miguelbmiranda@sapo.pt

Saturday, July 27, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 45 - Um dia na vida do batalhão de 1934


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

  
- Vamos a acordar, a alvorada já tocou há muito tempo, vão lavar essas fuças ramelosas, - gritou o Búfalo, mostrando o dente de ouro, numa cara de suíno.
Este capitão, temido por todos, teve o seu equivalente nos anos setenta, o tenente Aparício. A água que saia das torneiras manteve-se na mesma temperatura, gelada, porque só assim, diziam, é que a rapaziada ficaria rija. O batalhão colegial era composto por 450 alunos e 7 companhias, tendo como diretor o Catita, e neste dia uma das aulas de português estava a ser ministrada por um professor baixote e barrigudo, o temido capitão Belisário. A turma de ratas acabara de receber uma tarefa, cada um tinha de escrever uma carta para a família.
- Quero textos com pés e cabeça. Como é o primeiro teste, só dou notas entre oito e doze valores.
O silêncio imperava na sala, o oficial deslizava pelo espaço atento ao trabalho dos alunos. Quarenta e cinco minutos depois a corneta tocou a dar por encerrado os trabalhos. No dia seguinte tiveram nova dose de língua pátria, e após os procedimentos militares normais, o professor deu ordem para se sentarem, colocando de seguida o molho dos exercícios feitos no dia anterior.
- Entrega e correção das cartas para os papás, - disse com o sotaque transmontano.
As notas situaram-se como prometera, entre os 8 valores e os 12, com excepção do Gordo, que apanhou cinco:
- O meu capitão disse que não dava menos de oito, - reagiu.
- Olha meu rapaz, não há regra sem excepção!
Na Ginástica o Fu Manchu, esperava que a turma ficasse completa para poder iniciar a aula:
- Dá lixenxa, meu capitão ? – Pediu um aluno imitando o sotaque beirão do professor.
- Dou, xim xenhor, - respondeu o docente, presenteando o galante com duas soberbas estaladas.
O AP, professor de matemática, que alternava entre a depressão e a euforia, refletindo-se isso nas notas, distribuía positivas a todos, comportamento recorrente sempre que serviam lulas guisadas ao almoço.
Já nesta altura havia mitos, e um deles dizia respeito a um graduado do passado, o Selvagem, que tinha como firmeza predileta pendurar os ratas com uma corda, pelos pés, no galho de uma determinada árvore, caso o tempo estivesse bom, pois nos dias de chuva os contemplados eram obrigados a estar com os braços abertos lateralmente, com compassos abertos entre as axilas e o tronco, e dicionários nas mãos. Nos estudos os regentes usavam os mesmos métodos pedagógicos que os seus colegas dos anos setenta, o Lêndea iria ter um sucessor equivalente, o Ferrari, pois o seu castigo consistia em torcer a orelha do aluno prevaricador lentamente; ao Bêbado, que usava o ponteiro de madeira para martelar as cabeças ou as costas, o que tivesse mais à mão, antecedera o Santola e a sua temida régua de metro e meio, ao mesmo tempo que insultavam e ameaçavam os desordeiros. O herói predileto de 34 era o Texas-Jack, enquanto que nos anos 70 reinava o major Alvega durante o dia, e a Gina à noite. Comum às duas gerações era o ex palácio do Conde de Mesquitela, a Enfermaria, e em ambas existia um enfermeiro com o nome de Valentim!
Na última formatura do dia, a seguir ao jantar, o Comandante de Companhia leu a ordem de serviço, começando pela frase do costume:
- Determino e mando publicar – começando por referir a punição em dez dias de prisão de um soldado em serviço na quinta “por ter sido encontrado pelo sargento da ronda a cometer actos ilícitos em cima de uma vaca”.
O que de mais semelhante havia nos anos setenta, dizia respeito ao pessoal que ficava no colégio aos fins-de-semana e divertia-se a atirar clorofórmio para cima das galinhas, que caiam redondas, nunca se sabendo se lhes aconteceu o mesmo que à ruminante. Finda a leitura, ficaram a saber que o tempo de recreio até ao toque de recolher iria ser preenchido com uma firmeza: “Puxar à Nora”. A companhia recebeu de imediato ordem para marchar à roda do geral, cujas cadências foram sendo alternadas, entre o ”em frente marche” e o “passo de corrida em frente marche”.  
 

No comments: