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Tuesday, October 07, 2008

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - Operação “Solaris”





O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

A História fala muito da guerra química que dizimou as trincheiras da Flandres, mas nunca mencionou o cogumelo de fumo que ficou para sempre gravado nas memórias dos adolescentes de Paço de Arcos no longínquo Verão Quente de 1975.
  
Vivia-se uma espécie de epidemia mental sob a forma de pensamento único universal, a época era a do PREC, os camaradas Durão Barroso, Nuno Crato e pandilha eram donos e senhores das ruas, e tentavam substituir-se ao ministério na reeducação do povo. Mas havia concorrência! No Cine-Teatro de Paço de Arcos os pupilos do Barreirinhas oferecerem um dia às massas o filme russo rival do americano "2001 Odisseia no Espaço", que tinha um título que mais parecia a marca de um bronzeador:  “Solaris “. A juventude paçoarcoense compareceu em massa ao evento cultural, devidamente apetrechada com um argumento que não iria deixar chegar ao fim o filme feito por uma sociedade cujos promotores diziam ser "o paraíso na Terra". Ainda não tinham decorrido cinco minutos de projeção e já o Graise e o Peidão despejavam sobre o pó, de nome "Litopone", comprado no Zé da Antónia, uma garrafa de Ácido Muriático. Formou-se de imediato uma nuvem esbranquiçada que saiu direitinha, e em formato de cogumelo, para os lados do balcão. O Chico Sá, que tinha acabado de entrar, fugiu em debandada, assim como o Focas, que já estava a dormir, e que passou por cima do único preto que havia em Paço de Arcos, e que acabara de adormecer encostado ao ombro do Conan Vargas. Cinco minutos depois foi o Marreco, o responsável pela projeção, e atrás dele todo o cine-teatro, incluindo os camaradas. Os responsáveis pelo evento cultural depressa acusaram a “reação” de ser a responsável por tão vil atentado, que punha em causa a balda, perdão, a liberdade! O Todo-Boneco nem teve tempo para gritar a sua famosa frase, “espera aí que já cospes”, porque não houve  cenas com beijocas, cujas revolucionárias tinham bigode, com língua e tudo, uma oferta da revolução . O Milhas, a partir desta noite, ficou para a História como o espetador que permaneceu sentado, impávido e sereno, à espera  do recomeço da projeção. O Álhi, o bombeiro de serviço, ainda tentou apagar o fumo com a sua mangueira pessoal, mas fugiu a tempo, o cheiro intenso a merda superava o odor da sua nova companheira, e a isso ele não estava habituado. Na rua acusava-se o MIRN, e tentavam descobrir os autores de tão vil ataque químico. Foram chamadas as autoridades, representadas pelo Cabeça-de-Giz e o Chefe Bigodes, inimigo juramentado do Mac Macléu Ferreira, que iniciou de imediato a investigação, dirigindo-se ao local onde os organizadores do evento juraram terem-se refugiado os "meninos do MIRN", o restaurante “O Tino”, situado num daqueles sítios onde iam aqueles que não podiam ir a outro sítio, e onde o frio de fora juntava-se ao frio de dentro, numa casa de pasto que tinha como missão destronar o seu vizinho galego, dono do restaurante "Os Arcos". Quando entraram no estabelecimento comercial deram início ao inquérito, dirigindo-se ao primeiro suspeito, o senhor Carlos Ponta, que estava a fingir que jogava, numa máquina de “flipers” desligada. O interrogatório foi acutilante, outra coisa não se poderia esperar da tão famosa dupla:
- O senhor estava no cinema? – Perguntaram, com um olhar penetrante, do alto dos seus galões.
- Sim, senhor guarda.
- E o que foi lá fazer?
- Ver o filme, - respondeu o adolescente tirando um tremoço dum prato de alumínio amolgado, onde abundavam pequenos pêlos encaracolados.
Fim do Inquérito!
A projeção recomeçou uma hora depois, no meio de um enorme cheiro a esgoto, em que os únicos espetadores foram obrigados a assistir por ordem do Comité Central. Ao lado deles estava o Milhas que, como se disse atrás, fora o único otário a contribuir para o partido.

1 comment:

GUILHERME PIÃO said...

Sensacional...ehehe
Muito engraçado, na época da cortina de ferro um causo hilário, parabéns.
Abraços