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Tuesday, March 01, 2011

Camarada Choco 74 - A Batata Quente (versão nova do Desenvolvimento Pessoal e Social)


Camarada Choco
(nova versão do Desenvolvimento Pessoal e Social)


Tinha-se chegado a um ponto sem retorno, o abismo estava cada vez mais perto, a ponte para a outra cueca...perdão...para o outro desejo, tinha de abrir caminho a todas as aventuras e sonhos, e as almas brutas dos Desaparafusados estavam carregadinhas de emoções intensas, irresistíveis, de gestos, de rituais interditos, de quem os Aparafusados fugiam como o Diabo da Cruz. A Natureza andava a brincar com os Desaparafusados, negava-lhes muitos dos direitos dos Aparafusados, mas em relação a este aspecto punha-os ao rubro, e aí os Aparafusados empunham a ditadura da teoria que lhes negava a socialização da prática. E foi assim que, mais uma vez, o tema “sexo” ficou a cargo da Doutora das Almas, uma expert em secas, que decidiu que os Desaparafusados adolescentes iriam fazer uma visita de cortesia aos Desaparafusados com idade de voto, mas sem esse direito, apesar de muitos deles terem mais capacidades do que muito dos Aparafusados que iam às urnas. A excitação estava dentro dos parâmetros normais, incluindo várias borras, mijas e convulsões de última hora. Na sala a formadora esperava pacientemente os utentes, entretendo-se a desenhar no quadro um objecto constituído por dois círculos pequenos e uma linha recta avantajada. Os assistentes foram-se acomodando à medida que chegavam e algum tempo depois o local já fervilhava de mongas teenagers inconsequentes.
- Bem, podemos começar, – avisou a oradora, apontando para o desenho. – Isto é um Pénis! Alguém sabe o que é um Pénis?
- Énis...Énis, – levantou-se de imediato alguém da assistência com o braço no ar. – Énis, Énis.
- Diz lá, Palmira Melga, o que é um Pénis?
- Énis...Énis, – gritou em estado convulsivo, sendo acompanhada pela multidão em histerismo. – Énis, Énis.
- Vá lá, explica aos teus colegas, – insistiu a Doutora de Almas.
E como um gesto vale mais do que mil palavras, a adolescente puxou de imediato o Choco, que estava ao seu lado, e prontificou-se para mostrar o que era o “Énis”. O macho não cabia em si de contente por ter sido ele o eleito e deixou escapar a sua enorme língua de encontro ao chão. Abriu os braços e avançou a bacia em sinal de cooperação.
- Énis, Énis.
Puxou pelo indicador da mão direita e colou-o de imediato nos ténis vermelhos número 50 do seu querido e respeitado Choco. A decepção foi geral, mas não evitou que a turba exibisse sem pudor os seus ténis. O retorno à calma só foi possível porque o stock de drunfos estava sempre por perto, e até a doutora tomou um dos vermelhos, pois o tema também a enlouquecia.
- Énis, Énis, – repetia sem descanso a Palmira Melga, alheia ao caos em que se transformara o “Desenvolvimento Pessoal e Social”.
- Quem sabe o que é um “pénis”? – Insistiu a oradora.
De imediato o Choco tomou a iniciativa e, saltando para o palco, tal qual um felino, gritou bem alto para quem o quisesse ouvir:
- Áálho, áalho, áalho, – rosnou o herói do cinema mudo, ao mesmo tempo que baixava furiosamente os calções...perdão, os cinco calções multicolores vestidos dois meses antes. Nem as vozes contra o demoveram da exibição e num piscar de olhos ficou com a cintura pélvica ao léu, mostrando ao público o apêndice, agora avantajado devido ao calor da discussão, torto e com um nó, graças a Deus. E no meio disto tudo ainda se ouviram dois gritos alucinados, um da Doutora das Almas e o outro da Madame Amorim, que desmaiaram com a emoção. O Choco permaneceu em sentido exibindo o seu fabuloso Chevrolet com os pneus furados, também graças a Deus, uma precaução da Natureza, não fosse ele querer seguir as pisadas dos progenitores e manter indefinidamente a inscrição da família Choco na Caixa Nacional de Pensões. E ficou ali, congelado, debaixo da luminosidade certa, único e insubstituível, coquete e apaixonado, com uma plateia ao rubro, que cheirava a sexo. Foi necessário esperar algum tempo para fazer sentar a Papoila que, devido à sua fraca visão, insistia em ver o Chevrolet, tendo-se para isso deslocado para junto do colega e colado os olhos no descomunal pepino. Quanto aos outros machos presentes, todos eles também exibiam os seus dotes às colegas interessadas...todos? Todos não, dois deles, o Ambrósio Caspa e o Monga Macaco, por mais que procurassem, não conseguiam vislumbrar os seus cacetes, ausentes devido às contingências genéticas.
