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304 estórias

Tuesday, April 01, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 60 - Colégio Militar versus Mocidade Portuguesa


Comandante Guélas
Série Colégio Militar




Salazar e o Colégio Militar têm um ponto em comum: Camões! Salazar quando estudou em Coimbra viveu em casa da D. Aurélia, mais conhecida por Camões por ser estrábica; na Luz o Camões era um sádico professor de Ciências Naturais, vesgo dum olho. Mas o poder é efémero, o Menino da Luz é eterno! O Colégio Militar sempre teve estruturas reais, onde se pode entrar, tocar, sentir e cheirar, é um espaço construído por muitos, durante muito tempo. A partir de 1936 todos os estabelecimentos liceais passaram a ser centros da Mocidade Portuguesa, assim  declarava o Decreto – Lei nº 26.611 de 19 de maio. Todos? Todos não, um colégio lá para os lados da Luz nunca aceitou fazer parte da Bufa. Por isso um dia o governo decidiu instalar os “bufos” dentro do espaço do colégio, com fardas e tudo, mesmo sabendo que muitas vezes os encontros desportivos entre ambos acabavam à pancada. A glória de um colégio como o da Luz jamais foi linear e luminosa, os limites e as amarras são o cimento que lhe solidificou o meio. Como os Meninos da Luz sempre foram consistentes nas suas atitudes, ergueu-se uma onda de repúdio, a reação dos ex-alunos, entre os quais se contava uma significativa percentagem de oficiais das Forças Armadas e o Presidente da República, o 24 de 1882, e não honorário como o senhor Aníbal, o 695 de 2011, que não teve tomates para fazer frente ao Alguidar, que tinha por detrás o 694, o irmão do Six, ameaçaram fazer um “Ramalho” ao António de Santa Comba Dão, contemplado nos anos 30, também a título honorário, com medalhas de aplicação literária e aptidão militar e física. Começava assim a resistência ao invasor! Na aula de música o Carioca da altura pretendia ensinar o hino da Mocidade aos Meninos da Luz:
- Atenção rapaziada, lá, lá, lá vamos cantando e rindo, 1, 2, 3.
Silêncio!
- Então? Perderam a língua?
Nova tentativa, de novo o silêncio! O professor tudo tentou, até que chamou o oficial de dia, que nem com ameaças conseguiu demover a rapaziada. Houve detenções, que se prolongaram por um mês inteiro. Em retaliação os alunos colaram pequenos quadrados de papel nas janelas, “escritos”, sinal de que se alugava o Colégio Militar! Foi então nomeado um novo Diretor, o Réptil, que tentou cumprir e fazer cumprir as ordens impostas pelo subsecretário de Estado da Guerra. E nada melhor para tentar mudar os Meninos da Luz do que patrocinar a visita de estudantes da Juventude Hitleriana. Quando os copinhos de leite loiraços apareceram no refeitório com calções curtos e meias altas, mais pareciam os Ganços do Restelo, que atacavam nas esquinas, do que os arianos que o Adolfo pretendia. Foi a risota geral. O “cá vamos cantando e rindo” era incompatível com o “em campos de glória fulge”. E num campeonato de atletismo no Estádio Nacional o regime apercebeu-se da tensão durante a cerimónia de abertura. Um mastro dividia as duas formações, de um lado estavam os Bufos do outro os Meninos da Luz, e com a missão de comandar as duas o Diamantino, chefe de castelo:
