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Sunday, February 17, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 33 - O enSOPAdo


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

A refeição decorria dentro da normalidade, o barulho de copos a desfazerem-se de encontro ao chão não dava descanso ao Zé Pereira, que corria de um lado para o outro com o bloco de ocorrências na mão e um reforço de mais dois nos bolsos, não fosse ele uma das vítimas do lema colegial “Um por Todos, Todos por Um”, que levava sempre a um repartir dos custos por vários, tendo um dia sido batido o recorde da Luz com “1/180 avos duma pia”, facto com que a administração militar não se intimidava, enviando diligentemente a respetiva conta para todos os encarregados de educação. Numa mesa decorria clandestinamente uma atividade cultural, um soberbo jantar pré-histórico, em que era proibido usar os membros superiores, havendo por isso alguma dificuldade em apanhar as lulas com os dentes, e quando as apanhavam alguns arremessavam-nas de imediato, ao estilo lançamento do martelo. E foram tantas as vezes que o Punk atirou cefalópodes estufados de encontro ao 249, que acabou por lhe provocar uma convulsão existencial, que o fez agarrar na terrina cheia de sopa e enfiar-lha, do alto dos seus 155 cm, pelo côco abaixo, dando corda aos sapatos de seguida, atitude que não passou despercebida ao capitão Gágá. O 445 estava estático, sentia o calor abrasador do líquido a ser absorvido pelo blusão, e a aquecer-lhe as partes baixas, ao mesmo tempo que as couves desciam, mas em passo de caracol. 

- Vou partir-te todo Fagulha, - gritou o Punk, correndo em fúria, deixando um rasto de couves no refeitório.
Não foi longe, o oficial de dia interceptou-o e deu-lhe ordem para o acompanhar. O meia-leca foi descoberto pelo cabo Pilas debaixo da cama, e reconduzido ao gabinete junto à entrada das companhias.
- Quero..ro..rooo-os em sen..sen…sentido, sem..em…em pes…pes…pestanejarem, - gritou o capitão Gágá à beira de um ataque de nervos, e com a sua conhecida gaguez a todo o vapor.
 Por causa da insubordinação do 445 e do 249, tinha sido privado de saborear um belo Amarelo, exclusivo para o oficial de dia, prato tradicional do Colégio Militar, feito com os ovos das galinhas do senhor Nunes, o responsável pela criação, e pai da única musa existente na Luz durante vários anos, a mítica e exuberante Rosa, a que se juntavam os bifes da testa da semana anterior, devidamente desfiados e regados com vinagre, para anular os efeitos da decomposição. À geração criada nestas condições só se podia dar um nome: Ínclita! Anda agora toda a Europa em histeria, porque puseram carne de cavalo nos hambúrgueres. Fiquem sabendo que durante décadas foi o prato principal dos Meninos da Luz, e a maioria continua rija e recomenda-se. Voltemos ao assunto que envolvia o Gágá, o Punk e o Fagulha !
“Trau, trau, trau”, foi o barulho dos abrunhos que o capitão distribuiu por ambos, ficando nas mãos com o resto das couves que ainda forravam a cara do 445. Mas o lançador de sopas tinha a mania que era malandreco e ripostou:
- O meu capitão está a bater-me porque tem galões.
O Gágá nem queria acreditar no que ouvia. Olhou enfurecido para o 249, relembrou-lhe que também ele era ex-aluno, tirou os galões, mandou sair o Punk, fechou a porta do gabinete, e o que se ouviu desta vez não foi “trau, trau, trau”, mas sim “Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz”, durante muito tempo.


 

2 comments:

mongiardim saraiva said...

Essa sopa merece ser contada e vai ficar nos anais da história...até que alguém um dia faça outro ensopado pior, o que vai ser muito difícil. Parabéns pela história...Adorei !!! Abraço.

António Miguel Miranda said...

Obrigado Carlos. Soube dela através de comentários no facebook, falei com os intervenientes, e o resto romanceia-se, com o tu bem sabes.

Um abraço