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Monday, March 11, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 36 - Luz XXI

Comandante Guélas
Série Colégio Militar


A decisão já era oficial, o Colégio Militar preparava-se para receber no seu seio as Meninas de Odivelas e os Pilões. As Dulcineias viriam, não através do túnel que várias gerações cavaram em vão com as suas próprias mãos, mas sim de Metro. E isto estava a causar o pânico em alguns Meninos da Luz, com medo que elas viessem atraentes, ameaçadoras, em poses sedutoras, idolatradas. Por isso eram contra, queriam a exclusividade, mesmo reduzidos a uma turma por cada ano:
- Se conhecerem o colégio que eu conheço, deviam saber que esta fusão só terá um efeito, a sua destruição, - gritava um Bétinho que nunca sentira na pele um pincel frio cheio de tinta plástica preta com pasta de dentes, que fazia arder os tomates, e que era acordado todos os dias, não com uma corneta estridente no altifalante, mas pela mamã através do telemóvel.
- Oube lá ó mocinho, tu percebes tanto do colégio como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens! – Respondeu-lhe do Além um especialista na matéria.
A tradição dizia respeito ao antigos, àqueles que entravam ao domingo e saiam na tarde de sábado, ficando isolados do mundo, entregues à sua sorte e à dinâmica do lugar, que os tornava rijos. Eram os gloriosos tempos das pinturas genuínas com trinchas e todo o tipo de químicos, das intermináveis firmezas, das apresentações à alvorada, do “prazer” de comer umas bordoadas em frente à Companhia, por ter um vinco no lençol, ou o fato de treino desarrumado, ou ter chegado cinco minutos atrasado aos Estudos, e muitas, muitas outras atividades impensáveis nestes tempos de mudanças. Uma história de sucesso feita de rigor, de sensibilidade, de garra e de fé, enfim, de “engenho e arte”.
- Acho inaceitável que o pessoal da barretina concorde com o ultraje que é a fusão, - tornou a gritar o Bétinho, agora alcunhado de Cuecas de Buda, mesmo sendo proibido nicknames, para não traumatizar os petizes, que nunca tinha tomado banho num balneário com uma só torneira, onde a água gelada alternava com a água a escaldar, e cujo tempo para o serviço era apenas de vinte minutos, nem mais um segundo, a partir do qual tinha pouco tempo para se apresentar nas aulas na outra ponta do colégio, porque caso chegasse atrasado tinha garantidos uma dose de abrunhos na última formatura do dia.
- Ó pá, tu assassinas-me o colégio. Bai lá armar-te em durão para as saias da tua mamã, - exclamou do éter outra voz eterna.
- Este moço merece uma bengala, não pesca nada de nada, - reforçou um dos membros do Conselho dos Sábios.
No Colégio Militar tudo dependia da alma, uma alma maior, que crescera do convívio com os colegas, e com a paixão que este espaço despertava. Mas, apesar de tudo, não era a Luz que iria acabar, os outros é que seriam incorporados. Mudava-se, como muita coisa tinha mudado ao longo dos tempos, agora na formatura olhavam para os pombos, à espera de apanhar com uma poia, antes olhava-se de frente, como tudo na vida. O tradicional calcanhar a bater em uníssono, com raiva, no chão, fora substituído pela carícia plantar no alcatrão ("passo de biela e manivela"), pois agora ter calos nas solas era considerado antipedagógico por um estranho grupo chamado Associação de Pais. Quando os Pilões se apresentarem à porta de armas, todos irão ver a sua decadência, com os penachos murchos, substituídos por barrigas proeminentes, sinal de que continuam com abdominais fraquinhos, aqueles que uns anos antes tinham traumatizado o diretor, quando foi informado do chumbo coletivo nos testes físicos de adesão à Academia Militar. As Meninas de Odivelas apresentar-se-ão rijas, virão preparadas para o embate e decididas a mostrar que não irão deixar os créditos da Luz em mãos alheias, bater-se-ão pela barretina de igual para igual, pois são as pessoas que fazem o espaço e não o contrário.


1 comment:

Rui Jorge said...

Reconheço o Lobato Faria-258/74 no centro da foto. Não me lembro dos outros. Rui Rebelo(422/74)