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Thursday, November 08, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 22 - A última Mocada



Comandante Guélas

Série Colégio Militar 

O toque da alvorada ecoou pelas quatro companhias, e o 8 (Preto) apercebeu-se que estava com a moca anormalmente rija. Mas não era só a dele! A do 260 (Pesera) igualara a dureza dum pau, o 4 (À Nora) nunca imaginara que a sua alguma vez se transformasse num ferro, o 274 (Snoopy) tentou passar despercebido, mas não havia sítio onde esconde-la. A epidemia de mocas rijas atingira todos os graduados e sucessores, parecia que a mítica Rosa dos anos 70, filha do senhor Nunes do trator, o responsável pelo curral e o aviário, tinha feito uma visita de cortesia aos sonhos de todos estes adolescentes desaçaimados. Na noite anterior tinham estado atarefados a molhar as toalhas, torce-las, alguns a enseba-las, e por fim a dobra-las e a atá-las, ficando depois penduradas nos armários a secarem. Como verdadeiros patriotas, preparavam-se para as comemorações do Dia da Independência, era o tempo da tradicional Mocada, onde os Portugueses e os Espanhóis se iriam defrontar em duas arenas, primeiro nos claustros, em que os alunos do 11º ano de 1995 estariam no papel dos inimigos, os graduados do 12º ano no papel dos valentes lusitanos, e a arraia miúda a assistir no primeiro andar. Os castelhanos atiçaram a raiva do adversário com um discurso provocador, parecido com o do 73 de 1983:
“Vocês não valem nada (grito)
Está à nossa frente gente ”acubardada”
Vão levar na tromba logo à 4a badalada
Não vão sair daqui vivos depois desta Mocada”

A assistir à Mocada esteve um dia o Ossos, o esqueleto de Biologia, com uma tabuleta que dizia “1 hora com o Secas”, uma sentida homenagem ao ten-coronel Estorninho, Comandante do Corpo de Alunos nos finais dos anos setenta, altura em que teve nas mãos a missão da sua vida: libertar o Colégio Militar da balda instalada pelo 25 de Abril de 1974, e fazê-lo regressar aos tempos áureos do antigamente. Com ele uma repreensão clássica de 2 minutos tornara-se numa dissertação revolucionária de 20 minutos, ou seja, tinha trocado o tradicional  “pacote de estaladas em sentido”, pela abrilesca “seca pedagógica”! A assistir à última Mocada digna de registo, numa homenagem sentida a todos os antepassados colegiais, sentia-se a presença duma espécie de Classe Especial do Corpo Docente, não os saudosos “Gafanhotos” do Professor Dario, mas sim os “Joaninhas” da pedagogia, liderados por aquele de quem todos ainda falam: Semita (professor Grijó)! Na ala oposta estavam os “Bichos-de-Conta”, os funcionários, liderados pelo lendário Moca.
- Ó moçoooos, ou batem bem ó levam todos uma bengala para casa (7 valores), - gritou o Semita, ao mesmo tempo que avançava uma peça no jogo de xadrez que estava a disputar com o oficial de dia.
Um barulho dum copo a partir-se ecoou pelo espaço mais nobre do Colégio Militar, seguido dum grito de guerra colegial, “Pê Jê” (“Paga Já”), que obrigou o Zé Pereira a sair a correr dos “Bichos-de-Conta” com o bloco de notas com que iria autuar o prevaricador, sendo aplaudido pelos colegas, onde se podia ver o Sabino, o Xavier, o Mota, os irmãos Badalo, o Celestino, o Patronilha, o Ramos, a abanar o molho de chaves que trazia na mão, o Miranda, o Nunes, o senhor João (Meia-Lua). Por isso nesta festa de muitas gerações, só possível naquele espaço místico, foi batido o recorde do “Um por Todos, Todos por Um”:  1/15000 avos de um copo” foi a fatura entregue a cada camarada!
Na ala dos “Joaninhas” podia-se ver, com a ajuda da memória coletiva, o Oliveira (Baco), o Gunga, o Brito (Judas), o Pina Lopes, os irmãos Farinha Tavares, o Alcatrão e o Tás-a-Ver, o Dias Antunes, o Loureiro (Clarence), o Mellow Yellow, o Xaxa, o Mamas, o Vicú, o Tabi, o Pop, o Menau, o Ferrari, o Tadeu, o Falcão, o Pintelheira, o Raposo, o Bozo, o Pato Marreco, o Galo, o Don-Don, o Brazão, o Chouriço, o Fá, o Sá Dantas, o capitão Dias Antunes, o Cuequinha, o Nogueira, o Óscar, o Silveira, o Santola, o Dores, o capitão Oscaralhinho, que continuava com a mania de pentear, a partir da orelha, a resma de cabelo que lhe sobrava, e tantos outros arrumados na roda do tempo.
 Após o lançamento do traidor Miguel de Vasconcelos da varanda, deu-se início ao confronto, cujos papéis mudaram algum tempo depois, passando todos os de baixo a ser portugueses, enquanto os de cima se transformaram em ranhosos castelhanos, que tiveram de passar pelo meio de duas fileiras de jovens adolescentes com as mocas nas mãos, decididos a chicotear-lhes impiedosamente os rabos impolutos. Mas desta vez os portugueses eram tantos, que os inimigos foram perseguidos impiedosamente até às companhias. As marcas com que ficaram pareciam, numa primeira impressão, que os petizes tinham sido atacados por uma praga de pulgas, mas a cor negra depressa enfureceu as progenitoras, que tomaram de assalto o gabinete do director, ameaçando fazer com ele e com o Pencas (354), o mesmo que os carrascos dos filhos tinham feito ao boneco do Miguel de Vasconcelos. A lendária Mocada caiu assim às mãos das mães, não de Bragança, mas sim dos castelhanos.
Atualmente os espanhóis continuam ainda a passar por entre os portugueses, mas estes agora só podem bater palmas e cantar “Minha Amora Madurinha”. Enfim, modernices!

3 comments:

cai de costas said...

Peidão, o Zé Pereira era o sucessor do Meia-Lua. O Meia-Lua era "oficialmente" o Sr. João.
E vais ter que explicar qual o papel do Pencas (Goulart) no meio desta história...
Abraço

António Miguel Miranda said...

Quanto ao Pencas pergunta ao 4 (À Nora)que me conta as aventurasda sua geração quando jogamos futebol ao domingo!

António Miguel Miranda said...

O erro em relação ao Zé Pereira e ao senhor João já foi corrigido!