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Friday, May 25, 2012

Comandante Guélas - Série Colégio Militar 4 - Inverno Quente


Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 



 
Em 1966 o padre Castelão Gonçalves que lecionava Educação Moral e Cívica escreveu no Anuário:
“É alarmante o descalabro moral da juventude…Não importa dissecar o fenómeno em si, mas sem dúvida que tal alastramento da amoralidade e obsessão do prazer e vício tem na base um adormecimento dos responsáveis, uma desproporção abissal entre os conhecimentos técnico-científicos com que se apetrecha a juventude e as bases religioso-morais a que não se dá nenhuma ou pouca importância.” pág. 89


No ano de 1975 houve um verão quente, mas também um inverno escaldante, num colégio cheio de rapazes com marcas individuais específicas, em confronto permanente entre pulsões e restrições. O padre Castelão de certeza que diria que estes Meninos da Luz tinham deixado de escutar o batimento cardíaco de Deus, o compasso do mundo. Com as saídas aos sábados à tarde e as entradas obrigatórias até às onze horas da noite do dia seguinte, o batalhão de adolescentes e imberbes só via um rabo de saia quando a mítica filha do senhor Nunes, responsável pelo curral e pelo aviário, resolvia ir fazer uma visita ao papá, uma vez que a sempre presente esposa do Justino funcionava como inibidora:
- Ó Patronilha, a tua mulher nem com uma almofada na cabeça, - dizia-lhe sempre o Horrível, o maior cobridor da Luz, segundo dizia.
- Mas fode bem, - respondia-lhe o vigilante.
Por isso as camas só rangiam após o toque do recolher nos dias em que a Rosa era avistada. Esta estória tem como protagonista, não a Marlin Monroe da Luz, mas uma administrativa, que um dia cometeu a imprudência de ir atestar o Fiat na bomba de gasolina do colégio. A saia que levava e o decote gostoso revelaram-se impróprios para o local, e foi a ignição para um impulso linguístico, que fez convergir as energias dos cinco adolescentes em três janelas do primeiro andar:
- “Senhor soldado, não se engane no buraco, olhe que é o do carro”
- “Não queres segurar antes na minha mangueira?” 
- “Abre as pernas que eu vou de cabeça”
O capitão Oscaralinho, um pequenote careca com a mania que era malandro, ainda tentou intervir, mas não teve tempo, pois a mania que tinha de pentear o cabelo a partir da orelha atrasou-o, e quando se apercebeu já a chinesa estava no gabinete do Diretor. O relatório com o acontecimento caiu a seco na secretária do comandante da Terceira Companhia,  um oficial hostil e paranóico, com uma pulsão maneirista, que não tinha o controle de nada e que via todos os dias a sua autoridade fugir-lhe debaixo dos pés:
- Meu capitão, dá licença que penetre? – Perguntou-lhe um dia o Bomba H.
E penetrou, mas depressa saiu a correr quando sentiu o vento de um punho raivoso dum capitão envolto numa tempestade existencial inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro da alma.
A investigação iniciou-se e rapidamente terminou, iniciando de seguida reuniões individuais com os encarregados de educação onde, em termos formais, foi lido em voz alta o relato dos acontecimentos. Se a mítica Rosa resolvesse tomar atitudes destas de cada vez que ia ao colégio, não havia tempo para mais nada.

Ofício Circular
“Encarrega-me Sua Exa. O Brigadeiro Director de transcrever a V. Exa. O nº 1 do artº 10º da Ordem de Serviço Militar, nº 47, que é do teor o seguinte: punições com 2 dias de suspensão, cada um dos alunos da 3ª Companhia e do 4º Ano nºs: 157, 601 e 653, por no dia 30 de Janeiro de 1975 terem dito “palavras insultuosas para com um funcionário deste colégio, que foram ouvidas por elementos militares e civis, que se encontravam no local de abastecimento de gasolina”.

26 de Fevereiro de 1975

Mas houve mais dois ofícios circulares personalizados, um para o Horrível, com três dias de suspensão, e outro para o Peidão, quatro dias, por ser reincidente (já tinha ficado detido uns dias durante umas férias da Páscoa). Entraram de férias mais cedo, e safaram-se do desfile do 3 de Março!



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