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Tuesday, June 26, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 10 - As rotinas da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar




- Ó Carioca, tira a mão da minhoca, - gritou o Teta quando viu o padre Miguel a entrar para a sala de aula.
Aliás, o professor de música e canto-coral nem entrou, largou tudo e saiu a correr atrás do 332, decidido a enfiar-lhe, como era costume, uma dose de estaladas bem aviadas. Mas, não teve sorte nenhuma! 
No Laboratório de Línguas o Tabi preparava-se para dar início ao “American Language Course”, mas alguém se antecipou e gritou no microfone:
- Óó Tabiii, chupa aquiiii”.
Apesar de ser um docente já com alguma idade, os reflexos foram tão rápidos que conseguiu tirar os auscultadores numa fracção de segundos, com os olhos arregalados e os cabelos brancos no ar. E quem chupou foi o autor da brincadeira, o Peidão (191), várias murraças na carcaça, ao mesmo tempo que sentia o vibrar dos gritos do professor, uma mistura incompreensível entre português e inglês, neste caso “amaricano”!
Na aula do Menau, um professor com sotaque do Porto, calças apertadas a meio da barriga e um contínuo mascar de tabaco, alternado com soberbas cuspidelas para dentro da gaveta da secretária, a maior parte dos alunos estava com os tampos das carteiras levantadas, evitando assim serem sorteados para a avaliação oral habitual. A sua filosofia de vida assentava em três princípios, Deus, Pátria e Rei, e fora por isso que a nota mais alta que dera, um dezoito, ultrapassara em quatro valores o teto da arraia-miúda, e fora direitinha para o jovem D. Duarte Pio, o Fru-Fru (97).
- Rapaz, - e apontou para o Cascão (435). – Quantos cantos tem os Lusíadas?
- Cento e quarenta!
- Ó Pá, tu assassinas-me o Camões! Bai-te lá sentar com um sete…Se o meu conterrâneo os ouvisse…o Bitorino Nmésio pois está claro.
- Rapaz – chamou, apontando para o Pitosga (485). – Mostra-me o teu TPC.
- Não fiz.
Furioso, o Menau bateu com o livro de ponto na mesa, e atirou-o, mas a força foi tanta que ele deslizou e saiu pela janela.
- Eu cá não sou bingatibo, mas quem mas faz pagas-mas!
O livro passou uma razia ao Semita, que nem se apercebeu, tal era o estado desorientado com que tinha vindo do fim-de-semana, em que o seu Futebol Clube do Porto perdera com o Sporting, facto comentado na sala de professores entre o Pereirinha e o tenente-coronel Sant’ana, que levara o professor Grijó aos arames:
- Senhor tenente-coronel, vá para o cara… (o mesmo sítio para onde o povo mandou o Oliveira depois do desastre de Seul) – gritou, saindo da sala.
Voltava agora para tentar remediar a situação:
- Senhor tenente-coronel, - chamou, - olhe que é facultativo!
Noutro canto do Colégio Militar o professor Perdigão, cuja frase preferida era “quanto mais sei, mais sei que nada sei”, e que todos os dias desafiava as leis da física com o seu Datsun 120Y cheio de mossas, ia aos arames com a ignorância do Pencas (33):
- És um calhau com olhos!
Para este tipo de alunos o Semita também tinha outro tipo de classificação:
- Moçooo, sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és….um burro sem cérebro, - e deixou cair o ponteiro no coco do Peixinho (591), – ao mesmo tempo que se virava para a turma. – Nesta aula uns dormem de olhos fechados, outros de olhos abertos.
Mas havia um assunto tabu para o professor Grijó, que tinha a ver com as minas da Panasqueira. Por isso é que ele reagia sempre mal quando algum aluno exagerava nas doses de sódio e potássio, e fazia abanar o laboratório de química. Contava a lenda que a sua vinda para a Luz se devia ao facto de um dia ter feito um erro nos cálculos da dinamite e rebentado com uma galeria. Por isso, nos dias de trovoada a aula acabava com o primeiro relâmpago.



 

3 comments:

A.Teixeira said...

O carro do Perdigão era um Datsun 1200.

António Miguel Miranda said...

Já emendei!

Artur Guilherme Carvalho said...

Outra clássica do Semita era: Oube lá ó mocinho. Tu percebes tanto disto como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens.