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Wednesday, February 27, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 34 - A Greve de Fome


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

Há muito, muito tempo, quando a instituição estava isolada na zona da Luz, longe da capital, havia uma carrinha que diariamente recolhia os professores, todos eles oficiais, e os levava ao Colégio Militar. A analogia com os veículos que recolhiam os cães abandonados, deu assim origem a que os militares passassem a ser designados por “cães”. E foi por causa de pontos de vista diferentes dos dois canídeos mais importantes de 1962 na gestão de um acontecimento único, que ficou para sempre grafitado nas almas de todo um batalhão, até se tornar uma lenda, que nesta aventura se irá peregrinar pelas memórias que ainda circulam pelas veias de alguns, fazendo-nos sentir o espaço, os outros somos nós. Esta é uma história alucinante e alucinada, em que só se entra com uma escavadora, é uma brincadeira com genes cinematográficos de Quentim Tarantino. E tudo começou quando o Salsicha resolveu pedir ao Rosinhas para lhe ir fazer o teste de Fisico-Químicas, prometendo-lhe um saco com Bolama. O contrato foi assinado de imediato, mas falhou por completo no dia seguinte, quando o professor os descobriu:
- Ó moçooooo, mas tu agora mudaste a tromba?
- O que é que o stor quer dizer com isso?
- Oube lá ó mocinho, tu e o teu colega percebem tanto disto como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens, pensavam que me enganavam!
Não perderam pontinhos, porque estas mariquices só iriam aparecer doze anos depois; não ficaram privados de um fim-de-semana, em que poderiam andar à solta pelo espaço colegial, porque ainda não havia destas modernices. Foram diretos para a prisão, trancados, sem apelo nem agravo.
- Salsicha e Rosinhas fora do calouço, já ! - gritaram o Gato e o Carícias do primeiro andar dos claustros, na altura em que o Diretor estava a entrar para o bar no rés-do-chão.
À noite o 6º ano fez um levantamento de rancho, que teve a solidariedade dos graduados no dia seguinte, e um “voluntariado obrigatório” do resto do batalhão. Os Meninos da Luz estavam assim oficialmente em “Greve de Fome”, não em solidariedade com o pessoal de Peniche, mas sim com os “antifascistas” Salsicha e Rosinhas, que tinham ousado desafiar a ordem estabelecida pela república: cada um era responsável pelo seu teste. Iriam depois os seus descendentes ser compensados com “passagens administrativas” doze anos depois. Continuemos! A fome apertava, não era só no Alentejo, os pais aproximaram-se um dia da parede do Colégio Militar, e uma noite voaram bananas para a parada.
- Foi um diluvio de potássio nunca visto, - recorda-se um dos alunos.
Os que conseguiram alcançar a fruta, fizeram-na desaparecer pelos buracos mais próximos, pois arriscavam-se a vê-la confiscada pelos responsáveis da “Brigada Salsicha”, que as comiam às escondidas. O cerco apertava-se, o sub-diretor Alcides optou por uma abordagem mais soft, mas quando o seu superior hierárquico, o Amadeu, tomou conhecimento de que os pais queriam a sua cabeça, levou a mão ao coldre e gritou:
- Até ao fim do dia tem de aparecer um culpado,…nem que para isso tenha de decretar uma firmeza para todos, alunos, professores, oficiais e empregados!
Os pais, reforçados por ex-alunos, ocuparam o campo de futebol durante uma noite escura, distribuindo comida às escondidas. E tudo se precipitou quando se ouviu, não o grito do Ipiranga, mas do Cu-de-Senhora:
- Mãe, atira-me uma carcaça, que eu estou cheio de traça.
No dia seguinte a cabeça do Comandante de Batalhão foi entregue numa bandeja, daquelas onde costumavam servir os bifes da testa, com a mesma cor e textura dos de cavalo que agora andam a deitar para o lixo, ao Director, uma gentileza de alguns dos que tinham iniciado e patrocinado o evento. As rédeas do poder passaram para as mãos do comandante da quarta companhia, e por causa de várias expulsões, tiveram de vir reforços do sexto ano.



 

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