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Thursday, May 12, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 67 - O Dente de Elefante

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Depois de ter marrado com o descapotável do Chulo do Pimenta, o carro que dobrava ao meio de cada vez que arrancava, visto o proprietário ter-se limitado a serrar o tejadilho, o Bajoulo ficou atulhado de dívidas. Estava no top dos estudantes paço-arcoenses mais endividados da região de Cascais, visto que o Pierre-Pomme-de-Terre nunca chegava a essa situação enquanto o pai teimasse em coleccionar libras em ouro. Só muito mais tarde é que iria ter de se ausentar do país, porque quem andaria atrás dele não seria o Chulo do Pimenta, mas a Interpol. Tornou-se, por assim dizer, num “tio”, com direito a escolta policial e tudo. O Bajoulo tropeçou à noite na solução quando se preparava para recolher aos aposentos: um soberbo dente de Elefante a quem o papá dava lustro todos os dias. Ia-se estatelando no chão devido ao dito cujo e à grade de cervejas que lhe forrava o estômago.
- Amanhã já estás a morar noutra freguesia e o Chulo do Pimenta a chatear outro, – prometeu ao dente, expressando-se meio em português meio em alemão, com um arroto de cevada pelo meio.
Foi até à garagem arranjar espaço para o “canino” na sua Zundapp, cujo motor deveria estar no Algarve junto ao seu legítimo dono. Amarrou ao banco um caixote de fruta e irritou-se quando descobriu que só havia “meio-gordo” no frigorífico.
- Nestas condições deploráveis não consigo gamar…trabalhar, trabalhar. Vou ao “Bachil” buscar um suminho.
Por pouco não se cruzou com o Estudante Focas, o Pilas e o Irmão do Marreco, que iam fazer uma visita de cortesia ao Bakáus, o irmão mais velho. Os turistas bateram, bateram, mas o mano do Bajoulo dormia um sono profundo, sonhando com uma resma de suecas deitadas sobre a sua soberba “Honda 50”. Como não lhes abria a porta, ficaram preocupados com a saúde do luso-alemão. Treparam ao primeiro andar, entraram por uma janela e iniciaram de imediato uma batalha campal com laranjas, na cozinha, mas mesmo assim o Bajulão não acordou. Quando acabaram os citrinos, passaram para as roupas, arremessando-as da janela. Finda a brincadeira , saíram pela porta e foram interceptados pelos gritos estridentes duma das vizinhas, que lhes chamou “ladrões”. Quando o senhor Bajoulo regressou, achou estranho ver as suas cuecas mijonas penduradas no catavento do General e a toalha do bidé a ocupar o espaço reservado à bandeira nacional, mas a sua preocupação estava exclusivamente reservada para o incisivo do Elefante. Iria amarrar o dente à mota, logo após a última ronda do papá, para que no dia seguinte fosse o primeiro a sair para o “trabalho”, ou seja, ir vender o marfim lá para os lados da capital.

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