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Monday, January 14, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 30 - O dia em que o Rei foi ao Colégio


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Estas histórias são realizadas por memórias pessoais e memórias em segunda mão. O tradicional Colégio Militar estava definitivamente a mudar, esperava-se agora a visita de um conterrâneo do Sissé, que iria ter, em exclusivo, o batalhão colegial de armas em riste no campo de futebol. O pequeno-almoço, como já era habitual nos dias em que havia desfile, foi reforçado, para assim evitarem desmaios de ocasião durante a espera. A limusine com o convidado especial parou junto à sala de esgrima e o primo afastado do 361 saiu vestido com um soberbo blaiser vermelho, com o símbolo da Pepsi bordado no bolso. Umas horas antes uma camioneta estacionada no piso por debaixo do refeitório da primeira e segunda companhias, não tinha passado despercebido ao trio maravilha: Cão (328), Camélia (299) e Six (607). 
- Estão a guardar grades com garrafas, - informou o 601 (Gordini).
Junto ao ginásio a festa estava rija, os Meninos da Luz marchavam orgulhosos para o Rei Pélé, que iria de seguida dar o pontapé de saída para um encontro de futebol entre duas equipas do colégio. No guião da Pepsi constava um penalti, cuja baliza seria defendida pelo 661.
- Vou atirar a bola para o lado direito, - disse o ilustre visitante quando cumprimentou o adversário.
Dito e feito, o Dáni fez uma soberba defesa, escrevendo assim nas estrelas mais um feito do magnífico colégio da Luz, que foi de imediato aproveitado pela imaginação: “Com Pepsi os Meninos da Luz ficam invioláveis”, dizia com orgulho um soberbo militarzinho, o Escalope (307), apresentando arma, mas em vez da Manlicker, tinha na mão uma garrafa da bebida que o primo do Sissé dizia ser a sua preferida. Mas como neste espaço abençoado pela Luz tudo era inigualável, um pouco mais abaixo estavam a decorrer outras actividades culturais, na cave junto aos balneários. Os “descendentes” do pioneiro Crocodilo (318/61) aproveitavam as janelas abertas da cozinha e enchiam a sopa Juliana com todas as proteínas disponíveis, minhocas, bichos de conta, caracóis, e muitos, muitos outros “mariscos” exclusivos da zona. Este foi o segredo para toda uma geração saudável que o colégio produziu. Enquanto isso o “Arroz Generalíssimo” já gritava nos tabuleiros de alumínio XXL, tostado pelo forno que estava na redline, tendo à sua espera recipientes com beterraba e cenoura ralada, que lhe iriam dar um aspeto grumete. No mesmo local, ouvia-se o bater ritmado de botas contra a porta que dava acesso às bebidas milagrosas.
- Acertem o passo comigo, - ordenou o 601 (Gordini), com uma voz de chefe, ao Cão (328), ao Camélia (299) e ao Six (607).
 Mas estavam cansados, a semana tinha sido muito agitada, iniciara-se com um assalto aos bolos do Miranda nos claustros, e várias molhadas aos papos-secos com marmelada, e outros miminhos, uma atividade diária após o segundo tempo da manhã, cujo risco era tão elevado que os funcionários, por uma questão de segurança, punham os cestos à porta das salas de aula uns minutos antes de tocar, e fugiam em debandada. A corneta berrava, as portas abriam-se de rompante e uma turba de Meninos da Luz alucinados mergulhava sobre o recipiente, reduzindo parte do conteúdo a “migas à alentejana”, destinadas aos mais obesos. Mas tudo tinha o seu lado positivo, e este descobriu-o o Crocodilo (318/61), ao dizer com justiça que “foi destas molhadas que saíram alguns dos melhores jogadores de rugby do país”. E para agravar o panorama o Semita tinha dado uma bengala (7 valores) ao Six na oral de Física:
- Moço, - explicou-lhe o docente, - esta disciplina não é uma cadeira, é uma “chaise long” onde o aluno se estende à vontade.
Pum, CRRR….
 A porta foi-se, dando lugar ao tradicional mergulho, um reflexo condicionado que todos os Meninos da Luz adquiriam, apesar de serem só quatro. Estava-lhes no sangue, eram personagens que se elevavam acima das suas circunstâncias. E foi por isto que a promessa do primo do Sissé de dar uma garrafa a cada Menino da Luz não se concretizou, estando este lapso entranhado na memória, como um trauma, do Monstro (493/74), que ainda hoje só bebe Coca-Cola. Nada do que se conta e se vive é ficção, mas usa-se o olhar, a profundidade e a linguagem dum romance, para trazer à luz do dia memórias fantasmas de um outro mundo, porque é disso que o Colégio Militar se trata.

4 comments:

A.Teixeira said...

Mannlicher e não Manlicker. A carabina chama-se Mannlicher. Confirmar aqui: http://www.steyr-mannlicher.com/

António Miguel Miranda said...

No site do Colégio Militar, na página da "Sala de Armas" está escrito assim: Manlicker !

http://www.colegiomilitar.pt/c/index.php/instalacoes/sala-de-armas.html

A.Teixeira said...

Espera aí: estás a sugerir que o próprio fabricante austríaco da arma em questão não sabe escrever o seu próprio nome?

E que é então a página da "Sala de Armas" (uma academia da língua alemã!...) que serve de referência para a maneira correcta de escrever a palavra?

Ok...

Pedro de Freitas said...

Ferdinand Ritter von Mannlicher