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Wednesday, January 02, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 28 - A Semana de Campo



Comandante Guélas

Série Colégio Militar


Um militar tem de ser capaz de desenvolver acções com a inteligência e destreza suficientes para surpreender o inimigo e reagir com prontidão e eficácia a um ataque de surpresa do mesmo. E isto implicava uma Semana de Campo, onde os Meninos da Luz iriam mostrar todos os seus conhecimentos adquiridos nas aulas de Infia (Instrução Militar). Por isso as viaturas de caixa aberta do Exército chegaram cedo ao batalhão colegial. Durante a viagem cantou-se várias vezes a tradicional “As Meninas de Odivelas”, mostrando que as relações humanas e as emoções que elas acarretam sempre estiveram para lá das modas e dos silêncios destes rapazes:
- As meninas de Odivelas / Pum, pum / As Meninas de Odivelas / Pum, pum / São umas pu / Tiro liro li / São umas pu / Tiro liro li / São umas pu / Tiro liro li / São umas pu…ras donzelas / As Meninas de Odivelas / Fazem bro…ca à janela / Os namorados dessas meninas / Dão o cu / Dão o cu/ Dão o coração por elas.
Era nestes momentos que o duro tenente minorca de nome Aparício, que ostentava uma placa de grandes dimensões no ombro esquerdo a dizer “Comandos”, se transformava em duríssimo, e não permitia desvios no brio profissional dos alunos. Por isso os alvos na Carreira de Tiro estavam a 200 metros e o almoço dependia da destreza, que deveria ser boa nesta altura do ano. Quando o Gordini (601) carregou no gatilho ouviu-se um estrondo, ao mesmo tempo que o barrete do Cão (328), que estava deitado ao seu lado direito, saltou com violência, ouvindo-se um grito de guerra:
- Fo…-se, – seguido de um tiro por reflexo que acertou na muche do 95 (Coiote), que garantiu assim um “Bife da Testa” para a refeição.
A G3 tinha destas coisas, cuspia o cartucho pelo lado. Mas comecemos pelo início! O calendário indicava o ano de 1978, a Semana de Campo iria decorrer na Tapada de Mafra, e tudo começou pela distribuição das tendas: 3 panos, o teto e a parede traseira, com medidas para “batalhãozinhos”. Por isso a rapaziada teve de dormir com os pés de fora, protegidos pelas botas militares, distribuídas para a ocasião, e que só foram descalçadas no fim das manobras. Como colchão podiam optar pelos catos, pedras, lama e outras mordomias, exclusivas dos Meninos da Luz.
- Lembrem-se que durante esta semana vamos estar em território inimigo, e por isso têm de se comportar como verdadeiros militares, - gritou o tenente Aparício, continuando. – 601!
- Presunto, - respondeu o Gordini pondo o dedo no ar.
- Está a brincar com a tropa? – Perguntou o mini-Comando aproximando-se raivoso do insolente. – Está escalado para fazer a guarda ao acampamento das três às quatro  da manhã. Percebeu?
- Sim meu tenente!
- Olhos bem abertos, o inimigo pode atacar a qualquer altura. Findo o seu turno acorda o seguinte que é o 299.
- Presente, - respondeu o Camélia com brio militar.
- Se o inimigo aparecer quero prontidão rápida. Por isso vamos dar início ao primeiro exercício.
A prova consistia em correr e a um sinal atirarem-se para o solo, mas segundo a técnica militar: os joelhos eram os primeiros a tocar no chão, seguida da coronha da arma, de forma a amortecer a queda e a fazer com que a dita ficasse apontada para a frente, pronta a abafar os inimigos.
- Entendido?
Ninguém respondeu, mas o olhar de lince do Escalope (307), a expressão dura do Picanço (612), o perfil atlético do Gordini (601), a posição de combate do Becas (157), e a vontade para guerrear do Cão (328), serviram como resposta afirmativa para o oficial mais malandro do Colégio Militar.
- Formar em duas fileiras, a manobra vai ser feita aos pares.
O primeiro duo a partir era constituído pelo Bolinha e pelo Peida-Gorda, que demoraram tempo a partir, tendo sido ajudados pelo Aparício que gritou “mexam esses cus”. Na altura em que iam a passar por um monte de cardos, ouviu-se um novo apito, mas a queda só se deu na erva mais à frente, de uma forma muito controlada, que implicou uma paragem, um ajoelhar, o agarrar do barrete e um deitar cuidadoso da arma. 
- Estão a brincar com a tropa? – Gritou o tenente Aparício, espumando da boca e aproximando-se ameaçadoramente em passo de corrida do 470 e do 668.
- Estamos a proteger a dita! – Explicou o Peida-Gorda, com a arma apontada para os colegas.
- Acabou de matar alguns dos seus camaradas.
- E não se perdia grande coisa, são só artistas, - desabafou o Camélia (299), escondendo-se atrás do Beterraba (653).
Veio a noite e a necessidade de fazer guarda ao acampamento, ouvia-se ao longe o barulho do inimigo a pisar as folhas. Tudo correu segundo as normas militares, até que:
- Gordini, acorda, o turno é teu!
O guerreiro nem abriu os olhos, limitou-se a mudar de posição e continuou a ressonar, deixando o acampamento à mercê dos veados, gambuzinos e outras coisas más. O tenente Aparício nem queria acreditar quando acordou de madrugada e passeou alegremente pelo espaço sem ser detetado:
- Estão a brincar com a tropa, - gritou, acordando os adolescentes ao som da corneta.
O exercício do dia iria pôr à prova os conhecimentos de Orientação. Uma bússola, um mapa do espaço e os conhecimentos adquiridos nas aulas de Instrução Militar.
- 612?
- Presente! – Respondeu o Picanço dando um passo em frente.
- É o comandante do grupo A, “Raposas”, e os seus subalternos são o 556, o 299 e o 328. Quero-vos aqui o mais tardar antes do jantar. Não me obriguem a ir-vos procurar. Entendido?
- Sim meu tenente, - confirmou o comandante dos mamíferos omnívoros da família dos Canidae.
 - Se o Picanço (612) nos conduzir da mesma maneira como guia a sua mota “Casal”, nem para a semana chegamos ao jantar, - desabafou o Camélia (299).
Mas ele estava decidido a manter a disciplina, por isso deu ordem de formatura, e partiram com brio para a missão que tinha sido distribuída aos “Raposas”. Mas como era tradição na maioria das aulas de Instrução Militar, tudo mudou quando desceram a colina e deixaram de ver o capitão Oscaralhinho, também ele pequenino, careca, e com um tique característico, pentear o cabelo a partir da orelha. Destroçaram e correram para o muro.
- A partir de agora vamos andar por cima da bússola, - informou o 612.
O dia já ia a meio quando o Gordini (601), do grupo dos “Chacais”, viu ao longe duas “Raposas” esfomeadas em cima do muro, que naquele ponto era alto, bloqueadas por uma muralha de silvas, que tentavam desesperadamente ultrapassar.
- Onde estão o Madiura (556) e o Picanço (612)?
- Não sabemos – responderam em uníssono o Cão e o Camélia.
O tenente Aparício nem queria acreditar quando viu que o grupo dos “ Chacais” tinha aumentado a sua população.
- Reproduziram-se?? - Gritou, mostrando ter três dentes chumbados. – Quero os números dessas meninas extras.
Mal sabia o oficial que 34 anos depois a “Semana de Campo” seria uma actividade extracurricular mista, com a presença das sempre eternas musas de Odivelas.
   



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