- Atenção, sentido! – Ordenou, tentando engrossar a voz de adolescente.
A Bufa obedeceu, a rapaziada do Colégio Militar nem pestanejou. Suspense! As entidades oficiais inquietaram-se, trocaram-se olhares, o Réptil esboçou um sorriso nervoso, com um indelével toque de desassossego, sentiu o fluxo sanguíneo dilatar as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se e os dedos grandes dos pés reviraram-se. E eis que o Pissocas, que estava à frente dos atletas protegidos por exuberantes capotes, em contraste com os pintos de calções e camisola de alças que tremiam de frio, fez meia volta volver em câmara lenta, olhou com orgulho para cada um dos seus colegas e disparou com uma voz gritada:
- Atenção, firme, sentido!
O gesto foi acompanhado por um bater de calcanhares em uníssono, que ecoou pelo recinto. De seguida foi hasteada a bandeira da Mocidade Portuguesa, com os Bufos a cantar o hino, e os Meninos da Luz a gritar o “Zacatraz”.
Aproximava-se uma cerimónia muito importante, mas os ensaios mostravam que os Meninos da Luz eram indomáveis.
- Comigo e com o senhor Diretor, vai acabar a bandalheira, este colégio irá entrar nos eixos, - gritou encolerizado o Caifás, um tenente enfezado com os galões a brilharem ao sol. – Esta formatura está uma merda, ó Bastilha tire o número àquele mais alto, que está a gozar com a tropa.
E aproximou-se do adjunto, continuando o discurso:
- Fiquem sabendo que a Infantaria é a rainha. O cavaleiro quando perde o cavalo falta-lhe logo os tomates, já não dá um passo; o aviador se o avião não pega não levanta voo; o artilheiro se a peça avaria, fica a brincar com a sua gaita; o marinheiro mal põe o pé em terra enjoa, e quer ir logo às meninas. Só o Infante é que está sempre em condições de combater.
As formações de ordem unida, em que sobressaiam os batimentos em uníssono no chão dos claustros, tornaram o tenente no “Salvador do Colégio”. Mas por pouco tempo! A sessão de tiro de morteiro na Amadora com o 7º ano revelou-se um desastre, os obuses caíram longe da estaca pintada de branco espetada na colina em frente.
- Os caçanhos só sabem atirar com espingarda, - disparou o capitão Assírio, professor de Geografia e História.
- Eu com duas ou três bojardas das minhas peças, estilhaçava o alvo.
Sem vacilar perante a arbitrariedade de um poder efémero, na cerimónia de todas as decisões, com os responsáveis políticos e militares presentes, quando era suposto cantar-se o hino da mocidade o batalhão colegial cantou a “Portuguesa”, e quando lhes ordenaram “em frente marche” uns deram um passo para o lado esquerdo, e outros para o lado direito, criando o caos, da mesma maneira que uns anos antes os colegas presentes no funeral do Presidente Sidónio Pais foram os únicos militares que se mantiveram firmes na formatura quando terroristas atiraram petardos contra a multidão. Houve punições, e em resposta a elas levantamentos de rancho. O poder político apercebeu-se que não iria ganhar a guerra e recuou nas suas intenções.
- Eles não querem ser da Mocidade Portuguesa! – Explicou o Réptil ao  subsecretário de Estado da Guerra, que o tinha chamado.
- Se não querem, não vão ser!
Assim, o Colégio Militar foi o único estabelecimento de ensino público que não pertenceu à Mocidade Portuguesa.

Saturday, March 15, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 59 - Dallas Cowboy


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



A vida é constituída por grandes e pequenos afetos. Por isso quando o oficial entrou na companhia e viu ao longe o funcionário a esfregar o chão, gritou a plenos pulmões:
- Moca, - e acelerou o passo.
- Epá, meu malandro, como estás crescido, - exclamou o fâmulo, encostando a esfregona à parede.
O abraço foi sentido, tinha misturado uma grande amizade e saudade.
- Se fosse noutro tempo já me tinhas arreado uma cabeçada por estar a pisar o molhado.
- Ainda sou capaz de te dar uma - respondeu, rindo-se.
- Não és homem, não és nada.
- Não me provoque meu coronel, - disse, aproximando a cabeça em forma de bigorna.
- Estás com medo?
A cabeçada do senhor Cândido Gomes Alves foi tão eclética, que trouxe à luz do dia todas as memórias profundas dos fabulosos anos em que o visitante fora um Menino da Luz. , esta estória segue outro rumo!
O período dos “5 estudos”, cinco tempos letivos exclusivos para preparação para os exames, a quem não tinha dispensado. Por isso o tempo estava reservado ao estudo intensivo, os procedimentos militares reduziam-se ao mínimo indispensável, o batalhão colegial era residual. Era um tempo com muita actividade noturna extracurricular. Quando naquela noite de verão o Br…, perdão, “Alfinete de Peito” (sinónimo), resolveu acompanhar os colegas, ia com a cabeça cheia de sonhos, já só se via a trote em cima da “Albertina das Mamas Grandes”, e a galope no lombo da “Dallas Cowboy”.
- E com um bocado de sorte está lá a Constança e a Francisca, - informou o líder do grupo, um cliente de “Cueca Gold”, o único que tinha no currículo uma camponesa desprevenida que se cruzara com ele durante um exercício de marcha na Semana de Campo em Mafra, que o obrigou a atirar a mochila e a espingarda para o feno, para assim poder dar os tiros.
O Br…., perdão, “Alfinete de Peito”, não aguentou a emoção, também havia princesas no Bairro Alto, por isso foi a correr para a casa de banho. A fuga deu-se a seguir ao toque do recolher, como a época era especial não havia necessidade de pedir licença aos poucos graduados. Até lá o líder informou os excursionistas dos serviços disponíveis e da tabela de preços, o frango do noviço iria deixar a capoeira para ser esgalhado por mãos alheias. O Br….,perdão, “Alfinete de Peito”, saiu do colégio já com o bicho em sentido. Quando as primeiras sombras do pecado começaram a aparecer no lusco-fusco, sentiu uma entidade estranha a forçar-lhe a braguilha. Viu então uma mulher lívida, de sorriso estampado na cara.
- O nosso melhor cliente está de volta - disse, aproximando-se do “Cueca Gold”.
- Trago um que, relações, só com a almofada, - informou o Menino da Luz.
- Vai para a Albertina, ela tem um bom par pedagógico.
O BR…., perdão, “Alfinete de Peito”, aproximou-se da porta e viu, iluminados por uma luz branca com papel celofane amarelo, uns pés de hipopótamo decorados com umas unhas de águia pintadas com um vermelho desbotado, das quais pendiam restos do lençol, que um dia tinha sido branco. Estava tudo desfocado, desproporcionado. Entrou com cautela. Deu de caras com um espetro de extrema singularidade, inquietante e perturbador, que bebia calmamente uma cerveja preta e debicava uns tremoços, ao mesmo tempo que acariciava com sensualidade uma barba que nascia na cabeça e desaguava nos pés. O Menino da Luz olhou para as cortinas gastas que guardavam os vestígios de outros clientes, que tinham conseguido resistir à erosão do tempo, e quis fugir pela janela. A intensidade do desejo impedia-o de ver a situação na perspectiva correta.
- Então, demoras muito a tirar a arma cá para fora? – Perguntou a dama, com palavras levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, veloz e aterradora, que deixou no ar um bafo azedo polissémico, agressivo.
A dita do Br….., perdão, “Alfinete de Peito”, tinha desmaiado, e a “Albertina das Mamas Grandes” estava à beira de um ataque de nervos, porque uma cerveja preta e uma taça de tremoços davam geralmente para cinco clientes, mas com este Menino da Luz estavam agora vazias. O que se passou a seguir deu origem a várias versões, que circularam na camarata, uma das quais dizia que a dita do Br….., perdão, “Alfinete de Peito” entrara dobrada, com a Albertina a gritar para se despachar, ao mesmo tempo que comia tremoços e bebia a sua cerveja preta, e outra que regressara à camarata com a arma selada, tendo-se vingado na almofada a noite toda.  

Tuesday, February 11, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 58 - A Arte de Bem Cavalgar toda a Sela


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



O Colégio Militar definia hierarquias e domínio, mas mais do que isso criava espaços de amizade, solidariedade, aprendizagem, iniciativa e coragem. Assim “toda a sela” era prenúncio de queda do cavalo. Por isso "sobrevivência"  dependia da ordem de chegada, e quando o toque da corneta avisou o fim da aula a turma saiu a correr em direção ao picadeiro, sem se despedir do docente, que preferia vê-los bem longe. Saíram todos? Todos não, o 601 ficou retido pelo professor de matemática, disciplina que não era muito do seu agrado, e com a qual a partir desta data iria cortar definitivamente as relações. O tenente coronel Cabedo já estava no colégio e tinha trazido, mais uma vez, o Lamborghini do irmão, que roncara na reta para o ginásio. Estava a fazer galopes curtos com o Flipper quando os alunos chegaram. Alinhados numa das paredes do picadeiro, guardados por soldados, estavam os cavalos do costume: o Salame, a Nono, a Rata, o Quadrado, o Alfange, o Eusébio, o Patacho, o Vapor, a Quirina, a Tangerina, o 31, o 48…
A Nono teria de ir no fim da fila, apesar de ser muito mansinha, pois não aceitava ter colegas a apalpar-lhe o traseiro, respondendo sempre com fabulosos pares de coices. E o Salame gostava de dar-lhe dentadinhas na garupa, nunca de soube se de amor ou de ódio, sem contar com as cangochas inesperadas que atiravam sempre ao tapete o aluno mais distraído. Na Rata bastava um toque nas vértebras sacras para que ela se empinasse. O Quadrado já tinha no currículo o braço partido do 80, o Alfange também dava coices, o Eusébio, todo branco, tinha mau feitio, o 31, também conhecido como o Cabeça-de-Mula, não perdoava uma, enfim, eram todos “bons equinos”. Na semana anterior o 581 e outros colegas tinham tido uma aventura alucinante, quando receberam ordens para levar uns quantos cavalos ao hipódromo do Campo Grande. Saíram pela Estrada da Luz e embrenharam-se pela 2ª circular, misturando-se com o trânsito caótico. Na zona do Estádio Universitário, com bermas largas de areia e ervas o instrutor deu ordem de “galope”, e foi nesta altura que o cavalo do 581 desembestou, só parando quando chocou contra a rede que delimitava o espaço desportivo. À chegada ao local ainda houve tempo para patinagem, nos paralelepípedos que forravam a estrada. Mas a aventura do 317 também era digna de registo, pois recebera ordem do Ataíde para ser o fila-guia ("muito bem, agora A-H") e descer as bancadas do campo de futebol com o Quadrado, que na semana anterior partira o braço ao 80 (Camões), depois de ambos terem levado, ainda dentro do picadeiro, uns valentes coices da Nono que aparecera, sabe-se lá porquê, com o 298 a tentar chamá-la à razão, após um galope muito confuso, de frente, aproveitando a ocasião para cumprimentar o colega e o seu jovem cavaleiro. O cavalo do 317 estava zangado com a “rapariga” e quem levou com o mau feitio foi o aluno que, no momento em que descia as escadas do campo de futebol foi literalmente cuspido pelo equino de encontro ao chão duro, tendo sido esta a quinta e a derradeira vez, pois o traumatismo craniano não o deixou prosseguir carreira. Mesmo assim ainda montou com o Ataíde aos berros. O 467 era um ás na “arte de bem cavalgar toda a sela”, por isso tinha sempre a mania de inventar, recebendo com frequência um cartão amarelo do instrutor:
- O senhor está a mijar fora do penico! 
O 601 nem queria acreditar quando entrou na aula de Equitação e viu que só sobrava um cavalo, o Cabeça de Mula, também conhecido como o 31, propriedade da GNR e rejeitado por esta para o ensino dos seus homens, mas adequado, sabe-se lá porquê, aos Meninos da Luz. Empinou três vezes durante a aula, e à terceira foi de vez, o Gordini sentiu no lombo a textura e o cheiro da serradura que forrava o picadeiro.

Thursday, January 23, 2014

Comandante Guélas - Série Colégio Militar 57 - A Coboiada




Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O dia começara com o professor de Educação Física Isménio Tadeu a contar a estória do costume aos seus alunos:
- Não pensem que eu vos mando correr só porque vos quero chatear. Faz bem à saúde. É por isso que eu deixo sempre o eléctrico arrancar para depois ir a correr apanhá-lo.
Mas esta aventura tem como cenário a noite.
Estava o oficial de dia a preparar-se para a tradicional soneca após o toque de recolher, quando tocou o telefone.
- Quem será o chato? – Desabafou o Ananás tirando as botas de cima da mesa.
- Meu tenente, daqui fala da portaria, - disse o Chico tão de rajada que o Maná teve a sensação de apanhar com perdigotos.
- Calma homem, mas afinal o que é que se passa? Não me diga que o 33 está aí outra vez na portaria em cima duma Panhard, como no 25 de abril?
- No gabinete do sub está…..
- O que é que se passa no gabinete do sub a esta hora da noite? Estão lá alunos, foram fazer uma visita?
O tenente Ananás ouviu uma voz, destoada e áspera, saíram clarões raros das profundezas do telefone.
- Chico, não digas que me vais obrigar a ir aí? Explica-te de uma vez por todas, – pediu o ex-aluno 78, agora no papel de cão.
- Vê-se tudo, a luz está acesa, - explicou o funcionário olhando para as janelas espelhadas, que de noite eram transparentes.
- Vê-se o quê?
- Uma senhora no gabinete…
- E??
- Está de cuecas…
- Cuecas? Uma senhora de cuecas no gabinete do sub a esta hora?
- …e de botas altas!
- Cuecas e botas altas?
- Só ela?
- Estão a correr…ele vai atrás dela. Vê-se tudo!
- Ele? Ele quem?
- O sub…está a brincar aos índios com uma senhora. Vê-se tudo!
- E o que é que queres que eu faça?
- Telefone e diga-lhe que se vê tudo cá fora com a luz acesa, - gritou o Chico da portaria.
O tenente Ananás ouviu uma tosse surda, seguida de um silêncio denso. Esperou. Era um silêncio cheio de gritos. Imaginou o que se estava a passar na outra ponta do colégio, nesta noite muito escura. Olhou para a parede do gabinete e fez um pequeno filme, daqueles que o padre Viana escolhia para as noites no teatro D. Luís Filipe, oferecido ao Real Colégio Militar pelo rei Dom Carlos no primeiro centenário da sua fundação. Via o superior hierárquico com chicote
 - Chico, não lhe vou telefonar. Ele que continue a coboiada!
- Mas, meu tenente. E eu? O que é que faço? Vê-se tudo…estão a correr pelo gabinete à roda da secretária.
- Eles hão-de cansar-se!
A senhora de cuecas e botas altas, perseguida por um militar desaçaimado, não era a Macaca, a administrativa que um dia proporcionara umas férias antecipadas ao 125, 157, 191, 601 e 653, pois ousara pôr gasolina no seu Fiat Coupé nas bombas junto aos claustros, tendo ouvido vários miminhos de uns adolescentes nas janelas do primeiro andar.
O Chico desesperava, mas ao mesmo tempo deliciava-se com o que via, dir-se-ia que o Olímpia e o Odéon, onde costumava encontrar muitos Meninos da Luz fugidos ao colégio, pela porta da Falca (Enfermaria) que dava para o exterior e encontrava-se sempre fechada no trinco, estavam a projectar o filme para adultos na parede branca do Zimbório. O dia já tinha começado com a queda do padre Valdomiro, também conhecido como Baldomijo, na sua Lambreta, que dissera que vira a “Luz” antes de cair, e agora quando se preparava para tirar uma soneca na portaria, um artista resolvera trazer uma amiga de fora para cavalgar no gabinete. Não teve outro remédio do que passar a noite na rua a afastar as pessoas que passavam junto ao portão.