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Tuesday, March 08, 2011

Camarada Choco 75 - E depois do "Adeus"


Camarada Choco
Aventura 74
O impagável Cabo Pilas nem queria acreditar no que via. No hall da entrada da Escola para Desaparafusados & Afins, da Venteira, alguém tinha afixado um papiro, extenso e exigente, uma promiscuidade entre imagens e letras, onde o texto era redigido em camadas, incorporando indecências e subtextos, com uma liberdade e engenho que levava os leitores, Aparafusados e Desaparafusados, a não saberem exactamente onde estavam. Era uma mistura crítica dos costumes e do misticismo que coabitavam na Escola mais famosa da Venteira.
- Até na hora da despedida me insulta, – resmungou, esfregando, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra, exibindo alguns desajustes relativamente ao espaço onde labutava, metamorfoseando-se em algo cheio de dissonâncias, porque nunca tinha aceite o tempo da vanguarda.
Aquele quadro deixara o Cabo Pilas num estado de desaparecimento ontológico, para ele o papiro era uma espécie de buraco negro na iminência de o engolir. No fundo deste desabafo havia uma história, uma ilusão, inconfessabilidades onde a libido e toda uma esperança foram afogadas por graves problemas de vizinhança, e tudo isto por uma troca de nomes mal calculada: em vez de “Dr. Cabo Pilas” saíra a frio e sem retorno um “Chiquinho”! O ex-militar vinha atordoado do primeiro andar devido ao vazio da sala vizinha, e revoltado com a firmeza dos seus valores, das suas esquisitices que divertiam os colegas, que estavam ensopados no seu ADN e talvez nos odores das cuecas molhadas. Segundo a lenda, a figura rígida e confusa do Cabo Pilas devia-se ao facto de ser descendente directo de Adão, e duma infância e adolescência aconchegadas, que o tinham convencido da sua genialidade e sapiência, e daí a sua incessante procura pelo amor-perfeito.
- Comporta-te Pilas, – disse baixinho de si para si. – Deixa-te de lamechices, ela foi-se embora para o meio do Atlântico, e isso é bom para ti, o teu espaço vital aumentou, – e susteve a respiração, ao mesmo tempo que fazia um percurso geográfico e mental ao primeiro andar.
O seu pensamento catastrofista foi momentaneamente interrompido pelo aparecimento do seu irmão gémeo univitelino, que lhe deu os bons-dias. O percurso da Prima da Afilhada da Doutora sem Canudo até ao primeiro andar tinha sido atípico e contra a corrente dos direitos adquiridos. Entrara na vizinhança do Pilas a seco, sem pedir licença, e sem pausas. Recusou manter-se submissa a este eterno candidato a chefe libidinoso e autocrático, que só conhecia a vida no limite da tortura física e mental, com um subconsciente carregadinho de sal.
- Kodac, o que é que estás aqui a fazer? - Perguntou a Psicóloga Morena, que acabara de entrar e o olhava de costas.
- Mas que mania, já está cá há tanto tempo e não nos consegue distinguir?
- São os malditos pescoços!
Subiu com tristeza a escada e fechou com leveza a porta do gabinete, regressando à pureza selvagem, cheio de dores metafísicas, contradições e paradoxos.

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