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Tuesday, October 26, 2004

Camarada Choco 19 - Queda para a Música

                           Camarada Choco

                                          Aventura 19

Os excessos por vezes pagam-se caro...caríssimo ! E a devoção exagerada a uma causa também não é boa conselheira, pois pode ser ela a responsável por esse excesso...e que excesso ! No meio deve estar a virtude, a vida é para ser levada com moderação. As coisas fazem-se lentamente, passo a passo, e só se avança para a etapa seguinte quando a anterior estiver bem consolidada...repito...bem consolidada. Não é por fazermos muito e gritarmos que fazemos muito, que iremos ter um chalet lá em cima.
O Natal estava à porta, a grandiosa e luxuriante festa organizada pela nossa querida Escola para Desaparafusados da Venteira aproximava-se. Afinavam-se os últimos acordes, os ensaios intensificavam-se, tinham conseguido adestrar a Papoila a dizer ao microfone a palavra “Amor” ( politicamente correta para a ocasião ), sem com isso ter um ataque epiléptico ou enfiar dois abrunhos ao colega mais à mão. A Dona Ermelinda já confirmara a sua presença gratuita e calculava-se agora o seu tempo de atuação, não esquecendo o inflacionamento habitual: oficialmente 1 hora, mas na prática 5 horas, ficando sempre a tocar sozinha para o representante do representante do Presidente da Câmara, visto as outras ilustres pessoas terem muito trabalho nestas alturas, apesar de serem sempre uns apoiantes incondicionais dos deficientes.
Os cenários já estavam montados, a vomitadela de última hora da Papoila para cima de um Pai Natal já tinha sido absorvida pela farfalhuda barba; à vaquinha faltava-lhe um olho, comido com elegância e sem subtileza pela “Bébèu”, que a confundiu com o seu esbelto e amado Choco. Naquele meio ninguém iria estranhar uma leiteirinha com um só farol. A cabeleira verde da SóTraques cabia-lhe que nem uma luva, mas ela ainda não se tinha sintonizado com o espírito natalício e por isso arrancava com sofreguidão a “permanente” de cada vez que a colocavam na sua mona em forma de ananás. A ameaçar ajudar no evento estava a mãe da Castafiore, uma espécie de Amália com Dino Meira, que tinha umas cordas vocais gripadas desde a adolescência. Era demais ! Se ela ousasse aparecer temia-se que os políticos ameaçassem com reuniões imparáveis, e sem o poder não haveria subsídios. O próximo Tegretol teria de ir parar ao bucho da Amália Meira, custasse o que custasse.
Na sala ao lado embrulhavam-se as prendas que iriam ser dadas pelo Pai Natal versão mauber. A convivência de muitos anos fazia com que se soubesse, sem margem para erros, quais os presentes que cada um gostaria de receber.
- O Tremoço vai adorar esta guitarra, – dizia com paixão a funcionária e amiga – a música para ela é tudo! – apesar de ter só uma orelha e mesmo essa ter problemas na segmentação.
O festival ultrapassou, mais uma vez, as expetativas, a Amália Meira cantou e desencantou, os políticos retiraram-se quando a comunicação social fugiu, a Papoila acabou por afiambrar aos tortos e aos direitos, a família Ramires trouxe a tribo e saqueou a mesa dos comes, e o Tremoço lá recebeu entusiasticamente a guitarra mas...e aqui é que está o imbróglio da questão...devido à confusão do fim da festa, esqueceu-se do instrumento na carrinha. Possivelmente deverá ter reclamado em casa, mas como só usava uma linguagem extraterrestre ninguém notou a ausência do objeto de prazer infinito.
- A guitarra do Tremoço ficou aqui – disse a extremosa funcionária no dia seguinte – coitadinho dele deve estar à beira de uma travadinha e por esta altura já deverá ter destruído a parede com as cabeçadas de protesto.
- Deixa-te desses exageros – respondeu-lhe uma colega – ele se calhar já nem se lembra que recebeu uma guitarra.
- O quê!?? Fica sabendo que o meu Tremoço é um rapaz muito esperto. Logo ao fim da tarde vou-lhe levar a prenda antes de ir para casa.
Dito e feito ! Às 18H30 de um dia qualquer do século XX o instrumento foi depositado nas mãos do Tremoço, que começou de imediato a esgalhá-lo, tentando assim tirar-lhe umas notinhas esganiçadas. No dia seguinte a mãe teve de se deslocar, como de costume, à loja do senhor Pereira dos Tomates de Ouro e deixou o artista na esgalhação da sua guitarra. Como segurança, não o fossem raptar, deixou a porta do apartamento aberta. E o Tremoço lembrou-se de dar um show ao vivo para os vizinhos. O resto foi muito rápido: a guitarra escapuliu-se das mãos do punk, precipitou-se para o rés-do-chão...e no seu encalço foi o Tremoço.