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Monday, April 21, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 64 - Meninas da Luz / Meninas de Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



“Não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas as coisas em nós que decidem a sua própria forma” – Espinosa.

Estas estórias tornam o colégio ao mesmo tempo enigmático, límpido, silencioso e imenso. As nossas memórias são muito mais feitas de emoções do que realidades objetivas. Por isso o professor de Educação Física Isménio Tadeu contava sempre aos seus alunos que deixava o eléctrico arrancar para depois ir a correr apanhá-lo.
O calendário indicava vinte e cinco de abril do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quinze quando o ministro Alguidar e a Dona Berta entraram numa Chaimite no Colégio Militar, para a inauguração do edifício que iria albergar meninas, a já batizada “Torre do Pecado”, que tinha custado o dobro do inicialmente previsto. Iam tensos, amedrontados, pois tinham ousado mexer no que de mais sagrado havia para os Meninos da Luz: as Meninas de Odivelas! Que tipo de meninas seriam estas? Continuavam a ser as musas de antigamente, mas mais perto, ou passariam a ser as Meninas da Luz? Pelo caminho deram de caras com um cartaz que dizia “ Aberta vais levar um Ramalho”, assinado pelo temido “Grupo Zacatraz”, agora na posse de um suporte informático capaz de convocar todos os Meninos da Luz (alunos, professores e funcionários) desde a fundação do Colégio Militar. O Alguidar sabia que iria deixar de ter proteção especial, o governo estava de saída, vinham aí as eleições, e com elas a vinda do Inseguro, que nem uma palavra dissera sobre estes dois lendários colégios de Lisboa. À sua espera no porto estava o 281, o Tofa, pronto para lhe dar mais um apertão. Quanto à Dona Berta, regressaria aos esquemas antigos nas ilhas do Atlântico, escondendo-se uns tempos na Graciosa para deixar assentar a poeira. Mal ela sabia que na ilha estava o 502! Quando iam a passar junto ao campo de futebol uma nova faixa dava-lhes as boas-vindas: “Meninas só existem umas, as de Odivelas e mais nenhumas”. E era verdade, os elos que ligavam estes seres ultrapassavam todas as ideologias, e já eram património da Humanidade. Em 1964 o Comandante de Batalhão, o 8, tinha ido ajoelhar-se, em traje de gala, em frente à diretora do Instituto de Odivelas, pedindo desculpas pela invasão do ano anterior, vésperas da comunhão, quando um dos inúmeros grupos expedicionários de Meninos da Luz, a coberto das trevas, e aparecendo não se sabe de onde, talvez do túnel, um tesouro imaterial do Colégio Militar, tinha atirado pedras às janelas das meninas, a convidá-las para o pecado, dando origem a um acontecimento semelhante ao da independência do Brasil: “O grito da Fernanda”! O susto da Dona Deolinda foi tal, que chamou de imediato a GNR:
- E tragam cães com coleiras cheias de alhos, tenho a quinta infestada de demónios, e quero que as meninas continuem puras para a cerimónia de amanhã!
Mas não foi preciso a presença das autoridades, os cavaleiros tinham feito questão de deixar os números escritos nas paredes do dormitório. Um telefonema para o oficial de dia bastou para que o Colégio Militar preparasse a cela aos fugitivos, pois o “bom filho à casa torna”. No dia seguinte a Comunhão das Meninas de Odivelas foi marcada pela ausência dos Meninos da Luz na guarda de honra junto ao altar, tendo sido substituídos pelos Pupilos do Exército.
- Sentimos a falta do Penacho empinado dos nossos cavaleiros, - confessou mais tarde uma das alunas, desabafando - "tivessem os meninos vindo à nossa camarata que nós não gritávamos!".
- O dos pilões é só pêlo! – Retorquiu outra.
O presente do Alguidar era uma pálida amostra do negrume do futuro que se aproximava. Por isso vacilou:
- Berta, achas que estamos seguros aqui?
- Fizemos um erro, mas agora temos de seguir em frente, - respondeu-lhe a açoriana, espreitando pela vigia.
A “Torre do Pecado” era vista como uma cápsula do futuro, enquanto o decreto que extinguia o Instituto de Odivelas não fosse revogado. Até lá os Meninos da Luz guardariam com todo o amor e carinho as suas musas, até ao dia D, em que elas regressariam à origem, com a Escolta a Cavalo e os Penachos verdes empinados.

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