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Sunday, November 02, 2008

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - O Peru de Natal



Comandante Guélas 
Série Paço de Arcos

Quando o Vaca Prenhe foi conhecer a futura sogra, a senhora nem queria acreditar no que via. Educara a filha nos melhores colégios do país, onde se fumava atrás do túmulo de D. Dinis, com princípios morais dignos da nobreza e agora aparecia-lhe em casa um estudante cromagnon, tipo Caniche gigante, que estava retido há vários anos no 7º Ano do Liceu, tendo conseguido passar unicamente à disciplina de “Introdução à Política”, retenção esta que, segundo a sua verdade, se devia a uma traiçoeira pneumonia dupla. Só podia ser um pesadelo! Beliscou-se mas os cabelos pelos ombros estilo carapinha, do pai do seu futuro neto, continuavam a fazer-lhe cócegas nos olhos. Olhou para baixo e reparou que o “coisinho” vinha equipado com uns soberbos chinelos ortopédicos com unhas estilo garras. A filha trocara o Pitrongas, um Flamingo majestoso, por este Pteurossauro da Terrugem. O tempo passou, a revolução deu-lhe um empurrão académico milagroso e o cromagnon acabou por definir o seu grande objectivo de vida, que era ter direito a “Dr.” nos cheques. Mas às vezes tinha recaídas existenciais! E uma delas foi no período do Natal. Para subir um pouco na escala de preferências da sogra ofereceu-se para ir buscar o peru, no carro dos pais, a Caxias. E levou o cunhado Peidão, um jovem atinado e já com muitas preocupações ambientais, que seria o seu moço de recados pois o Vaca Prenhe já se considerava doutor e ficava mal a um jovem adulto com tantas habilitações académicas, ir buscar uma ave à cozinha duma messe, recheada de praças e cabos. O cromagnon ficou sentadinho ao volante a ver a chuva a cair com violência e a fumar um cigarrinho. Recolhido o bicho, que vinha desmontado, o motor do carocha preto tornou a roncar. Ainda tinham percorrido poucos metros quando o carro parou repentinamente. O Vaca Prenhe olhava fixamente para o horizonte. Junto a uma paragem de autocarros rodeada de água por todos os lados, estava um jovem cristão de fato azul cueca, pronto para ir passar a consoada com a família. O Peidão olhou para o cunhado e viu-o a deitar fumo das orelhas, ao mesmo tempo que acelerava o carro, que estava em ponto-morto. No ombro esquerdo do motorista estava um morcego com uma capa vermelha e no outro um anjinho estilo OMO.
- Ele está a gozar contigo! – Segredou-lhe o morcego. – Prego a fundo rapaz, como antigamente.
- Tu agora já és pai e marido, tens algumas responsabilidades, - avisou o anjinho.
- É só mais uma vez, dá-lhe uma banhada, – gritou o da esquerda.
- Pensa no desgosto que vais dar à tua querida sogra.
- Acelera antes que chegue a carreira. É a despedida de solteiro que a tua mulher não te deixou fazer.
O carocha já roncava!
- Se não avançares já, nunca mais te ajudo nos exames nacionais como te fiz em português, quando levaste o livro certo e copiaste aquilo tudo. E sabes o que isso significa? – Ameaçou o morcego com a capa vermelha bufando-lhe aos ouvidos.
O carro saiu a guinchar, o Vaca Prenhe levava o Peidão colado ao banco, com o peru a querer sair da caixa. A enorme poça levantou-se toda de uma vez e o jovem cristão de fato azul-cueca desapareceu no meio do Tsunami natalício.


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