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Thursday, October 27, 2016

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 82 - O Semita

O Comandante Guélas

Série Colégio Militar



A essência do CM é possível captar através das nossas memórias, transformadas em estórias. Contava a lenda que o Grijó, professor de Físico-Qímicas, mais conhecido por Semita, viera para o Colégio Militar após uma expulsão das minas da Panasqueira, de onde tinha sido corrido com uma “bengala” por ter feito mal os cálculos da dinamite, e por isso rebentado com uma galeria. E isto teve consequências devastadoras na personalidade do engenheiro, pois nos dias de trovoada as aulas acabavam logo com o estrondo do primeiro relâmpago. Era senhor de um nariz adunco, tinha a voz rouca e um cabelo amarelado, não se sabendo se estas duas últimas características se deviam aos efeitos da explosão. Porque sofreu violentamente na alma, fez sofrer os seus alunos que, apesar de tudo, se lembram dele como se fosse hoje. O Volvo 130 azul já há muito tinha sido estacionado junto ao pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais quando se deu uma explosão lá para os lados do laboratório de Química, junto à Enferma, seguido de uma reprimenda monumental do Semita:
- Ó Morais, és um bronco, disse-te para cortar mais fininho o produto! – Gritou o professor para o seu assistente, o Ruca ou Fiasco.
A gargalhada foi geral e acompanhada de ruídos de animais, por isso o Semita retaliou de imediato, distribuindo ponteiradas e gritando:
- É gado, é gado, nesta aula uns dormem de olhos fechados e outros de olhos abertos, - e continuou. - Tenho aqui as vossas notas, que são uma miséria - e olhou para o 668. – Moço, sabes andar de bicicleta? – Perguntou, ajeitando o cabelo.
- Sei! – Respondeu o Peida Gorda.
- Então vais levar uma “bicicleta” – disse, com a voz rouca que o caracterizava, e continuou. – Ó moço, tu não tens memória, tu tens uma vaga ideia. - 666?
- Aqui!
- Levas para casa uma “bengala”. Oube lá ó mocinho, tu percebes tanto disto como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens! 384?
- Sou eu.
- “Bicicleta”! Psché, num monte de esterco fazes nódoa.
Quando entrou na sala de professores, após o final da aula, o assunto do dia era a derrota do Futebol Clube do Porto frente ao Sporting, por isso aproximou-se do Pereirinha e do Santana e gritou:
- Senhor tenente-coronel, vá para o cara..., - e saiu.
Regressou de imediato:
- Senhor tenente-coronel, olhe que é facultativo!
Mas o dia não estava a correr bem para o Semita. Foi desafiado para uma partida de xadrez pelo engenheiro Casanova, e algum tempo depois reagia no decorrer da partida:
- Não jogue assim, porque senão ganha-me, - avisou, já um pouco exaltado.
- Mas eu jogo mesmo para ganhar! – Retorquiu o adversário.
Não era esta a resposta que o professor de Física e Química, que obrigava os alunos a decorarem a Tabela Periódica e as Leis de Kirchoff, desejava ouvir. O seu pensamento estava agora a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando encontrar um interruptor que acendesse uma luz. Mas a jogada do adversário precipitou as coisas:
- Xeque ao rei!
Com a mão esquerda o engenheiro Grijó, que era senhor de um grande livro de exercícios resolvidos que nunca ninguém conseguira deitar a mão, virou as peças do tabuleiro e retaliou:
- Ainda se lembra da jogada?
Apercebeu-se que já estava atrasado quando ouviu o segundo toque para o início das aulas. Correu de imediato para o pavilhão de Química mas a turma evaporara-se, excepto dois artistas, o 191 e 591 que, sabe-se lá porquê, acabaram interceptados pelo docente, e levados compulsivamente para a aula, onde foram confrontados com uma situação inesperada:
- Vou fazer chamadas orais, aleatoriamente! – Disse o professor que costumava contar aos seus alunos que quando tinha a idade deles cuspia no pão que levava para a escola, para que os colegas não o comessem.
À tarde ainda participou numa partida simultânea de xadrez, Semita versus Alunos e, pela primeira vez na história deste estabelecimento militar, um aluno ganhava terreno ao professor de Físico-Químicas. Mas foi sol de pouca dura. Com um golpe “acidental” da sua gabardine, o engenheiro Grijó acabou com a ousadia do atrevido, espalhando as peças sobre o tabuleiro. A assistir à cena, e perto da derrota, estava o 15 que, aproveitando a sabedoria do mestre, deixou cair o barrete sobre a zona do jogo. Foi a única vez que se ouviu um elogio do senhor da Panasqueira:
- Moço, essa foi a melhor jogada que fizeste até agora, - exclamou, avançando para o aluno do lado. 




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