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Wednesday, May 16, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 2 - O dia em que a Luz parou



Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Estávamos num domingo à noite e por isso de regresso a casa, o Colégio Militar, onde iríamos permanecer até sábado à tarde, altura em que alguns iriam visitar os pais, enquanto outros permaneceriam meses e meses à guarda da instituição, uns com os pais longe nas Províncias Ultramarinas e outros já sem pais por terem tombado na sua defesa. A Porta de Armas esperava-nos até às onze da noite, hora a partir da qual teria de haver uma explicação plausível para o atraso, senão arriscavamo-nos a ficar “detidos” no fim-de-semana seguinte. Na zona da enfermaria havia sempre uma emboscada, da responsabilidade daqueles que os comandavam, os graduados, que os aliviavam dos chocolates e afins, a célebre “Bolama”, denotando já terem uma preocupação no combate à obesidade dos seus subordinados. Um gordo tinha sempre mais dificuldade em cumprir uma “Apresentação à Alvorada” (vestir-se a rigor com a farda de pano e mostrar-se com sensualidade ao seu superior alguns segundos depois do toque da alvorada, fazer o mesmo mas vestido de cotim e novamente de pano), e ter ainda tempo para fazer a cama, sem vincos no lençol, fardar-se de cotim e chegar a tempo à formatura, cujo toque era vinte minutos depois. Caso o não fizesse teria de passar pelo Comandante de Companhia aluno que, de uma maneira geral, lhe enfiava um par de abrunhos, uma espécie de pequeno-almoço adiantado. Mas houve um dia em que todas as taras e manias ficaram em banho-maria! O almoço decorria com normalidade, de tempos a tempos ouvia-se um copo a despedaçar-se de encontro ao chão, seguido de um grito em uníssono de metade do batalhão, “Paga já”, que obrigava o funcionário de nome Zé Pereira a deslocar-se em passo de corrida com um bloco de notas na mão até ao prevaricador, obrigando-o a assinar uma nota de pagamento, que seria depois entregue ao encarregado de educação. Mas de uma maneira geral eram precisas mais notas de pagamento porque o lema do Colégio Militar, “um por todos, todos por um” tinha sempre um sentido prático, e desta vez foi levado ao extremo: 180 alunos estavam dispostos a suportar o prejuízo (“1/180 avos de um copo” - sic). De repente ouviu-se um grito do Leitão (384), que se pôs de pé a apontar para a Segunda Circular. Duas Panhard faziam pisca para o Colégio Militar. De um momento para o outro deu-se um levantamento, não de rancho, porque era dia de bifes de cavalo e mousse de chocolate, mas de todo o batalhão, que correu à carga para o exterior, e nem o Moca conseguiu parar a turba, apesar de ter acertado em vários com o pau (no Escalope, 307, no Coiote, 95, no Macaca, 136, no Peida-Gorda, 668, no Elefante, 300, no Gordini, 601, no Peidão, 191, no 485, Micróbio, ….) com que costumava abrir as janelas após o Toque da Alvorada, ao mesmo tempo que gritava ordens numa língua que só ele compreendia. E aconteceu a primeira mudança: correram para a porta de armas com dois dedos levantados em sinal de “vitória”, e não formados como habitualmente.
- Cuidado jovens, cuidado pois estão uns homens maus a atacar Lisboa – avisou o padre Vladimiro.
 A segunda mudança aconteceu nos Claustros. Não se formaram pelotões de ocasião (mínimo de cinco, quatro a marchar e um a comandar), como era obrigatório, cada um correu como pode escadas acima. As janelas trancadas não foram abertas, optou-se por partir os vidros. E lá fora em cima duma Panhard um ex-aluno (1920-1928) saudava todos os militarzinhos em transe. Finda a festa, deu-se a terceira mudança. Os alunos regressaram todos com os chapéus na posição de “farra”, inclinados para trás, o equivalente ao “sou bué radical” de agora. A primeira vítima do novo dia dava pelo nome de Capitão Caetano, e tudo aconteceu quando um Che Guevara de ocasião entrou pelo seu gabinete e, em vez de seguir o protocolo e pedir “Sua Excelência meu capitão dá licença que entre”, trocou o verbo e gritou, “Sua Excelência meu capitão dá licença que penetre”, e penetrou de imediato, a frio. O Capitão Caetano começou a espumar e a tiritar, e quando se preparava para responder ao inabitual pedido com um abrunho entre os olhos do indisciplinado, este desatou a correr para as camaratas, levando colado ao seu traseiro um capitão à beira de um ataque de nervos, que nunca o conseguiu alcançar. Noutra ponta do colégio a fava calhara ao Didi, professor de inglês, que se encontrava numa situação invulgar, ao verificar que no fim da aula, e já no exterior, os alunos tinham formado duas fileiras, para ele passar pelo meio. Seria uma nova forma de festejar a liberdade? E porque é que os militarzinhos tinham nas mãos dicionários da disciplina? Puxou a franja para o lado e avançou, primeiro cautelosamente, mas quando sentiu um livro a tocar-lhe nas costas, acelerou escadaria abaixo, com a biblioteca no seu encalço. A partir daqui o Colégio Militar entrou em autogestão, formaturas nem vê-las, as “apresentações à alvorada” eram coisas dos “dias negros do fascismo”, o Cara de Cavalo vendia charros, e os graduados eram somente aqueles que tinham umas estrelas amaricadas nos ombros. E um dia apareceu, numa das raras formaturas da Terceira Companhia, um oficial com uma monstruosa tabuleta ao peito a dizer “COPCON”. Trazia nos sacos várias calças, blusões e uma colecção de sapatos. Informou então os presentes de que, devido à restauração da balda…perdão, da liberdade, o povo da Luz iria ter direito a decidir o seu próprio destino, a começar por aquilo que queria vestir. A decisão foi tomada por unanimidade: calças à boca de sino, blusão justinho e sapatos de tacão alto! O militar do Otelo olhou demoradamente para a escolha do povo, e imaginou-o a marchar para o seu chefe em estilo Parada Gay. Arrumou apressadamente a tralha e foi-se embora, gritando:
- Estão a brincar com a Democracia.

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