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Thursday, August 19, 2004

Camarada Choco 14 - O Universitário - Odisseia 1

                          Camarada Choco


                                           Aventura 14
 
A emoção era enorme e imprópria para cardíacos, coxos, zarolhos, carecas e afins. Pela primeira vez na história da nossa querida Cooperativa de Reabilitação...etc.,etc., e mais algumas mariquices, um dos seus associados tinha sido seleccionado, entre muitos milhares de mongas ( metade da população portuguesa ), west boys, cromossomas-x-men, Dandy-Walker’s e muito mais hippies, para fazer parte da selecção mundial...perdão, é a emoção a ultrapassar o meu discernimento....para fazer parte da amostra dum estudo que se iria realizar numa Faculdade.

Nome do Herói: CHOCO SILVA, ou melhor, DR. CHOCO SILVA (com letra Maiúscula e a Negrito).

Ficaria assim para a história da Brandoa como o primeiro Treacher-Collins a norte do Tejo a ingressar numa Universidade !
Iria ser sujeito a um treino intensivo durante algumas semanas e depois teria de passar por implacáveis exames finais. O Choco nem estremeceu, estava desde aquele momento pronto para a luta, com o peito ao vento...peito !??..Oh não...enganei-me...com a Cifose...lá estou eu a armar-me em intelectual...com a marreca ( nome popular ) ao vento e a língua junto aos pés.
Ainda a madrugada era uma menina e já o nosso atleta montava arraial à porta do ginásio, devidamente equipado com a sua jurássica camisola de alças número 69 do Benfica, os seus calções verde esperança e os ténis número 55, sendo os 12cm em excesso ocupados pelas suas unhas estilo predador e para amortecer o cheiro de doze anos consecutivos sem ver a luz do Sol e as carícias da água.
1,2,3..., eram tantas as flexões que até a cifose dorsal desaparecia no meio de toda aquela massa muscular, parecendo ir instalar-se sorrateiramente na face sensual do nosso Sansão, que ficava agora mais parecido com um peixe corneta.
4,5,6..rugia o leão da Brandoa, à medida que fazia manguitos com a barra de 15 quilos, ou seriam toneladas!?? A expressão facial e a posição da língua, que já tocava na testa, tendiam para a segunda hipótese.
Na 8ª tentativa o colapso traiu as expectativas e o ferro caiu com estrondo no seu sensual pescoço, provocando o arremesso imediato dos seus ténis vermelhos contra a parede branca, assim como o crescimento descontrolado das unhas pré-históricas, que se enrolaram com estrondo na língua em forma de jibóia, ao mesmo tempo que deitava fumo pelas orelhas. Foi graças às toneladas de roupa que o Choco sempre trazia na mochila que conseguiram extinguir o fogo.
A prova seguinte fazia apelo aos seus abdominais. E este parecia ser o ponto forte do nosso Tarzan Choco Taborda!
- Preparado...atenção...vai – gritou o professor com voz grossa, digna de um verdadeiro treinador.
Mas só veio a língua, que recolheu com um pedaço de caliça do tecto. Iria ser o fim do mundo quando o chefe Porres tomasse conhecimento da ocorrência! Deu-se por finalizado o primeiro de muitos treinos. O nosso herói pegou na mochila, que geralmente pesa toneladas, devido aos milhares de cassetes piratas, bugigangas, roupas, toalhas, fatos de banho, shampôs, chinelos, óculos de mergulho e muitas, muitas mais surpresas que o acompanham para todas as actividades da vida diária.
Ainda os poucos galos da cidade não tinham tocado nas cornetas e já o nosso UNIVERSITÁRIO estava junto à porta do ginásio, pronto para o segundo combate.

Prato do Dia: Resistência Aeróbica

- Aos seus lugares...pronto...Piu !
Tal como um trovão, o nosso querido Choco partiu em slaide, com os ténis a chiar e o escape na máxima potência. Contra todos os prognósticos e apostas, não foi longe! Ainda não tinha atingido o meio da recta e já se precipitava de encontro aos paralelepípedos. O cronómetro não parou, obrigando o nosso Carlos Lopes da Brandoa a retomar a marcha. Mas nem assim melhorou ! Novo despiste no mesmo local. O director da prova deu ordens para se suspender o encontro e ordenou um exame rigoroso à máquina e ao terreno. Neste não havia nada que fosse o responsável, nem mesmo uma humilde bosta da cadela Duna. Geralmente os cocós tomavam banhos de Sol na relva do Porres e do Virgulino. A culpa era dos pneus!
- São inadequados – gritou o responsável.
Os ténis vermelhos eram grandes demais para as jantes. Metade deles, mais precisamente as partes da frente, não acompanhavam o andamento e ficavam sempre para trás. Treino suspenso até mudança de faluas.
Dia 3. Mais uma vez o atleta a antecipar-se aos galináceos.

