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Wednesday, October 20, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 45 - Cabos à Solta


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos



Quando a pátria os chamou gritaram “presunto”…perdão…”presente”, e cada um se apresentou na sua unidade: o senhor Carlos Ponta recebeu a boina preta da Cavalaria e o senhor Bigornas uma boina castanha dos “caga-e-tosse”, e porque tinham sido muito aplicados no Liceu de Oeiras foram ambos graduados em soberbos cabos. Por esta altura o Conan Vargas era boina verde, e passava os dias a tentar impressionar todas as fêmeas da Costa do Estoril contando as suas arriscadas missões, que na verdade estavam reduzidas a descascar batatas, às rodelas, em Tancos, uma vez que tinha ido para a especialidade de pára-cozinheiro; noutro canto do país o Zé Fotógrafo ostentava uma invejosa boina vermelha e, na praceta, para impressionar a Mula do Ártico, gritava bem alto “MAMA SUMAE”de cada vez que tinha sede, pois para ele o lema queria dizer “Mamã dá-me um sumo”. Mas também este estava ligado à gastronomia, mais propriamente às batatas em palito, na Amadora.
O Cabo Carlos Ponta foi colocado aos comandos da gloriosa PE, mais propriamente no Esquadrão Vermelho, de código “Tigre”. Este indomável paçoarcoense era o felino nº 28, senhor todo poderoso de um jipe Land Rover com motorista e dois ordenanças, uns Cro-Magnon vindos directamente de Tábua. E a juntar a tudo isto, e por uma questão de prestígio, o “Tigre 28” fazia sempre questão de montar em pêlo todas as éguas que lhe aparecessem pelo caminho, não fosse ele um grande senhor da Cavalaria paçoarcoense. E foi numa das incursões pelas zonas mais nobres de Lisboa, o Intendente, ao som de uma sonora “ópera-bufa”, porque o rádio a bordo não debitava música, que se deu o encontro de dois titãs de Paço de Arcos.
- Alto e pára o baile, vamos recolher um VIP.
No passeio estava o cabo Bigornas.
- Vai lá para trás, dá lugar ao teu superior hierárquico, - ordenou o “Tigre 28” ao ordenança que ia ao seu lado.
- Mas, meu comandante Pontas, ele não passa de um “caga-e-tosse”, enquanto nós somos uns boinas pretas, - refilou o soldado.
- “Caladinhos que o pessoal de Paço de Arcos está acima de todas as raças, um soldado cassanho de Paço de Arcos vale mais do que qualquer um boina preta ou mesmo do que um general de Cavalaria” (sic).
Os tempos não eram para brincadeiras, a noite anterior tinha sido longa, o PRP-BR da ex-terrorista Carmo e agora amiga dos gordos, andava à solta, uns dias antes a embaixada da Turquia fora visitada por uns arrebentas, e os “Tigres” tinham dado de caras, lá para os lados de Camarate, com um paiol abandonado, G-3 encostadas à parede, e as portas de acesso ao material escancaradas, talvez para sair a humidade. E quando os valentes guardas apareceram, em tronco nu, com franguinhos e cervejolas debaixo dos braços, adquiridos na zona fina da Musgueira, explicaram ao superior hierárquico Cabo Carlos Ponta que devido a estarem famintos, e para evitarem baixar o nível de atenção na defesa intransigente da pátria amada, tinham decidido em RGS (Reunião Geral de Soldados) adquirir umas buchas.
Assim,o glorioso Cabo Bigornas dos “caga-e-tosse” entrou para o banco da frente, sentou-se junto do seu colega Cabo Carlos Ponta de Cavalaria e, com motorista ao volante e seguranças atrás, passearam alegremente, sentindo com prazer o cheiro a maresia do local.

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