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Saturday, April 06, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 39 - O Fechar da Porta




                       Comandante Guélas

                                    Série Colégio Militar 



Para os Meninos da Luz a Rosa era diabolicamente bela, uma implacável provocadora, uma rapariga topo de gama, num espaço sem concorrentes. Por isto esta história oferece várias portas de entrada para um mundo de imaginação arrancado ao real e colado à pele colegial, onde o tempo é só um. Quando uma se abriu, a lateral que dava acesso à primeira e terceira companhias, saiu o Horrível, seguido do Peidão, do Gordini , do Peida-Gorda  e do Leitão. Como o 125 se auto-intitulava um predador, sempre cheio de histórias fantásticas com fêmeas durante os fins-de-semana, atirou:
- Patronilha, a tua mulher nem com uma almofada na cabeça!
 O vigilante poisou os discos de embraiagem da sua Java, que tinha os mesmos centímetros cúbicos que o provocador, e estava completamente desmontada no passeio, levantou-se e, a sorrir, deu o troco:
- É feia mas f… bem!
Risada geral, cumprimentos, e rumaram em direção aos claustros, onde iriam ter “Estudos” com o Didi, levando nos bolsos várias molas da bomba do vigilante Patronilha.   Passou por eles, em andamento acelerado, no seu soberbo Volvo azul, o engenheiro Grijó sendo saudado efusivamente pelos seus alunos:
- Semita, espero que morras, assim não tenho de ir estudar Física, - gritou o Minhoca, atirando-lhe um limão, e escondendo-se atrás da sebe da Enfermaria.
 Mas como a perícia do 280 não era muito famosa, o citrino esborrachou-se num vidro da janela da sala de leitura da terceira companhia. Na outra ponta da parada, vindo do futuro,  abriu-se com estrondo a porta de acesso à segunda e terceiras companhias, e o Gordo saiu a correr com o caixote de lixo na mão e colocou-o no meio da estrada, escondendo-se de seguida. Quando o À Nora  se preparava para mergulhar do armário para a cama do Puto da Fisga, cujas molas já estavam dobradas pelas bombas de outros, ouviu o chiar do carro do professor de Química e viu o contentor a espreitar pelas janelas. A porta da sala de música abriu-se com estrondo e o Escalope saiu a correr, perseguido por um Carioca em fúria decidido a fazer-lhe a folha. Nessa altura já os colegas apreciavam um estranho Ford Escort com o emblema das “Operações Especiais”.
- Amarelo?? – Interrogou-se o Horrível, o maior macho da Luz e dos arredores
Na última formatura a Terceira Companhia foi surpreendida com uma queixa insólita de um graduado:
- Alguém esteve a fumar na minha cama, e queimou o lençol, - gritou, com os óculos embaciados e boca a espumar. – Dou um minuto ao responsável para se acusar !
E porque quando havia “contradições” estas eram resolvidas com uma Firmeza, o Comandante da Companhia ordenou:
- Cócoras, - gritou o Mula. – Quem é que queimou a manta do Coirão?
Nada, o impasse manteve-se, como já estava previsto. Para que o espetáculo fosse convincente, houve necessidade de uns biqueiros, e outros mimos já habituais.
- Ninguém se acusa? Então vão ter que pagar o prejuízo, - sinal de que a tradição do “Um por Todos, Todos por Um” era muitas vezes confundida com outras tradições.
E como os gestos já estavam automatizados, cada graduado de uma estrela voltou o barrete ao contrário e recolheu o “donativo” na fila respetiva.
A festa acabou cedo, porque o tenente Frade, o proprietário do carro amarelo, estava de oficial de dia, e não era muito adepto destas actividades nocturnas. E estava garantido que no dia seguinte o som da corneta do toque da alvorada era trocado pela voz sensual da Janis Joplin, que causava modificações nas cabecinhas estremunhadas dos Meninos da Luz. As ideias de reforma permanente e de tradição não são incompatíveis: há as verdadeiras e falsas reformas, como há verdadeiras e falsas tradições e, sobretudo, muita ignorância da História.

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