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Saturday, October 15, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 70 - Não jogam nem deixam jogar!



 O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 1



O famoso grupo domingueiro de futebol de Paço de Arcos, que não joga nem deixa jogar, acaba de fazer oficialmente quarenta anos de atividade. Foram dois os pioneiros, o Choné e o Miguel CG que, com uma bola do primeiro, que a alugou ao segundo, deram inicio a um jogo de baliza a baliza na praia de Carcavelos. Até que um dia se juntaram às equipas o Carinha da Avó e o seu irmão Caretas que, quando a sede apertava, e isso acontecia sempre a cada contra ataque, bebia uma cerveja. Foi a primeira derrota coletiva do Choné! No domingo seguinte exigiu a desforra, e aumentou o preço do aluguel da bola, contratou o Paivinha, mais conhecido como o general Bidon, um jogador com 200 quilos, e o Miguel CG respondeu com o Marques Capitão que, durante toda a partida, nunca soube qual era a sua equipe, por isso perdeu! Atualmente o seu lugar é ocupado pelo Bill. Na semana seguinte juntaram-se mais dois amigos, o Fininho e o Cafreal, o primeiro já com o equipamento de árbitro, que continua a usar, e o segundo um jogador que aquecia sempre com limões, e que não entrava em campo sem rezar:
- “África eh / meu berço de embalar / ai com palmeiras / ai ao luar.”
Com o Fininho apareceram as primeiras regras do Futebol de Paço de Arcos, por isso o Piquinhas, que nunca conseguiu chutar uma bola, rescindiu o contrato, não sem antes deixar um poema:
- “Fui ao mato / cortei o mato / e ainda trago fumo no papo.”
Deu-se o primeiro empate! Houve então necessidade de contratar mais atletas e na semana seguinte apareceram os manos Chico Mata Cães, Melga e Fufa, e o Marinheiro pai, que trouxeram mais qualidade ao jogo. Os Baptistas introduziram as balizas que ficavam no campo o tempo necessário para a equipa do Chico Paulo marcar um golo, pois caso o sofresse agarrava nos tubos e fugia para casa. Com a vitória do Isaltino um dos jogadores foi promovido a sobrinho, não o do táxi, mas o da UBER, e depressa se tornou o oligarca de um espaço desportivo sintético onde agora jogam, e onde o Peidão, o contabilista, prepara a sua reforma dourada. Mas só com um relato fidedigno de um domingo qualquer, é que poderemos ter uma imagem da modalidade!
A tradição cumpria-se com mais um jogo a chegar ao final sem a intervenção externa da campainha, ou da natureza, sinal de que num jogo corrido com estas características há sempre tempo para acertos e trocas de mensagens. Pela milésima vez o Chico tinha atingido a “redline” e queimara as juntas da cabeça, perdendo o discernimento e as linhas do rosto de todos os que com ele jogavam, principalmente as do Fininho. O seu apelido Marinheiro encerrava em si todos os desvarios, todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências, por isso o fumo preto que lhe saia pelas orelhas era espesso e a cor avermelhada que lhe forrava a fácies punha-o à beira de um ataque de caspa! Ao longe o papá, impecavelmente vestido com um equipamento do Sporting, que incluía meias e chuteiras verdes do Quaresma, tentava trazer o filho para a realidade, ao mesmo tempo que punha a mãos no bolso, não para ajustar as bolas, mas para tirar o cartão com a cor do Benfica, sabendo de antemão que tal seria impossível, porque a gasolina que tinha bebido no Algarve quando fora ao gamanço com o amigo chinês, depois de terem demorado a noite toda a desmontar uma cadeira feita de tubos de plástico, entranhara-se nos seus genes, não havendo por isso nada que conseguisse apagar o tal risco profundo que, em quase todos os jogos, colocava o pequeno-grande Chico à beira do precipício. Pelo meio o Mário Jordão encostara a uma lateral, depois de um furo repentino que lhe queimara as juntas da cabecinha e o fizera deitar labaredas pelos ouvidos, sinal de que aqui se jogava à bola a sério. Mas o mais grave foi quando o Choné resolveu disputar uma bola na grande área adversária e chocara violentamente com o Rato, tendo caído desamparado no relvado, onde permaneceu o tempo necessário para que o Fininho lhe desenhasse a silhueta. Quando se levantou não sabia o nome!
- Não lhe ligues, o Fininho é assim mesmo! – Gritou o pai Marinheiro de longe.
Mas nada demovia o colosso de estar colado à sombra do jogador com equipamento de árbitro que, desde que soubera que o Chico estava a estudar Logística na Escola Náutica, fazia-lhe interrogatórios massivos sobre o comportamento da “Carreira 22”, ao mesmo tempo que lhe agradecia os golos que a sua equipa ia marcando, apesar do inebriante Milhas, colega do Chico, também reagir, não às perguntas, mas sim aos agradecimentos, sinal de um reflexo já condicionado, com origem na casa dos Baptistas e na maresia da praia de Carcavelos, já para não falar da confusão dos seus cromossomas. E para agravar a situação, o Milhas teimava em dar orientações táticas desde que o apito imaginário dera início à partida. No calor da discussão ninguém se apercebeu da saída intempestiva do careca de meia-idade de nome Jorge, que tinha atingido o prazo de jogabilidade, em virtude de ter sido traído pela “claustrofobia por espaços vastos”, diagnóstico do Chico BF, que o impedia de respirar, compensando o défice com escarretas fininhas. Pelo meio o Tiago BF interrogava o Pequeno Polegar, de nome Biblot, sobre os motivos que o levavam a ir sempre disputar as bolas altas na Grande Área. Mas o assunto da jornada era a grandiloquência do Chico Marinheiro, que teimava em rosnar junto ao tio, enchendo-lhe o fatinho de perdigotos, e isto o jogador Fininho não tolerava:
- Não me diriges a palavra com a boca cheia de azeitonas, – indignou-se o pioneiro, apontando um indicador ameaçador ao “Colosso das Palmeiras”.
E nisto uma bola tresmalhada passou a rasar a cabeça do Milhas. Tinha sido o Rubi, que ainda não se apercebera que o jogo estava em pausa. Lá fora o pai Marinheiro ia aniquilando a equipa adversária quando resolveu dar à chave do Aston Martin do Choné e este acelerou furioso de encontro ao carro do Preto.
De fora ficam muitos outros acontecimentos que terão de ser discutidos na especialidade!

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