- Amigos, tenho outra pergunta para vos fazer, – avisou a Formadora, conseguindo captar a pouca atenção dos presentes.
O próximo tema era difícil e por isso a Doutora das Almas avançou com muito medo:
- Alguém sabe o que é uma “Vagina”?
Foi demais! Com esta o Choco não se aguentou e atirou-se sofregamente à Zobaida, que permanecia no seu normal estado letárgico rodeada de moscas, mas foi traído pela sua visão estereoscópica, indo cravar os dentes na roda traseira esquerda, que apresentava um piso careca, despedaçando-a com estrondo, facto este que provocou um súbito desequilíbrio na pré-histórica cadeira de rodas, que não aguentou a traição da força da gravidade, arremessando, de imediato, o seu pesado conteúdo de encontro ao chão frio. Mas como o destino é muitas vezes madrasto, nesse preciso momento ia a passar a apressada Lolita que apanhou com os quilos da colega, mais os quilos da fralda, ficando espalmada, tendo tido ainda tempo de gritar:
- Organizem-se!
Foi com muito esforço que o Camarada Choco organizou os poucos neurónios, tendo o Conselho Pedagógico, que reuniu de emergência, deliberado amarrá-lo a uma cadeira com um saco de gelo entre as pernas. Decidiu-se também avançar com a projecção do pequeno, mas muito elucidativo, filme “A Actividade Sexual dos Caracóis, das Lentilhas e dos Percebes” da autoria do Alto Comissariado Europeu para a Inclusão do Sexo dos Desaparafusados (A.C.E.I.S.D.), responsável por muitas viagens transatlânticas das doutoras, com e sem canudo, dos ministérios, que estava previsto para o final da sessão. Entretanto, os organizadores desta educativa e pedagógica Acção de (Des)Informação acharam por bem também eles recorrerem à ajuda dos milhares de drunfos postos à disposição dos presuntos....perdão...dos presentes. O Fangio Espástico protestou porque queria que pusessem no ar a cassete com a gravação da sessão do canal 18 da TV Cabo do dia anterior. As lentilhas acabaram por ser mais eficazes do que os caracóis, pois conseguiram adormecer o impetuoso Choco, que encostou a cabecinha no regaço da sua amada Floribela. Quanto aos responsáveis pela organização, optaram pela fuga em frente:
- Vamos falar outra vez sobre “Vagina”, – continuou a titubeante oradora, lançando um olhar medroso para as suas colegas, ao mesmo tempo que ligava o projector de slides que atirou para o ecrã a imagem de uma rosa com a respectiva legenda: “Sexo Seguro”.O nome da Rosa abanou as profundezas da alma e das....cuecas, do nobre e altivo Choco, obrigando-o a dar um pulo majestoso, tal como um cobridor, mergulhando de cabeça no retrato...
- Ele vai dar cabo do ecrã – alertou a Doutora das Almas, conseguindo afastar-se a tempo do predador.
Não se sabe a causa, nem o truque utilizado, mas todos foram testemunhas juramentadas de que o herói saiu do local com uma rosa vermelha entre os dentes. Quanto à do ecrã, desapareceu misteriosamente sem deixar rasto.
- Lá vão as lentilhas outra vez, – gritou o projectista, rodando o manípulo do aparelho.
A doutora estava sozinha, fechada, tal como a sua mala escura, pousada na mesa. Encontravam-se na sala dois mundos separados, os Aparafusados e os Desaparafusados, pensando os primeiros que dominavam os desejos dos segundos.
O despertador tocou e a Doutora das Almas acordou sobressaltada. Olhou assustada para todos os lados, mas viu que estava só. Correu para uma mesa, agarrou nos papéis do projecto com que pretendia impressionar a Madrinha e aumentar o currículo virtual, e reduziu-os a pó. Deu um gole na garrafa de água, deitou-se, mas já não quis dormir mais!

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