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Wednesday, May 10, 2017

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 93 - Eu às vezes trabalho!


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 24



- Tenho “bicos de forma”, - tentou justificar o Taroulo, quando foi confrontado com os 19 anos e a fraca prestação desportiva.
Ninguém queria saber da sua vida íntima, mas havia agora uma possível justificação para nunca marcar golos quando estava ao ataque e deixar entrar tantos quando era guarda redes. O vício de “chotes” de proteínas que ía buscar não se sabe aonde, nem era preciso saber, para poupar o pai do desgosto, eram com toda a certeza os responsáveis pela sua silhueta de Barrancos, excepto a cor. O que valia ao Futebol P.A. é que o Focas do Incha Padel tinha ido em peregrinação lá para os lados de Fátima e prometera tentar limpar os pecados desportivos de todos os atletas das duas modalidades, que poderiam assim regressar aos respectivos campos livres de lesões.
- Gamaram-me o relógio, gamaram-me o relógio, - gritou um idoso a meio da noite, acordando repentinamente metade do pavilhão, onde dormiam os atletas da Cruz.
O Focas viu interrompido o seu diálogo com o Chico argentino, onde ele lhe tentava explicar que não tinha poderes para tirar nódoas da alma, perante a insistência do jogador de Padel para que reabilitasse o Cociolo e o Conan. Tinha tido dificuldade em adormecer no meio de “avés Maria”, roncos e bufas, e era agora acordado por um peregrino com Alzheimer que, além de ir em direcção a Porto de Mós em Lagos, acusava os colegas de oração de lhe terem gamado o “Timex”. Trivialidades religiosas!
- Chiu, chiu, - interveio uma velha, atirando com a dentadura para cima de um paraplégico, que viu nisso as beiças do Chico beato e por isso declarou mais um milagre.
E foi esta a revelação que fez com que o Focas tomasse consciência de que os seus amigos quando comparados com estes caminhantes eram uns meninos, e não precisavam de salvação alguma, porque nunca tinham sido tentados a pecar. Por isso deixou de peregrinar e limitou-se a treinar até Fátima.
Foi mais um domingo atípico, onde a ausência do Fininho se reflectiu na conflitualidade dos jogadores, tendo a equipa que perdeu 3 – 6 ganho a partida, depois dos respectivos descontos legais. Só os três do Brinca na Areia reduziram para empate, e tudo graças à Lei da Arrogância (“três dribles seguidos de golo é gozo, e o brincalhão desconta cada golo na sua equipa”); mas o Milhas, que mais uma vez não estava de feição, resolveu meter mão à bola na sua grande área, dizendo no entanto que esta ressaltara na perna da Maria Adelina, uma das seis raparigas da Amélia da Terrugem de Cima, vizinha do Craveiro Lopes e da Quitéria Barbuda, que lhe aparecera, acusando-o de ser o responsável pela sua nova gravidez:
- Este agora é teu, - gritou-lhe, aproximando a boca desdentada da cara do infeliz, que sentiu o cheiro a maresia.
E caso não abrisse os cordões à bolsa teria o mesmo destino dos outros dois, um abandonado numas escadas de um prédio em Cascais, e o outro no meio das ervas na quinta do Leacoke. Conseguiu ainda ver no meio do seu caos efectivo e existencial o Espalha, o Peidão e o ausente Fininho a rirem-se na sua cara, mudando então o alvo da acusação para o atleta do meio, que estava à baliza, mas que ele sabia  que não a iria defender. E mais intempestivo ficou quando viu o guarda redes da equipa adversária a sair mais cedo:
- Vai para um comício do Isaltino, - respondeu alguém quando questionado.
Levantou as sobrancelhas, em sinal de que o mundo lhe devia alguma coisa e não pagava, e gritou:
- Foi buscar mais uns cosques! – Esquecendo-se de que fora um dos raros paçoarcoenses que assinara um abaixo assinado contra a construção do Oeiras Shopping, para salvar a cultural “Casa Dáni”.
O Micro Mac, e não Mini Mac como andam a insinuar, deu três chutos na bola e saiu a coxear, fazendo lembrar as breves carreiras do Graise e do Tom,  por terem chutado em bolas virtuais  durante a fase de aquecimento, e a do Preto no Incha Padel, tendo a cena assustado o Maninho Ensina, que esteve todo o tempo a jogar numa partida só dele, optando por fazer o aquecimento no final do encontro, quando ficou em campo a fazer exercícios de ballet. O Brinca na Areia mostrou mais uma vez estar a passar uma fase complicada, que teve a primeira manifestação quando o pai Laranja lhe cortou uma bola (“limpinha, limpinha”) e ele protestou com estrondo, parando o jogo e marcando um livre indeterminado, que deu em golo, e fez nascer uma nova lei, já aprovada pelo dono do campo, o Espalha de Morais e assinado pelo dono disto tudo, o Tio Mino: Lei da Transmutação da Falta por Omissão (TFO) – “Quando não se discute previamente, e com tudo aos berros, se é livre direto ou indirecto, e a bola entra na baliza sem tocar em alguém, é golo”! Para juntar a todas estas questões legais, está na forja a criação da “Lei Biblot”, que irá proibir a presença de jogadores de metro e meio nas grandes áreas, para que não ocorram acidentes de viação susceptíveis de provocar uma TFO. É por isso que a ausência do Fininho nestes dois últimos encontros está já a criar uma certa tensão no Lagoas Parque, estando o Focas agora com uma missão bem definida, queimar um Fininho em cera lá na fornalha de Fátima, para que ele regresse rapidamente à competição. E para terminar, o Bil mandou informar que esteve presente, mas a trabalhar, no balneário!

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