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Tuesday, March 05, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 35 - O Pirilampo da Luz


Comandante Guélas
Série Colégio Militar




Esta é uma estória que sussurra que todos os gestos têm preços. O enfermeiro Valentim viu um aluno a entrar de rompante, e pensou tratar-se de um primo do Sissé, mas quando se apercebeu que era um caucasiano que trazia a boca em forma de ovo, gritou em voz alta:

- A Enfermaria não serve para tomar banho!
Mal ele sabia que o Chaminhas (475/77) trazia na cara a energia que tinha saído das entranhas do Sherman que estava exposto na Parada. Tivera um encontro imediato com um céu laranja flamejante, seguido de um azul em remoinho, ou seja, este Chaminhas, a que se seguiu outro Chaminhas (475/86), um capricho do destino só possível no Colégio Militar, tivera a visão do Inferno. Mas não foi um Sherman qualquer que despejou os seus gases inflamados sobre a metade esquerda da cabeça do Chaminhas, o tanque fazia parte de um lote raro (188) dos M4A1, conhecidos por “Grizzly”. Recuemos um pouco. O graduado Nhó Nhó (128/71) nem queria acreditar no que via, a 1ª Companhia estava formada no geral, e o 475 noutra onda, sentado a tentar acender um fósforo, raspando nos mosaicos do chão. Até o castigo foi original, o Chaminhas nº 1 não teve direito à clássica bordoada em sentido em frente aos colegas, mas sim a ser pendurado pelos pés sobre uma das latrinas onde um formoso cagalhão do Gordo espreitava pela borda:
- Se fazes esta gracinha outra vez, mergulhas direto ao calhau do 459, que pelo tamanho vai ficar aí vários meses. 
Foi também durante uma formatura no mesmo local, nove anos depois, que o Chaminhas nº 2 iniciou a sua carreira de incendiário, que neste tempo era exclusiva de uns eleitos, mas que atualmente está em franca expansão durante os meses de verão. Procedia-se a uma revista aos armários, coisa rotineira no meio militar, quando o graduado responsável deu de caras com um isqueiro:
- Mas para que é que este puto, que só está aqui há dois dias, quer isto?
Dirigiu-se à formatura e questionou o 475 sobre a necessidade daquele instrumento.
- Então não vês que a chama faz parte da alcunha que o puto herdou – explicou o comandante da companhia, dando o caso como encerrado.   
E diz também outra lenda, que a marca da bota num dos tetos duma das salas dos claustros tem um tamanho 39, e pertence a este Chaminhas, arremessado durante uma das atividades da moda, os “Miolos ao Teto”.
No livro de registos do Colégio Militar há só uma referência à entrada de Bombeiros, para apagar um fogo de origem desconhecida que consumiu parte dum canavial, que existia nos anos setenta junto ao ginásio. Os cronistas da época contam que este Chaminhas (o número um), queimou, nesta ocasião, parte do cabelo, que encarapinhou. Este ato pirotécnico foi precedido de muitos treinos no Monte Sinai, a elevação acima do campo de futebol, resultante da acumulação das terras retiradas do local onde construíram o Pavilhão de Ciências.
- A presença do 475 via-se à distância, os sinais de fumo eram diários, - disse uma testemunha da época.
Para acabar em beleza esta história dos Chaminhas, regressemos ao início, mas entrando por outra porta do passado: a época de exames do ano lectivo 1978 / 79. Um dia quando o 475 (número 1) regressava dos estudos, sentiu-se atraído misteriosamente pelo “Grizzly”, que tinha a intimidade toda exposta às intempéries, desde que alguém lhe tirara a tampa do depósito de combustível. Lá dentro um líquido convidava-o para o pecado. Agarrou num ramo de uma árvore, tirou-lhe as folhas, e enterrou-o no buraco do blindado, até “sentir” a ponta a mergulhar no líquido. Puxou o pau e cheirou a ponta.
- É água.
Aproximou o olho esquerdo da abertura, para ver com mais pormenor a intimidade do “Grizzly”, e atirou lá para dentro um fósforo a arder.
VOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSH
As dioptrias salvaram-no, porque por causa delas usava uns óculos estilo Clark Kent, coisa impensável nos dias de hoje em que a rapaziada opta pelas lentes de contacto, para não traumatizarem. Este Chaminhas viu o sol de frente a bater-lhe nas lentes, e este bronzeou-o, desde os olhos até à nuca, principalmente no lado esquerdo, tendo permanecido em formato baunilha e chocolate durante “vários anos” (sic). Teve direito a internamento, a cabeça ligada, e a um telefonema para os pais:
- Minha senhora, fala da Enfermaria, vimos informar que o seu filho, o aluno nº 475 encontra-se nestas instalações em formato de conguito!
 E porque a história também merece um pouco de romance, esquecemos o facto do Chaminhas ser o "batalhãozinho". Por causa de um currículo destes, o Colégio Militar deu-lhe a honra de inaugurar a chama dos 175 anos, na Parada do Corpo de Alunos, com o Batalhão Colegial formado, e um ex-95 do tempo da monarquia a acompanhá-lo.
 
 

3 comments:

Anonymous said...

Ia a história tão verídica, que nao precisava de descambar para a lenda no ultimo parágrafo! Endireitando-a: a chama foi inaugurada no 3 de Março pelo Chaminhas porque era o Batalhaozinho e nao porque tinha a fama. Mas a versão do post é mais romântica, claro.

António Miguel Miranda said...

Estas histórias são para irem sendo enriquecidas, pertencem a todos nós. Será feita a alteração..romanceando sempre !

Viktor said...

Descobri por via do texto e décadas após que à época o meu cagalhão era afamadamente renitente!