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Monday, October 11, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 43 - Fangiocoelho



Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
O Menino Élinho nasceu com um sonho entranhado, em que se via sentado ao volante dum Porsche Carrera, tendo acrescentado mais tarde à lista um soberbo Opel Manta 1900. Assim, acelerava em tudo onde se metia, desde o carro a pedais até às máquinas de flippers do Manuel da Leitaria, tendo gripado várias. Muitas foram as vezes em que o que o Professor Coelho deu de caras, não com a tabuada, mas sim com desenhos de Ferraris. O seu corredor favorito era da terra e dava pelo nome de Pinguim. O irmão do Pingalim corria em duas rodas, “no autódromo do Estoril, e por convite” explicava, e para não deixar dúvidas mostrava sempre as cartas que lhe eram enviadas, com selos nacionais e remetentes estrangeiros, pormenores que só um chato como o Carlos Ponta ousava denunciar. Assim, para o Menino Élinho o Pinguim era um modelo, estilo Elvis Presley, que era impossível igualar, a não ser que a modalidade competitiva fosse outra: as 4 rodas! Já se via na Feira Popular em parceria com o Pinguim numa dupla imbatível e famosa, um numa mota e outro num Ferrari, dentro do Poço da Morte, ambos vestidos com fatos de leopardo e máscaras do Zorro. E foi numa destas ocasiões que as aulas da Escola do Coelhinho tiveram de ser interrompidas: o Menino Élinho fizera um desenho, em vez da tabuada dos 3, de dois artistas vestidos de tigre à porta do Café do Papagaio! O Professor Coelho fora obrigado a ausentar-se do estabelecimento de ensino para ir falar com o padre, alegando que o jovem paçoarcoense deveria estar possuído pelo demo, pois o desenho, além de pornográfico, atentava contra a moral e os bons costumes da vila, pois mostrava dois meninos muito amigos com vestidos femininos. Mas, contra tudo o que era de esperar, o clérigo mostrou um interesse guloso em conhecer os jovens, e o Professor Coelho fugiu assustado para a toca, que já estava num rebuliço tão grande, que o tecto da Papelaria Dani ameaçava ruir a qualquer momento. O tempo passou e o Menino Élinho cresceu, muito à conta das batatas fritas da Dona Rosa, vendidas em saquinhos compridos de papel encerado, produzidas na fábrica “Pim Pam Pum” na Avenida, e das “Bolas de Berlim” transaccionadas pelo Senhor José na praia, e guardadas com carinho na sua caixinha branca de duas gavetas. Mas o sonho nunca esmoreceu, e já crescido andava sempre a acelerar no Opel 1204 Caravan do pai, pensando estar no seu eterno Porsche Carrera, muitas vezes substituído por um Opel Manta 1900, conforme a alucinação do momento. Mas para ter acesso ao Opel Caravan teve de fazer uma cópia das chaves e ia busca-lo sempre à noite quando os pais já estavam recolhidos e convencidos de que o seu Menino Élinho tinha obedecido ao “Vamos Dormir” da RTP. Nem tudo foram favas contadas, pois muitas foram as ocasiões em que ao regressar a casa o Fangiocoelho deu de caras com o lugar ocupado por outro carro. Nestas ocasiões a manhã do pai nunca era pacífica, pois o senhor jurava que tinha estacionado o carro ali e ele estava acolá. “Estás a fazer confusão”, explicava de imediato o filhote, todo preocupado. O ponto alto desta preciosa carreira atingiu-o numa certa noite no Largo do Jardim, às 4 horas da manhã, na companhia do Maia e da Tina. Andava a mostrar aos amigos o seu próprio bólide, quando o casal de pombinhos que o acompanhava lhe pediu para os deixar dar uma volta sozinhos, um possível ensaio para a vida futura de casados. O menino Élinho saiu do carro, puxou de um cigarrito, e foi logo encadeado pela figura mítica do neto do Bruce Lee, o Kovac’ Olhões, trazendo-lhe à memória a visita de cortesia que anos antes fizera com guerreiros amigos à barraca dos gelados ali tão perto. Nem ouviu o chiar dos pneus, sinal de que o Maia tinha colado o acelerador ao chão do bólide e a sua Tina às costas do banco. Quando o carro passou por ele a deslocação do ar apagou-lhe o cigarro, mas o Kovac’ Olhões era mais forte do que o vento, e por isso o Menino Élinho nem se apercebeu dos pedidos de socorro do seu querido pópó. Mas um barulho infernal trouxe-o de novo à realidade. Foi quando o Maia se despistou e entrou pelos caixotes de lixo que estavam em frente da Sede do Real Clube de Paço de Arcos.
- Até a traseira do carro empinou, - explicou a Tina, ao mesmo tempo que tentava endireitar o vinco do pára-choques frontal.

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