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Tuesday, March 23, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 28 - O Burro da Pradaria



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Comandante Guélas

Série Quitéria Barbuda

O João era um adolescente que só admitia no seu quintal cães com pergaminho e quando resolveu que tinha chegado a altura de cruzar a sua pastora alemã, escolheu o cão que era praticamente do Peidão, o Bugio, um soberbo macho da mesma raça, inimigo juramentado do Torpedo, o maior rafeiro do Alto de Paço de Arcos, propriedade do célebre gang dos dez manos, que tinha uma raiva compulsiva ao Pitrongas, um flamingo da raça humana. No dia D o João tapou o ganha pão da sua pastora com uma perícia lenta de artífice, pois desde que ela entrara no cio ele via pesadelos no horizonte com rafeiros sinistros, que roubavam virgindades num latir , e dirigiu-se para a toca do Bugio, pronto a enfrentar o desafio dos limites. A cadela foi à trela, com disciplina severa de prisioneira. Já se via dono e senhor de uma soberba ninhada de arianos, subversivos no melhor sentido, abafadores de gatos, de rafeiros e de carteiros. Mas a vida sempre fora mais imprecisa do que parecia. Resolveu passar pela praceta para também ele desfilar os seus genes, desta feita castelhanos. A zona borbulhava, alguém tinha gamado o cachimbo da mota de um inimigo de Caxias, e estavam todos frente a frente para o combate, um já se encontrava na fase do “agarra-me se não eu mordo”, mesmo estando solto, e as meninas iam-se sentando para assistir à luta de galos…galitos cocós! A namorada do Graise distraiu-o com a sua sensualidade e a cadela entrou no jardim para se aliviar. Ao fundo, muito ao fundo, o Fiorde, um rafeiro aristocrata, dormia a sono solto, até que as contingências da fisiologia canina chegaram ao seu olfacto de cão de rua e o despertaram para a realidade. Havia uma fêmea a chama-lo para a perdição e ainda por cima no seu território. Ainda mal se levantara e já uma precoce encharcava o pano de cozinha que fazia a vez do lençol. Quando a pastora alemã o viu nem queria acreditar que o semelhante se dirigia para si em cinco patas, com a extra a arranhar o chão. Fez de imediato uma inversão de marcha e preparou-se gulosa para o embate. O cacete do Fiorde dobrou quando deu de caras com o saiote e o rafeiro arregalou os olhos. Tentou todas as manhas do Kamasutra, mas o chouriço teimava em dobrar, para desespero da fêmea. E quanto mais tentava mais desesperava, as meditações viscerais toldavam-lhe a razão. Mudou então de estratégia. Lembrou-se da máxima do seu avô, o Piloto, que dizia que enquanto tivesse língua e dedo não havia cadela que lhe metesse medo. Afocinhou de imediato, e com tanta força que acabou por esfrangalhar o cinto de castidade, ficando com o caminho livre para o pecado. A pastora até uivou ao sentir o Fiorde todo dentro de si, pois a galga era tanta que ele parecia que tinha entrado sem despir o fato. Foi nesse momento que o dono deu pela falta da sua preciosa cadela e no estado em que os dois já estavam nem sabia quem era um e quem era o outro. Teve de ser agarrado pelos amigos, porque o que lhe ia na alma não era benéfico para a saúde do experimentado Fiorde. Entretanto, no alto de Paço de Arcos o Bugio já substituíra a dama pelo vagabundo do Bóbi, o cão do Zé dos Porquinhos, senhor de uma soberba cauda encaracolada, que lhe facilitava sempre o caminho para a luxúria. E a cena passava-se, como já era hábito, na relva e perante o olhar reprovador do avô do Peidão, um general que vociferava sempre quando se deparava com estas cenas de sexo explícito. O Bóbi reclamava sempre quando o Bugio não o respeitava, mas não tinha outro remédio senão aceitar as contingências da natureza, que fizera um pequenino e o outro um matulão, com um rosnar que o mantinha em sentido e sem hipóteses de fuga. Quanto ao João, que estava imobilizado, não teve outro remédio senão esperar que o Fiorde soltasse a sua pastora alemã, acabando o dia a rezar para que a traição não vingasse. Mas vingou. Algum tempo depois uma nova ninhada deu os primeiros passos à luz do dia e depois de distribuídos pelos novos donos, dois canídeos se destacaram desta improvável união, o do Milhas, o Sinai, o único com um tufo a meio dum olho, que iria ter um conflito permanente com o gang dos dez irmãos, seus vizinhos, e o cão do Zé Pincel, cujo nome não ficou para a história, a não ser as suas enormes orelhas que o baptizaram para sempre como o Burro da Pradaria.


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