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Tuesday, September 17, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 49 - Bertolândia


Comandante Guélas

 Série Colégio Militar


O Externato Teixeira Rebelo preparava-se para comemorar mais um 1º de dezembro, a única cerimónia que ainda se mantinha, e agora a mais importante na agenda do país, depois da venda das Selvagens ao estado espanhol. Para trás ficara o fanatismo dos discursos desequilibrados de trincheiras, típicos de guerras de fação, onde só existiram ou defeitos ou virtudes, e tudo isto porque o Colégio Militar parara num ponto. Até o patrono mudara, Afonso de Albuquerque, modelo de vida e de ação, dera lugar a uma Berta, importada das ilhas, com duas pernas e sem manchas pretas.  No Zimbório perfilhava-se o batalhão, Escolta incluída, com os soberbos cavalos de pastelaria, prontos a galopar mal dessem ordem para introduzirem as moedas nas ranhuras. Na primeira companhia estava à vista de todos uma das  consequências da “Reforma do Alguidar”, aquele que não fora à tropa por sofrer de enurese, que o impossibilitava de ter a ereção matinal após o toque da corneta: na ânsia de trocar “valores” por “lucro rápido”, internacionalizara-se o colégio, e assim o batalhãozinho mostrava com orgulho o seu cromossoma extra no par vinte e um, porque fora confundido com um chinês. Ao seu lado estava o Perna de Pau, com o membro inferior direito nivelado por um tacão, que só tinha sido descoberto na terceira noite quando uma almofadada o obrigara a lutar descalço. Os elementos femininos do Batalhão da Luz estavam retidos na Brandoa, mais uma vez o autocarro que as trazia diariamente da Pensão de Odivelas, após a transformação do mosteiro em Centro Comercial, acusara o desgaste, e recusara-se a subir. Do edifício prometido só existia uma palete de tijolos e um aglomerado de ferros ferrugentos, os da primeira leva, antes do desaparecimento dos três milhões, um processo que continuava em segredo de justiça, apesar de todos saberem que os milhões estavam escondidos numa agência bancária algures a meio do Atlântico. Nos claustros a estátua em bronze da Berta, cuja biografia oficial a colocava ao lado de D. Nuno Álvares Pereira, por ter acabado com a “última limitação de género da República Portuguesa” (sic), continuava a sofrer atentados periódicos do “Grupo Zacatraz”, mas desta vez o tradicional bigode fora substituído por um furo na parte posterior, e um “A” no início do nome. A responsável atual, a Tânia Vanessa, que substituíra apressadamente a açoriana depois desta ter sido vítima de um “Ramalho” no Colombo, no mesmo sítio onde tinham saltado os dentes ao Proença, ato que os governantes tentaram em vão, depois de mudarem a lei várias vezes, classificar como terrorista, acabara de autorizar a constituição de mais uma companhia, a “Ala dos Namorados” que, segundo palavras da governante, “representa a simbiose definitiva entre a Cruz de Avis e a Barretina, ao mesmo tempo que promoverá o incremento de alunos no 1º ciclo a curto prazo”.  O tradicional toque da corneta, que regulou o tempo na Luz durante dezenas de anos, fora substituído pelas músicas dos “Caramelos com Adoçante”, a série do momento, patrocinada pela Fundação Cabral Branco, que também explorava o Restaurante “Os Caracóis”, nas instalações do antigo ginásio, uma das contrapartidas da agenda escondida. No palácio do conde de Mesquitela, onde tantos deveram tantas aspirinas a tão poucos, situava-se agora uma loja árabe, “al-Guidar”, de medicina alternativa, que vendia ervas aromáticas que punham os alunos em permanente estado de felicidade, para que ficasse bem patente a eficácia das mudanças, que tinham transformado o colégio no “Paraíso da Luz”, como dizia o panfleto distribuído em todos os semáforos da capital pelos romenos da “Cais”. Ao seu lado estava o bazar chinês, “A Xunga da Terceira”, com a exclusividade do enxoval da Luz, que incluía a célebre farda unissexo com Kilt cor de pinhão. A entrada do representante do governo foi anunciada, e quando o político se preparava para discursar, ouviu-se um toque de telemóvel:
-  Moçooo és um Jericoacéfalo….um burro sem cérebro!
Era a senha do “Grupo Zacatraz”, do meio dos espectadores saiu uma turba com mocas nas mãos, que se precipitou sobre o Dr. Sem Canudo de nome Alberto, arrastando-o para o primeiro andar, em substituição do tradicional Miguel de Vasconcelos.
O som da excelência a bater no chão duro ecoou pelo Zimbório, e acordou o Leninov, ucraniano, que entrara já com bigode, e tivera o mesmo impacto que o Sissé nos anos setenta.
- De pé na cama todo nu, - gritou-lhe um graduado com uma trincha na mão.
Sorriu, mesmo sabendo que no dia seguinte tinha "Apresentação à Alvorada" de "pano-cotim-pano", cama para fazer, e tudo isto em vinte minutos, caso não quisesse comer vários abrunhos por chegar atrasado à formatura.

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