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Friday, November 30, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 25 - Sissé


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

No colégio todos tinham um número, a que a maioria acrescentava uma alcunha, mas aquele era grátis caso conseguissem passar nas provas de admissão, enquanto que esta só aparecia após algum empenho. O tema da aula era o Antigo testamento, o comportamento da turma estava, como habitualmente, próximo do caos, e o padre gritava:
- Silêncio, silêncio…muita atenção, só faço a pergunta uma vez (a versão colegial da célebre frase da chefe Michelle da Resistência, na série “Allo, Allo”, “Listen very carefully, I shall say this only once”), - e continuou. – Quem é que nasceu em Belém?
Um silêncio profundo abateu-se sobre a turma, ninguém ousava responder, sentia-se a tensão no ar, tudo podia explodir a qualquer momento, até que:
- Foi o Zacarias!
O padre gorducho olhou para o pupilo que estava no fundo da sala e gritou furioso, apontando para a porta:
- Zacarias, para a rua.
Entrou 666 e saiu com uma alcunha e, para não destoar, com uma pena!
Nas pinturas de 1975 houve uma novidade, o aluno 361 foi pintado de branco, contrariando a clássica cor preta usada para decorar todos os outros colegas. Sissé  trouxe assim outro tom para o caucasiano Colégio Militar. Cedo revelou ter uma fixação por Parkers, iniciando logo ali uma colecção, que começou com a dele e foi enriquecida com a dos outros. Era filho de um “Flecha Negra”, as tropas especiais do Spínola na Guiné, que chegaram a marchar com o Batalhão Colegial numa cerimónia que decorreu no campo de futebol, sob um sol tórrido, e muitos desmaios a condizer.  Dizia-se na altura que o pai também era um colecionador compulsivo, mas das orelhas dos inimigos. Cedo revelou ter muitas dificuldades de aprendizagem, que levavam os professores à beira de um ataque de nervos:
- Eh pá, este desenho está mais feio do que a ponta da teta de uma preta”, - gritou um dia o Alcatrão, professor de Desenho, já perto do fim da aula, acendendo o sexto cigarro com a beata do anterior, que alinhou com as outras na parte da frente da secretária.
Sissé era um colega pacífico, mas dizia o bom senso que era melhor não se meterem com ele. Numa sexta-feira à noite a vontade dos colegas para jogar uma peladinha de Rugbytsal era tão grande, mas bola, nem vê-la. Depois de uma busca organizada deram de caras com a do camarada autóctone, e requisitaram-na de imediato. O plástico de que era feito o esférico tinha uma qualidade chinesa e a dita só durou, como habitualmente, parte do jogo. Devolveram-na ao dono, sem o seu conhecimento, e foram dormir alegremente. O Sissé ficou no colégio durante o fim de semana, e quando deu de caras com a bola furada sentiu o fluxo sanguíneo dilatar as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se e os dedos grandes dos pés reviraram-se. Nessa noite quando fechou os olhos foi assaltado por encantamentos, feitiços e êxtases, perdeu a noção do tempo e do espaço, prenuncio de que algo muito sério iria acontecer. Na segunda-feira todas as bolas da primeira companhia estavam furadas, exceto a dele que transpirava saúde.  

2 comments:

Rui Jorge said...

Eu era amigo do Sissé. Que será feito dele? Era um tipo impecável. Uma vez um graduado hipnotizou-o e ele passou-se, coitado. Era fim de semana e acabou por levar uma grande chapada do oficial de dia por fazer disparates. Diga-se de passagem que foi merecida e fez-lhe bem para quebrar a hipnose, que já ia longa de mais. Rui Rebelo(422/74)

Anonymous said...

Essa cena do hipnotismo, foi muito marada, o Sissé passou-se completamente da cabeça, parecia estar possuído sei lá pelo quê.
Não me lembro é do nome do gajo que andava para lá a hipnotizar o pessoal a torto e a direito!
Kikas (26/72)