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Wednesday, November 12, 2008

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - O Submarino II



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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos 
O Motim

A próxima regata, a do “Pirilampo Mágico”, era de noite e o comandante do “Carapau Cocciolo” inscrevera-se, determinado a levar mais uma taça para o convés, junto às grades de cerveja. E foi durante uma reunião de fim-de-semana, em que se delineava a estratégia de “velejar por toda a costa” (patrão Lopes), que o cartógrafo Mac Macléu Ferreira tomou conta da ocorrência.
- De noite, com o 75% à proa? – Perguntou indignado o ex-loirinho e agora quase calvo, caixa-de-dioptrias.
- É mais uma vantagem para a nossa vitória, - explicou o comandante. – A organização exige que cada concorrente leve um objecto florescente e nós temos a sorte de um de nós brilhar. Vamos pontuar por “originalidade”.
- Mas isso já interfere com os meus negócios, - gritou o cartógrafo tendo um ataque de tosse, que não se sabia se era do tabaco ou do coração.
- Com os teus negócios? – Perguntou o marujo Cabeçudo, agora um especialista em “Política Internacional”, desviando o olhar do livro “Como fazer bifes de cavalo saberem a tornedó”, da autoria do Professor Tino, e fixando-se nas incalculáveis dioptrias do careca loirinho.
- Com o 75% amarrado à proa e a brilhar como um lampião, as lulas irão tomar de assalto o “Carapau Cocciolo” e amanhã não terei moluscos cefalópodes para empacotar, - gritou o empresário de moças recheadas dando uma palmada no 75%, que já roncava e acordou estremunhado:
- A minha dentadura, a minha dentadura???
Segredos e tabus era o que não faltava na vida desta tripulação com o maior currículo da vila e arredores. Numa entrevista recente à “Voz de Paço de Arcos”, Mac Macléu Ferreira declarou que nunca revelaria o segredo do recheio das suas lulas e o mestre da embarcação confidenciara que fora preciso investir muito tempo e algumas cervejas para dar prontidão à tripulação, porque fazer parte do submarino era uma profissão a tempo inteiro.
- O meu trabalho como capitão da embarcação não é reunir os “magníficos”, mas sim ver-me livre deles no final do dia, quando as cervejas acabam, - explicou ao senhor Coutinho, o dono da revista. – Já tive um dia de chamar de urgência um chinês para vir buscar o mano, que pretendia sair pelo lado do mar. Se a polícia marítima visse seria acusado de estar a desembarcar clandestinos.
Na marina é impossível passar pelo “Carapau Cocciolo” sem saber o que é o “Todos os Chatos”. Os membros do submarino foram talhados ao ponto de irem ao fundo da natureza humana buscar os melhores flatos, especialmente no que eles representam de vaidade para quem os solta, mostrando a elegância, a acuidade e a profundidade destes skills náuticos. Os marujos do “Todos os Chatos” são mestres na retórica e oratória náutica, aparecendo muitas vezes sonolentos , só saindo do torpor quando cortam a meta no terceiro lugar. Nestas alturas aplaudem a mãos cheias o momento em que o maçadíssimo Vaca Prenhe ergue a taça do último. Mas houve um dia, tirando o caso da lulas, que a tripulação do “Carapau Cocciolo” esteve perto do motim: em vez de várias grades de cervejas o carteiro entregou, à vista de toda a marina, um pacote de fraldas “Lindor Anatómico”. O 75%, que tem uma concepção épica do mar, acusou os colegas de “achincalhamento marítimo” e a sua fúria chegou a ser arrebatadora e comovente, tendo fundido várias lâmpadas da Marina e atraído todos as tainhas da zona. O submarino virou traineira e tudo voltou ao normal quando o Mac Macléu Ferreira, um careca loirinho fascinante e com uma história ainda mais fascinante para contar, foi a correr hastear o pavilhão. A única excepção foi o marujo Cabeçudo que tinha acabado de perder o seu novo livro, “Como transformar carne de cão em carne de veado” (Zé da Quinta). Nesse momento acabara de atracar o rival “Todos os Chatos”, onde o sentimento predominante era o tédio. A primeira imagem do submarino traineira era a de um veleiro em actividade intensa, cuja acção da tripulação antes de cada regata era levar o 75% em mãos, seis, para a proa, previamente forrada a papel de jornal. Nestas ocasiões a imagem de um veleiro de competição dava então lugar à de uma unidade de cuidados intensivos.

4 comments:

Anonymous said...

Serão tomadas as providências necessárias e adequadas.
Vai ser reposto mais um vidrão na área da Marina em exclusivo para o "submarino"
A Marina de Oeiras

Rafeiro Perfumado said...

Um conselho sincero: para que as pessoas venham aqui e leiam com atenção e comentem, há que dar essa mesma ideia nos blogs que visitas.

Abraço.

Violeta said...

Imaginação qb por aqui.
Boa noite e boa inspiração...

dona tela said...

Venha conhecer os meus tios.

Muito obrigada pela atenção.