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Friday, April 11, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 62 - Assalto a Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


 
“Senhora Directora deveria ter uma dor tão grande, que quando mais corresse mais doesse e quando parasse rebentasse”.
A chefe máxima das Meninas de Odivelas nem queria acreditar no que lia. Alguém tinha colado um papel na porta, juntamente com uma forca em miniatura. Entrou furiosa no gabinete e deu de caras com um marsápio em loiça das Caldas da Rainha, que a convidava, em sentido, para o pecado, em cima da secretária. Mas havia mais: 50 papéis com exigências tinham sido estrategicamente espalhados pelo espaço educativo, onde se albergavam as Meninas de Odivelas, eternas musas dos cavaleiros do Colégio Militar. E para provar que tinham estado lá, conforme combinado, os Meninos da Luz escreveram os seus números num dos cantos da piscina: 89, 165 e 376! Recuemos.
Eram 21 horas de uma noite quente de junho quando três vultos vestidos com fato de treino, sapatilhas e capote passaram pela cerca de arame junto à pista de aeromodelismo e seguiram rumo à segunda circular, onde os esperava um táxi, previamente combinado. O plano iria ser cumprido à risca, cada Menino da Luz levava um pedaço de corda, vários panfletos imprimidos no colégio e uma obra de arte comprada durante uma visita de estudo. Tinham recebido das cúmplices um mapa detalhado do terreno das operações e quais as portas estrategicamente destrancadas. Levavam também uns bifes, e um frasco com éter desviado do botequim do Valentim. Foram deixados num descampado, onde se dirigiram à árvore assinalada no mapa, desenhado com muito amor pelas amigas enclausuradas, ataram os pedaços de cordas que traziam, e passaram tranquilamente o muro da quinta. Esconderam-se dos canídeos num buraco e aguardaram. O líquido trazido da enfermaria poderia ser usado em duas situações extremas: se o Diniz e a Isabel os detetassem, despejavam-no sobre os bifes; ou caso o camarada Punhetas tivesse uma recaída e resolvesse desviar-se do objectivo da missão e ir uivar para uma das camaratas, despejavam-no pelas suas calças abaixo. Dos canídeos nem sinal, o silêncio era total.
Às vinte e duas horas e trinta minutos do dia nove de junho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e sessenta e nove deu-se início à mais extraordinária aventura alguma vez protagonizada por Meninos da Luz e Meninas de Odivelas, numa simbiose passada da teoria à prática, que passará, a partir deste momento, de neurónios efémeros para o Éter eterno. O 89, o 165 e o 376 rastejaram cautelosamente até ao edifício, e dirigiram-se depois à porta assinalada. Rodaram o trinco, e esta abriu-se. Tinham acabado de entrar no espaço que fazia parte dos sonhos de muitos camaradas, que à distância faziam ranger as camas.
- Onde é que elas estão? – Perguntou de rajada o 376, quebrando o silêncio sepulcral do mosteiro.
O 165 tirou de imediato o frasco do bolso.
- A nossa missão é só uma, temos pouco tempo, o táxi está à espera, - alertou o 89.
Dirigiram-se ao gabinete da Diretora, pelo caminho foram colocando estrategicamente os panfletos com as reivindicações das suas musas, espetaram com raiva a forca na porta, colaram a carta e depositaram gentilmente o magnífico cacete em loiça das Caldas da Rainha, sinal de que a visita de estudo uns meses antes iria ficar para sempre gravada na memória destes adolescentes. Assim como chegaram, furtivamente se escapuliram. O dinheiro só deu para metade do percurso de regresso, tendo feito o resto a pé. Quando passaram de novo a rede, o relógio da Igreja da Luz tocava as doze badaladas.
No dia dez de junho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e setenta e um houve duas formaturas, à mesma hora, em locais distintos da capital, os Meninos da Luz preparavam-se para o desfile do Dia da Raça, enquanto as Meninas de Odivelas eram confrontadas com o conteúdo de cinquenta panfletos espalhados pelo internato:

“Exigimos que as bananas nos sejam servidas inteiras e não cortadas como habitualmente, e queremos que nos autorizem a trazer canetas de filtro grossas pois as finas só servem para a aula de Desenho.”

Ficou assim provado que o lema “Um por Todos, Todos por Um”, não era exclusivo dos Meninos da Luz, mas também fazia parte do código genético das Meninas de Odivelas. Ficaram privadas do fim-de-semana, e nem a PIDE nem a Polícia Judiciária conseguiram alguma vez descobrir o estranho caso do “Assalto a Odivelas”, que também fora visitado pelo 275, o 440 3 o 583 que, por falta de dinheiro para o táxi, fizeram o percurso de ida e volta em passo de corrida!

1 comment:

Luís Ribeiro said...

Adorei o texto, parabéns António!