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Thursday, August 01, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 46 - Nos idos de março


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O Colégio Militar é feito de sonhos, tem várias dimensões, tem algo de misterioso, de mágico, de fascinante, de sedutor e de sinistro, o seu nome tem todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Um dos mitos que corria neste ano de 1936 dizia que o irmão, sacerdote, do temido capitão Belisário, professor de português, chumbara tantas vezes um aluno, que este se suicidara da Ponte de D. Luís. Outra estória contava que uma boiada a um professor durante uma refeição, uns anos antes, chocara tanto um diretor, que este se suicidara com um tiro na cabeça. Do professor de desenho e matemática, o Madureira, contavam que namorava há muitos anos com uma rapariga e que, por ser tão tímido, nunca a pedira em casamento. A distração também era o seu forte, por isso um dia foi alvo de chacota dos alunos, pois apareceu na paragem do eléctrico fardado da cintura para cima e à civil da cintura para baixo.

- Vamos dar “pusia”, - disse o professor de português, tentando disfarçar o seu sotaque de Trás-os-montes.
- Pusia? – Perguntou o Pissocas, pondo a turma a rir.
A fúria do Bernardim foi tão rápida e intensa, que se levantou da secretária com a vara na mão, e arriou em todos num abrir e fechar de olhos. O mesmo não acontecia ao Tabi dos anos setenta, porque as dificuldades auditivas careciam sempre de uma pergunta de reforço:
- Stor, posso bater à …..?
- O quê? – Perguntou ao 601 o professor de inglês, com a mão em concha junto ao ouvido.
- Apanhar a caneta!
Na aula do padre Sancho, professor de moral, considerado o maior pregador de Lisboa e arredores da década de trinta, cujos temas até aí tinham sido a avareza, a luxúria, o medo, a fé, a mentira, o roubo, ia-se dar um acontecimento. Quando todos se preparavam para o habitual sono reparador:
- Hoje vamos falar de “masturbação”, - disse o sacerdote com aparência de camponês.
O tema foi de imediato traduzido à turma em linguagem gestual pelo Andorinha. E o docente prosseguiu:
- “Quando vos sentirdes acariciados pela mão do diabo, entregai-vos nos braços do Senhor”.
O padre estava enganado, a mão que tocava nos meninos não era a do Demo, mas sim a dos próprios.
- “O uso e abuso do onanismo contribuem para o enfraquecimento do organismo”, - continuou.
O Plauto não aguentou o sermão e interveio:
- Então se eu bater uma terei de rezar vários padres-nossos, para não adoecer? Vamos todos direitinhos para o inferno.
O assunto era delicado, e o tema recorrente, até o tenente Bernardim, professor de português que vivia no colégio, avisava os alunos das tentações do Mal:
- O Eça de Queirós só pode ser lido pelos alunos do último ano, porque contém capítulos que os meninos de doze e treze anos devem evitar.
Quem não evitava as novas tecnologias era o alferes Remédios, responsável pela disciplina de geografia, que usava com frequência um projector, onde eram apresentados os mapas dos rios na parede branca da sala. Mas como nem tudo são rosas, a obscuridade da sala era aproveitada por muitos para porem o sono em dia, até que numa aula uma distração do professor levou ao aparecimento da Rosa internacional do momento, a Jean Harlow, em trajes demoníacos, que arrebitou as cabecinhas dos presentes. Pelo contrário, o Carcaça, tenente-Coronel, professor de inglês, recusava usar o “Linguaphone”, por isso obrigava os alunos a colocarem um lápis atravessado na boca:
- Só assim é que conseguem produzir os fonemas de Oxford ou Cambridge, - explicava.
Os rumores diziam que o Cabeça de Apito ia deixar a direcção, sendo naturalmente substituído pelo Réptil. A vida do Colégio Militar desenrolava-se ao som da corneta, era intensa e rotineira, entre o Toque da Alvorada, às 7 da manhã, o Toque de Recolher às 22H00 e o Toque de Silêncio às 23 horas. Mas havia sempre tempo para fugir à rotina. Foi isso que fez o Andorinha, quando um dia resolveu construir um pára-quedas com uns lençóis. Coseu-os e nas pontas atou umas cordas. Lançou-se de uma varanda do colégio num domingo à tarde, e aterrou com estrondo, mostrando o seu “engenho e arte”. Fraturou uma perna e apanhou vários dias de prisão. O jogo da navalha também tinha adeptos, ganhava aquele que conseguia, em menos tempo, executar uma sequência de espetadelas com uma navalha entre os dedos de uma mão aberta.

 

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