miguelbmiranda@sapo.pt

Wednesday, March 13, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 37 - 10 de junho


Comandante Guélas
Série Colégio Militar




Esta é uma estória com duas partes, ligadas por um ponto em comum, a “Raça”! Neste dia o pequeno-almoço foi reforçado porque a data pertencia à Pátria, a festa iria ser brava: ovos mexidos cuja matéria prima tinha vindo diretamente dos rabos das meninas do senhor Nunes, excluindo o da sua filha, porque o produto que esta produzia chamava-se “desejo”, e mexia com as almofadas dos Meninos da Luz. Tudo se passou num tempo em que o boletim meteorológico seguia à risca a sapiência do Borda D´Água, por isso o calor apertava impiedosamente. Na formatura do Colégio Militar, que juntamente com as dos outros ramos das forças armadas, esperavam pelo presidente da república que, tal como uma noiva, insistia em não chegar a horas, não se via um movimento, graças às Firmezas, que nestes tempos faziam parte do Plano Curricular. Nas tripas de alguém  os ovos das galinhas que nunca causaram gastroenterites colegiais, não se sabe se pela qualidade dos mesmos ou das tripas dos meninos, refilaram, e o som que saiu assemelhou-se ao de uma corneta. Ninguém reagiu, nem o próprio, que continuou impávido e sereno com a arma em descanso, e com os metais a brilhar ao sol, tudo graças ao senhor Manuel, um coxo velocista temperamental, que reagia violentamente quando alguém requisitava algo inabitual, como fora o caso da véspera deste 10 de junho, em que o aluno trocara a solarina “Coração” pela Rosa. Na noite anterior tinham levado as armas para a camarata, e por isso os saltos dos armários para as camas, os concursos de gosmas, que deram origem a fabulosas estalactites, capazes de competir mano a mano com as colunas de Palmira, e que ficaram suspensas durante anos letivos seguidos, foram trocados por combates corpo a corpo com as ditas, que só acabaram quando a almofada do Elefante foi trespassada por uma baioneta com a cabecinha ao léu. Eram tempos em que os pais não passavam da Porta de Armas, não havia mães a gritar, nem Correio da Manhã, a Boca Louca saltitava em bolsas proletárias, pegar de empurrão só em pensamento e as Meninas de Odivelas estavam apetitosamente longe! A festa oficial deu depois lugar à festa colegial: Chá Dançante!
O evento escancarava as portas ao sexo feminino, tão raro no colégio durante os outros dias, com exceção da apetitosa menina Lisete, da fabulosa Júlia Patronilha, da inigualável menina Cassilda, da imponente dona Teresa, e de muitas outras guardadas nos corações desta gente assinalada. Tal como de manhã, tinha havido um trabalho árduo de bastidores, que consistia na montagem dos adereços, luzes, bolas de espelhos, sistema de som, cobertores nas janelas, bar, e outras coisas mais. Quem estava no ativo tinha de vir fardado, quem era ex geralmente ostentava um cabelo a tocar os ombros, as Meninas de Odivelas podiam vir à civil, e as civis traziam belos decotes e mini-saias. À espera delas estavam vários tipos de colegiais, desde o galã, que ostentava uma farda recheada de medalhas, as dele e as emprestadas pelos colegas marrões que tinham ficado em casa a estudar para os testes, os conquistadores, que passavam os dias a falar das aventuras amorosas do fim-de-semana anterior, incluindo com a almofada, o Líder, que já tinha a fêmea marcada, e ameaçara com represálias quem ousasse dirigir-lhe a palavra, o rata, que fazia de pau-de-cabeleira para a irmã, mas depressa recebia ordem para dispersar, o mudo que só via e andava em grupo, mas que no final confabulava uma estória de amor. E assim se encerrava a contribuição dos Meninos da Luz ao dia também dedicado ao Zarolho!
 


 

No comments: