro apontava para o teto, a rebaldaria da aula do colega, mas não arriscava ajudar. Estava a classificar os trabalhos em cartolina, e acabara de dar vinte valores à Torre Eiffel feita pelo “número mais vergonhoso do Colégio Militar”(sic), que não iria durar muito, pois dois dias depois foi vítima de um incêndio de origem criminosa, depois do Horrível (125), o Peidão (191) e o Cabedo (120) terem entrado clandestinamente nas instalações para fumar um cigarrito, e ensaiado uma tocha com o símbolo da cidade luz, para relembrar o ainda distante “Spelli King”. A festa que se aproximava era o 1º de Dezembro e, antes do Batalhão marchar para a população, iria haver um confronto final entre portugueses (graduados) e espanhóis (os do 6º ano), armados com mocas, toalhas encharcadas na véspera, ensaboadas, enroladas e secas, que ficavam com a dureza do cajado alentejano, com os restantes a assistirem à cena no primeiro andar dos claustros, depois de terem atirado pela varanda o boneco do traidor Miguel de Vasconcelos. Mas havia mais. De um momento para o outro os inimigos transformavam-se em lusitanos ressabiados, formavam duas colunas a perder de vista e obrigavam os castelhanos, a arraia miúda da assistência, a passar pelo meio, ao mesmo tempo que lhes serviam mocada, e da grossa. Umas horas depois estava tudo engalanado a marchar!



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