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Saturday, January 19, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 31 - O Apagão


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


As histórias vêm dos fragmentos da memória coletiva, e na memória coletiva se consomem, porque só assim se pode ir mais longe e mais fundo nesta vida. Por isso a tradicional “Falca” não poderia passar despercebida. Quando o Cebola soube que o Crocodilo estava de baixa na Enfermaria, e por isso iria safar-se das marchas e do teste do Semita, jurou ir fazer-lhe companhia:
- Como é que o 318 conseguiu arranjar Papeira?
Já tentara os métodos tradicionais, esfregara toda a pasta de dentes do Texugo (175) nos sovacos, mas o termómetro não passara dos 38,5, e isso só dera para uma misera aspirina; simulara uma fratura na ginástica, quando viu o osso do Trabuco (400) a espreitar na perna, mas o Tadeu deu a ambos o mesmo tratamento:
- Esfreguem com água fria que isso passa!
  Abanara freneticamente o termómetro de pernas para o ar, mas só conseguiu uma alucinação:
- Moço sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és…um burro sem cérebro! – Gritou-lhe o engenheiro Grijó do éter!
Recorrera aos alhos dos bifes da testa do almoço, mas só conseguira uma apresentação à alvorada por falta de higiene. Estava desesperado, por isso corria agora com capote à volta do campo de futebol, debaixo de um sol abrasador.
- 42?!! – Disse o sargento Valentim, olhando para o jovem com cor de tomate e para as aspirinas que estavam empilhadas como Legos. – Vais ter que passar aqui a noite.
Menos sorte teve o Gordini (601) quando apareceu com o garfo do Becas (157) enterrado na mão, depois de um assalto de esgrima durante a hora de jantar:
- Toma estes Sais de Fruto que amanhã o buraco está tapado !
Quando o Cebola chegou ao quarto, já o Crocodilo estava aconchegado às pantufas e à revista “Gina”, cujas suecas o mantinham a ele e aos outros dois em “ponto-de-rebuçado”. Estavam agora todos num quarto virado para a Estrada da Luz, cujas janelas estremeciam de cada vez que passava um eléctrico, condições inaceitáveis para que pudessem recuperar condignamente do frágil estado de saúde. Por isso resolveram atacar o problema de frente, não fossem eles uns soberbos Meninos da Luz. Juntaram duas vassouras, escancararam as janelas e, depois de várias tentativas, conseguiram pôr os traillers dos eléctricos fora da calha. Naquela noite não houve amarelos para ninguém, e as queixas caíram em catadupa na secretária do Oficial de Dia, que não conseguiu pregar olho, como era habitual. No Colégio Militar não se desperdiçava o tempo, porque todos desfrutavam de uma invejável liberdade selvagem, com a errância limitada à distância entre o Picadeiro e a Porta de Armas, onde se construiu durante longos anos uma ética e uma moral exclusivas daquele espaço educativo. E qualquer contradição entre ambas era de imediato resolvida com uma “Firmeza”, ou com uma “Apresentação à Alvorada”, ou uma “Sessão de Abrunhos” em frente à Companhia. Foi por isso que finda a comissão de serviço na “Falca” estes quatro artistas foram contemplados com dois magníficos dias de detenção, que hoje em dia só de pensar já é crime para a Associação de Pais.  

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