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Friday, May 27, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 69 - Os Cartonistas

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


O dinheiro que o Peidão tinha amealhado, como uma formiga, nos jornais, só lhe chegava para ir passar dois dias à quinta do Zé dos Porquinhos, em Manique, e ele queria ir para o Algarve. Por isso juntou-se ao Milhas e ao Kikas e os três foram labutar para uma fábrica de embalagens da zona, a Novembal. No contrato de trabalho dizia que tinham a categoria de “Cartonistas”, ou seja, “paus para toda a obra”. O Peidão foi destacado para o exterior, dobrar ferro para cima de uma enorme parede de um futuro pavilhão. O Milhas foi para o bem-bom, transportar caixotes de cartão e o Kikas passava o dia na praia, porque entrava de manhã pela porta principal, picava o ponto e saia por um buraco na parte de cima da empresa. Ao fim do dia fazia o caminho inverso e assim permaneceu durante todo o primeiro mês, no fim do qual recebeu o primeiro ordenado e despediu-se de imediato. Quanto ao Peidão, só esteve três dias no topo da fábrica, pois de cada vez que atingia o cume, escondia-se num buraco que lá havia e adormecia. O encarregado bem podia gritar pelo seu nome, mas devido a um “bem-aventurado” problema físico, era coxo, não tinha possibilidades de subir a escada. Por isso teve de o enviar para dentro, juntando-o com o Milhas. Com esta dupla a linha de produção nunca mais foi a mesma. Tinham como tarefa colocarem os caixotes num tapete rolante a um ritmo que permitisse ao colega, que estava na ponta longínqua, ter tempo para recolher o produto e empilhá-lo. Mas surgiu algo que desestabilizou a equipa maravilha. Descobriram que o colega do extremo oposto era o Álhi, o bombeiro mais famoso da vila, que não gostava que o tratassem por esse nome. O ritmo de caixotes colocados passou a ser de tal maneira alucinante, que o Álhi viu-se obrigado a “spintar” durante vários minutos até que desistiu depois de ter sido engolido por dezenas de caixas de cartão a dizer “Skip”. Quando o encarregado se apercebeu do caos, parou a máquina e viu-se obrigado a fazer ajustes. Os “cartonistas” Milhas e Peidão foram mudados de posição, ou seja, passaram para o lugar do Álhi e este foi ocupar o lugar que antes pertencia a estes. E ainda receberam um reforço de peso, um operário mais pequeno que o Trovãozinho, mas com muita vontade de trabalhar, que não era o caso daqueles “meninos de boas famílias”. Enquanto a dupla demorava dez minutos a arrumar uma simples unidade, o Pequeno Polegar fazia-o em rápidos segundos. O que valia era que o ritmo do Álhi estava tão lento, devido ao esforço anterior, que acabou por influenciar as prioridades dos dois membros do Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos. Resolveram construir um labirinto com as caixas e quando o concluíram, adormeceram. O coxo passou várias vezes por eles, estava desesperado à procura dos seus “cartonistas”, mas só os conseguiu encontrar no dia seguinte quando se apresentaram para mais um dia de trabalho. Tinha uma nova função para os seus subordinados: a Linha de Etiquetagem! Um rolo de papel passava por uma bacia de cola, era cortado mais à frente e o Peidão e o Milhas colavam as etiquetas nos caixotes. O trabalho era tão árduo, que eles começaram a ficar com calos nas mãos, uma violência inadmissível para estes “meninos de boas famílias”. Depressa descobriram uma maneira de se safarem. Bastava haver um atraso na fase da colagem para que mais tarde ou mais cedo tudo se encravasse e a bacia tombasse do alto do tripé e o chão ficasse forrado de cola, ao mesmo tempo que o monstruoso rolo de papel se enrolava na máquina que o puxava, entrando tudo na redline, sendo necessário carregar no botão encarnado para parar a produção. Isto significava trinta minutos de descanso para os nossos jovens e trabalho árduo para os verdadeiros operários. E mal as máquinas tornavam a roncar, mais tarde ou mais cedo a cena repetia-se. O coxo andava desesperado e tudo só voltou ao normal quando a dupla Milhas e Peidão foram separar tampinhas para uma arrecadação perdida algures numa ponta do Pavilhão. Mal o chefe os deixou sozinhos, descobriram um buraco e adormeceram. Tiveram azar. O Encarregado Geral e o Chefe Máximo detectaram-nos por acaso. O Milhas adormecera com os pés de fora! Agora iriam trabalhar a sério. Devido a serem muito religiosos, os céus ajudaram-nos. O mês chegara ao fim, os salários foram pagos e eles entregaram o papel do despedimento ao mesmo tempo que o Kikas.   

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