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Sunday, April 06, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 61 - Os Fantasmas da Luz


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


A memória molda-se muitas vezes ao que gostaríamos que tivesse acontecido, mais do que aos factos reais. O Colégio Militar é um espaço sem tempo com uma luz suave, por isso esta estória passa-se num futuro próximo não tão longínquo do presente. Digamos que estamos num depois de amanhã onde todos os Meninos da Luz estão ligados em permanência numa grande rede. Estes tempos medíocres, viscosos, sujos, feitos de uma degradação transversal e endémica, onde apenas se valida o que é mensurável, que puseram à venda a alma dum colégio com 210 anos, obrigaram à tomada de medidas excepcionais.
- Perdi-me, mas reencontrei – disse o último convidado da reunião a chegar ao bar, estendendo os ossos ao colega mais próximo.
- O Marechal teria dado um bom ator, - retorquiu o 155 de 1912.
- Nunca iria chegar aos teus calcanhares.
A reunião no Speliking - Bar & Bistro decorreu num ambiente de grande confraternização, todos tinham vindo de longe, de muito longe, a pedido do fundador. Vieram por uma boa causa, tentar salvar o que se tinha construído durante longos e penosos anos.
- Todos compreenderam? – Perguntou o chefe com uma voz grave e sonora. – Pertencemos à “reserva de força moral” a que o 178 de 1894 sempre se referia de cada vez que falava do colégio.
- Uma Boiada na capital, e das grandes, ao bimbo do Alguidar e à pirosa da Berta,  - gritou o 24/1882.
- Berta não, (A)berta, como costumam escrever nas paredes os putos da Brigada Zacatraz.
- Nós podemos, agora somos omnipresentes, e quem se mete com o Colégio militar…,
-…obviamente leva, - exclamou o 398/1917, atirando um copo para o chão.
- PJ, - gritaram, ao mesmo tempo que uma figura apressada se materializava à frente de todos, desaparecendo de imediato de encontro a uma das paredes.
- Pensava que o Zé Pereira me ia apresentar a folha branca.
- A tecnologia não é perfeita, a programação tem erros. Mas já é bom estarmos aqui reunidos.
O menu tinha sido o eterno “Amarelo”, uma receita única de um local especial.
- O sabor melhorou a partir do momento em que as galinhas do pai da Rosa dos anos 70 passaram a pôr ovos mais saborosos. Atiravam-lhes semanalmente com o éter gamado ao Valentim, obrigando-as a uma sesta alentejana, - explicou o 178/1894.
- Na boiada que fizemos ao Alguidar no Porto, a figura do Moca teve um “bug” e a cabeça bateu-lhe na perna, - explicou o 266/1904.
- Mas mesmo assim partiu-lhe o perónio, - reforçou o 158/1846.
E não só, o ministro fora alvo de chacota no hospital que o recebera, porque dizia peremptoriamente no inquérito policial que alguém lhe gritara, “lava com água fria que isso passa”! O programa tinha sido melhorado, ia ser o fim dos governantes. A primeira data escolhida fora o 1º de dezembro de 2013, nos claustros, onde o ministro iria ser lançado do primeiro andar pelo Patronilha e esposa, tal como era anualmente o Miguel de Vasconcelos, mas o Alguidar andava com medo dos ratas do 1º ciclo e das Meninas de Odivelas, por isso limitou-se a aparecer na véspera à noite para beber um chá de camomila com o director, tornando-se assim no primeiro governante em 210 anos do Colégio Militar a não presidir às cerimónias. Sabia-se agora que os dois estavam reunidos no Forte de S. Julião da Barra, a pedido da Berta, perdão, (A)berta, depois do Tribunal de Contas ter condenado a senhora a devolver os vinte mil euros que desviara do dinheiro do povo, provavelmente destinado ao Colégio Militar, ao apresentar senhas de presença enquanto presidente de Câmara de Ponta Delgada. O espaço era conhecido de muitos Meninos da Luz, pois tinham frequentado a piscina durante as férias grandes na Feitoria, no século passado, onde puderam exibir os calções curtos de cor preta e listas brancas de cada um dos lados. Mas como refeição de antigos alunos não é autêntica se não se falar do passado colegial, a tradição manteve-se, desta vez através das novas tecnologias. Todos estavam agora na Enfermaria de olhos postos nos enfermeiros Valério e Valentim, distribuindo as doses de vacinas pelos alunos alinhados. O primeiro espetava as agulhas, à medida que as tirava da parede, e ainda hoje há quem diga que após o jantar do 3 de março quem entrar no espaço sente o cheiro do éter no ar e ouve a voz do sargento:
- Não te mexas, vou ter que endireita-la, senão o líquido não entra.
A experiência era um posto.
- Qual é o teu nome?
- Bazuca, - atirou o Penico de rajada.
- Basílio Horta, - respondeu o 144.
No Colégio Militar uma alcunha estava geralmente ligada a um acontecimento, e neste caso não era excepção. O Bazuca quase que ia destruindo a sala de Química, devido a uma experiência, digamos, um pouco exagerada!
Nos Claustros ouvia-se, no meio da penumbra, os gritos de contentamento dos alunos ao receberem a notícia de que o Pequito partira um pé, por isso tinham feito planos para os furos da tarde. Furos? Os alunos do 3º tempo da manhã nem queriam acreditar quando, após o toque da corneta a anunciar o início da aula, apareceu o urubu do professor de Francês a subir as escadas de muletas. Na Sala da Santa viu-se o Madiura a ser apanhado pelo Galo a apalpar a senhora, que há muito tempo contempla com orgulho o Largo da Luz. No Pátio dos Fâmulos o condutor do Diretor, o Barnabé, alinhava os carros usados, para venda. E o negócio era tão eficaz que o número de telefone do stand coincidia com o da Central do Colégio Militar, cujo operador tinha indicações para chamar o dono caso fosse algum cliente. Na biblioteca o 279  impunha o ritmo do andar bamboleante da funcionária.
- Metro e vinte, metro e dez…metro e vinte, metro e dez…
Mas…
- O seu comportamento é indigno de um Menino da Luz, - disse o oficial de dia, que acabara de entrar. – Vai imediatamente comigo.
Quando o tenente-Coronel Guerreiro, ex-aluno, foi posto ao corrente da situação, sentiu o fluxo sanguíneo dilatar as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se e os dedos grandes dos pés reviraram-se. Agarrou no telefone e gritou:
- Vou telefonar ao teu tio e dizer-lhe para vir aqui imediatamente. Mereces levar uma sova tão grande que te ponha coxo como a rapariga, para ver se gostas.
- Camaradas, podíamos ficar aqui eternamente a deliciar-nos com estas aventuras, mas o dever chama-nos – interrompeu o professor Alcatrão, colocando a vigésima beata no canto da mesa. - Espero por vocês na Azinhaga da Fonte!
Quando o Ford Escort Amarelo do tenente Frade, recuperado graças às novas tecnologias, parou junto a dois vultos sentados no passeio, todos reconheceram o senhor Cândido e o professor Tadeu.
A “Garoupa na Telha à moda do Porto”, que o Alguidar resolvera oferecer à (A)berta, foi trocada nas cozinhas do forte pelo Semita, que lhe pôs um colorido “Peixe Celeste”, confecionado com muito amor pelo Pintado.
- Vão afogar-se na própria merda!
- A Janis Joplin, que substituiu por pouco tempo a corneta depois do 25 de abril de 1974, vai ser a senha para avançarmos.
O resto da estória ficará à imaginação de cada um, mas para a dupla virulenta o fim será sempre trágico!

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