Prato do Dia: Flexibilidade
A caixa, emprestada pela faculdade já esperava ansiosa pelo utente. Primeira exigência: o jovem tinha de se descalçar!...Descalçar !??..Meu Deus, e o ambiente, a camada do Ozono, iriam aguentar ?? Desatar aqueles paquetes iria ser um trabalho “herculíneo”. Pelo menos mil nós dados desde o nascimento até à idade adulta, separavam as fedorentas meias do final do século XX. Missão Impossível! Foi com o auxílio de um pé-de-cabra meio monga que as carcaças saíram, levando coladas parte das unhas encravadas e do seu conteúdo calórico. A partir daqui o odor insuportável a chulé-por-camadas traiu a consciência dos presentes e dos mais próximos e só voltaram à luz do dia com a ajuda dos profissionais do 112. Quanto à “flexibilidade”, esta alternava de lado por influência da marreca, da escoliose e de outros problemas afins.
Há certos momentos que temos a sensação de que o Tempo anda a gozar connosco. Ainda mal tínhamos recuperado do dia anterior e já o Choco se encontrava pronto para mais uma corrida.

Prato do Dia: Salto em Comprimento sem Balanço

Duas marcas de giz branco no chão assinalavam o ponto de partida e o de chegada. Os ténis benfiquistas persistiam em não largar o grande Choco Silva e por isso teve de ser feito um desconto pessoal: a Segunda linha recuou 10 centímetros! Foi-lhe explicada, da melhor maneira possível, a técnica ideal para ser um verdadeiro campeão.
- Hã, hã – rugiu o nosso herói, dizendo que tinha percebido claramente as instruções....ou talvez não!??....agora já era tarde de mais!
O garanhão já estava preparado para o Take Off ! As asas balançavam freneticamente, das orelhas já saia fumo branco, a língua esvoaçava em todo o seu esplendor, a cara parecia o Concorde. Colocaram colchões na parede distante, para o caso do jovem decidir aterrar na sala ao lado. Quando partiu o fumo já tapava todo aquele magnífico Jumbo da Brandoa e o barulho era ensurdecedor. O Landing provocou um autêntico terramoto. Uma eternidade até o fumo desaparecer.....todos olhavam estarrecidos para a parede, tentando vislumbrar o nosso Ser Olímpico. Mas dele, nem sinal ! Teria entrado em órbita, estando agora a ser cobiçado por um par de marcianas siamesas ?
- Está ali – gritou um dos assistentes, obrigando-os a olhar para trás.
E estava mesmo.... a 10 centímetros à frente da linha da partida.
O cabedal do herói crescia a olhos vistos. A prova dos nove veio num dia de Sol na casa dos pais. Estavam os pintores a dar novas cores ao quarto de dormir dos progenitores quando foram surpreendidos por gritos femininos alucinantes vindos da cozinha. Desceram apressadamente dos escadotes e correram como lebres para o local da tragédia. O espectáculo era arrepiante ! O nosso atleta acabara de atacar, tal como um felino, a sua progenitora e a sua querida irmã, que desde o nascimento partilhava com ele o síndrome de Treacher – Collins. As duas fêmeas já estavam “Ko” e o agressor transportava-as agora como os antigos Treacher – Collins das cavernas. O chefe da família foi confrontado com a dura realidade quando chegou do trabalho, já a noite ia longa. Lançou-se de imediato no encalço da fera, que tentava desesperado contar os carneiros, que teimavam em não sair do número três. Apanhou-o num momento de fraqueza e lançou-lhe um grito de morte:
- Se eu um dia chegar a casa e encontrar a tua mãe e a tua irmã aqui esticadinhas, dou-te uma sova que também ficas alinhadinho com elas.
Ainda o nosso herói não conseguira guardar o rebanho e já o cinto, comprado na feira da Brandoa, lhe fazia uma tatuagem na marreca.
- Querido toma cuidado com o teu “castrol”, que está muito elevado – avisava a vítima mais velha, tentando salvar o seu menino das garras do seu garanhão.
No dia seguinte o Universitário apresentou-se, tal qual um Apolo, na zona dos treinos. O mau tempo do dia anterior já não fazia parte da sua memória ( nem cabia ! ). Desta vez ia em direcção à Faculdade, precisava de se adaptar aos aparelhos. Os efeitos do árduo trabalho sobre o escultural corpo do Choco eram bem visíveis na inclinação lateral da carrinha, também ela deficiente.
O tapete rolante já roncava e o atleta olhava para ela como um palácio para um boi.
- Ah, á, á – dizia, e muito bem !
- Pronto ? Go, go...
- Nem os ruídos fisiológicos prejudicaram o arranque do pantera branca da Brandoa, que lá seguiu tipo foguetão, esteira acima.
O dia D aproximava-se, assim como o estudo exaustivo da fera.

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