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Thursday, March 11, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 26 - De Cascais a Paço de Arcos na Deusa


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
Ainda a noite era uma menina e já cinco paço-arcoenses, de boas famílias, tentavam entrar na boite “O Farol”, pelo lado do mar. E tudo por culpa do Max (o porteiro), que não os tinha deixado entrar pelo lado legal. Mas (e as epopeias começam sempre por um “mas”), nessa noite o Rodrigues (o proprietário) resolvera ir descansar a bebedeira para o lado errado (costumava estar no Bar, ao cantinho, junto ao Escalar, o maior peixe do aquário, que o Pacheco costumava aprisionar num copo em cima da mesa – um peixe muito rijo), e deitara-se junto ao sofá da janela panorâmica de entrada da malta paço-arcoense. Caso tivesse fechado, o Pacheco entraria pela porta legal e puxaria os ferrolhos. Mas nessa noite estava tudo ao contrário! E foi por causa disso que o nosso muito estimado Mac Macléu Ferreira acabou a noite à beira de um ataque de nervos (ao contrário do rally da TAP, nas célebres noites da Penina, onde fora dormir para o Hospital de Cascais). De cada vez que um dos artistas tentava entrar, dava de caras com a focinheira do tio Rodrigues, que estava mais para lá, do que para cá. Era indecente!
- Olha, uma luz aqui em baixo, – alertou o estudante Focas, descobrindo uma pequena porta de madeira.
Durante tantos anos, tantos paço-arcoenses tinham subido pela janela panorâmica nº 1 e nunca haviam reparado naquela humilde portinha. E como a rotina é sempre a grande inimiga da segurança, tinham-se esquecido de apagar a luz (talvez com a pressa ou com a mudança de empregado, para pagarem menos).
- É o armazém e está cheio de bejecas, – informou à rapaziada o estudante Pontas.
Esqueceram-se do Rodrigues e passaram a atenção para o armazém. Cinco minutos depois, já o estudante Focas forçava a entrada com uma humilde barra de ferro.
Crash – Crash
Um mundo de loirinhas passou a sorrir para aqueles devotos estudantes. Mac Macléu Ferreira ficou estático de prazer, antevendo já outra passagem pelo Hospital de Cascais, para receber mais uma dose de glicose. Mas depressa voltou à realidade e anunciou:
- Vou buscar a Deusa (um fantástico e robusto Citroen Dyane – que saudades!).
Antes da Deusa foi atestado um Peugeot que acabara de chegar com mais paço-arcoenses. Dava para todos, respiravam os ares da Liberdade, e o Rodrigues não passava de um porco fascista, explorador de estudantes do povo trabalhador, mesmo que fosse filiado no PCP. Deusa atestada e aí foram, rumo à Pátria do Comandante Guélas.
Dentro do bólide nem se respirava, devido à Tara. Estavam no Verão e, por isso, o tecto ia escancarado. Faziam-se contas! Mac Macléu Ferreira queria 50%, alegando ser o proprietário do veículo de transporte. Deu-se início a um grave problema laboral. Depois do 25 de Abril, todas as profissões tinham sido legalizadas, incluindo a de Estudante-Ladrão. O patrão tinha direito a 20%, igual a todos os outros. E a gasolina, quem a iria pagar?
- A tua mãe, – informou o Pontas.
O barulho da mesa redonda foi interrompido pelo estilhaçar de uma “bejeca”, de encontro à estação do Tamariz. Mac Macléu Ferreira nem queria acreditar no que ouvira.
- Quem é que atirou a garrafa? – Perguntou, largando as mãos do volante, voltando-se para trás, e reduzindo para terceira, a 110Km/hora.
A Deusa abriu a boca, gritou desesperada, mas continuou, implacável e severa.
- Garrafa!? Qual garrafa? – Questionou o Bajoulo, mostrando uma grade cheiinha, enquanto escondia a outra atrás do Peidão.
- Pareceu-me ouvir o barulho de uma garrafa a partir-se, – respondeu Mac Macléu Ferreira, pondo de novo a quarta, desta feita a 112Km/hora.
- Além de míope, estás a ficar surdo – informou o estudante Focas, ao mesmo tempo que arremessava a segunda “bejeca” para os pés de um casal de “camones”, que apreciava as noites de verão de S. João do Estoril. Ainda o Mac Macléu Ferreira se preparava para tirar, novamente, as mãos do volante, reduzir para terceira a 114Km/hora e virar-se para trás, e uma granizada de “bejecas” se precipitava de encontro ao castelo, que aparecia sempre depois de S. João. Os óculos do Mac, os olhos e a barba eriçaram-se e tentaram comer vivos os autores de tão vil acto.
- Para a próxima paro o carro e saem todos, – ameaçou Mac Macléu Ferreira, antevendo uma noite de luxúria com a última grade de loirinhas. Mas as suecas queriam mesmo sair! A última abandonou a Deusa à entrada de Paço de Arcos, indo no seu encalço a grade vazia. Quanto ao Mac Macléu Ferreira, estava em estado de choque, devido ao barulho ritmado de “bejecas” de encontro ao passeio, a partir de S. Pedro. A curva foi feita à velocidade do costume, 120 Km/hora, com o pessoal de fora e a ajudar à inclinação. Que grande Deusa! Outros tempos, outra geração, com muita sorte ao volante.

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